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Da importância de derrubar a direita

Importa, acima de tudo, clarificar que os acordos de que tanto se fala ultimamente estão a ter por base algo da maior importância, um pilar central do funcionamento da sociedade: o emprego.

Vivemos, provavelmente, um dos períodos mais ricos, mais emocionantes, mais preocupantes e mais aguerridos politicamente dos últimos anos: depois das eleições de 4 de outubro, que retiraram maioria à coligação de direita, de forma algo inédita os partidos da oposição iniciaram um movimento de conversações e diálogo com visto ao derrube de um futuro governo de direita. E mais importante, um diálogo em torno de questões políticas centrais para melhorar a vida dos portugueses e portuguesas: salário, pensões, direitos!

Hoje discute-se mais política: em qualquer café, local de trabalho ou faculdade, já não é anormal um grupo de pessoas estar a discutir a situação política atual e a discutir possíveis cenários e soluções. Hoje as pessoas falam mais sobre aquilo que afeta as suas vidas e isso é importante. É importante porque, apesar de todo o trabalho que ainda tem que se fazer para combater a abstenção em tempo de eleições, este cenário político demonstrou que, de facto, a tradição já não é o que era e há quem esteja a forçar, e bem, uma forma diferente de fazer política.

E num cenário novo, as pessoas intrigam-se com o desconhecido, têm receio, é certo, mas também curiosidade e o exercício diário de informação e discussão da situação política é algo que também é relativamente novo na sociedade portuguesa, pelo menos de forma tão alargada como se está a viver.

Se é certo que ficou explícito que a maioria da população não quer mais a direita a governar, também é certo que há muitos fatores que podem influenciar o desfecho desta história. E importa, acima de tudo, clarificar que os acordos de que tanto se fala ultimamente estão a ter por base algo da maior importância, um pilar central do funcionamento da sociedade: o emprego.

O emprego está no centro de qualquer negociação ou conversa sobre o futuro do país, porque estrutura não só a sociedade como alimenta a economia. E independentemente dos desfechos possíveis, uma coisa poderá ser garantida pela nossa parte: tudo faremos para repor salários e pensões, bem como o combate pelos direitos no trabalho e pelo trabalho digno será uma prioridade.

Não podemos deixar passar em claro os ataques ferozes à contratação coletiva, por exemplo, que diminuiu drasticamente, desprotegendo trabalhadores e trabalhadoras, numa tentativa de diminuir o espaço de atuação dos próprios sindicatos. Menos contratação coletiva é sinónimo de menos direitos, maior instabilidade, menos força de reivindicação através da individualização das relações laborais.

Esta dinâmica tem atacado perigosamente uma fatia grande dos trabalhadores e trabalhadoras em Portugal, devendo ser revertido a favor de mais contratação coletiva: logo, mais direitos e mais proteção. Porque estamos a falar realmente do aumento do medo e da chantagem nos locais de trabalho, porque do lado do patronato se sabe que não havendo contratação coletiva todas as negociações serão feitas diretamente com o trabalhador ou trabalhadora.

Isto leva a diferenças entre os mesmos e a que não haja reivindicação conjunta da massa laboral por forma a pressionar os patrões para chegar a melhores condições de trabalho, a acordos sobre subida de salários ou diminuição de horário de trabalho. E a experiência tem ditado exatamente o contrário: com o ataque à contratação coletiva os direitos no trabalho diminuíram, existe uma baixa ou uma estagnação dos salários, o incentivo à procura dos sindicatos para resolução de problemas deixou de existir.

Por isso é tão importante, num momento político como este, que pode ser determinante para o futuro das nossas vidas, que a área do emprego não seja deixada de lado, mas antes seja mais do que nunca valorizada. Valorizada porque quando existem melhores condições para os e as trabalhadoras, também a economia e o Estado ganham nessa equação.

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
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