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A greve de fome de Luaty Beirão e o Jornal de Angola

Luaty Beirão está há 35 dias em greve de fome. Porque é que o Jornal de Angola, o jornal do regime angolano, não noticia nada sobre esse facto? Salvar a vida de Luaty é a grande batalha de quem defende a liberdade.

Luaty Beirão está há 35 dias em greve de fome. Em qualquer país do mundo, esse facto é notícia. Mas o jornal do regime angolano trata esse facto como um problema que “apenas é um pretexto para fazer ressurgir aquilo que em Portugal sempre se pretendeu: diabolizar Angola”.

Em Portugal há muitos problemas, mas o caso de Luaty Beirão e dos presos políticos angolanos é um problema de Angola e do regime de José Eduardo dos Santos. As portuguesas e os portugueses que protestam contra a situação de Luaty e dos seus companheiros, manifestam a sua solidariedade com presos políticos, defendem os direitos humanos, a Liberdade e a Democracia.

Neste domingo, o Jornal do regime angolano decidiu lançar mais uma diatribe contra Portugal e contra o Bloco de Esquerda. É costume já antigo, quando o regime angolano atravessa dificuldades, o jornal do regime lança diatribes contra um suposto 'inimigo externo', injuriando e caluniando quem não faz o beija-mão ao regime de Eduardo dos Santos.

Não esperávamos que o “Jornal de Angola” se tivesse tornado num órgão que defendesse uma abertura democrática do regime angolano, que favorecesse o diálogo na sociedade angolana, que explicasse porque é que em Angola, em 2015, não são autorizadas manifestações que não sejam lançadas pelo partido do regime ou porque “É proibido falar em Angola”. Mas, perante a situação atual, tão delicada, é absurdo vir acusar o embaixador português de “legitimar toda a ingerência personificada nas manifestações em Portugal”, por ter visitado Luaty - um cidadão que tem também nacionalidade portuguesa – e que naturalmente foi autorizado pelas autoridades angolanas a visitá-lo. E ainda mais absurdo é concluir com o lamento: “O Governo português, depois de tanto tempo, volta a cair na asneira de se pôr do lado errado”.

O “Jornal de Angola” não percebe que o embaixador só visitou Luaty, porque já não poderia deixar de o fazer. Nem percebe que o atual Governo português e as autoridades da União Europeia, sempre muito benevolentes com o regime angolano e as suas escandalosas violações dos direitos humanos, não poderão continuar a ficar mudos e quietos perante a gravidade da situação dos presos políticos angolanos e face aos crescentes protestos da cidadania.

Angola tem atualmente problemas agravados a nível interno e externo. À falta de liberdade, à crescente desigualdade social, a 36 anos do mesmo presidente da República, somam-se agora os efeitos da crise económica e outras dificuldades como a situação da Sonangol. Estes problemas chegam até a manifestar-se na desilusão de apoiantes internacionais seus. A revista E do jornal Expresso deste sábado, 24 de outubro de 2015, dá a conhecer o seguinte desabafo de um alto responsável da Antex, empresa responsável pela cooperação cubana em Angola: “Depois do que fizemos pelo país, estamos desiludidos com os angolanos”.

Neste quadro, um desfecho fatal no caso Luaty Beirão seria um desastre para o próprio regime angolano. O jornal defensor do regime, se atuasse de forma minimamente inteligente, deveria neste momento não agravar o isolamento do regime nem agudizar o conflito, mas pelo contrário ajudar a estabelecer pontes, para defender o próprio regime. Ao não o fazer, o “Jornal de Angola” vem pôr a claro que o regime continua apavorado pelo risco de uma “Primavera árabe” em Angola. Só que o pânico não é bom conselheiro político.

Em qualquer caso, para quem preza a liberdade, fica o alerta: o regime angolano está apavorado e não quer resolver o problema de uma acusação absurda (de golpe de Estado) contra os 15 presos políticos, nem mostra força para ter uma atitude positiva na resolução do problema.

Neste quadro, urge ampliar o movimento de solidariedade com os presos políticos angolanos, pela defesa da vida de Luaty Beirão.

Sobre o/a autor(a)

Editor do esquerda.net Ativista do Bloco de Esquerda.
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