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Já lá vão 32 dias - Diplomacia e Liberdade

É difícil a nossa a nossa tarefa diplomática, mas há limites para tudo. E um que nunca, jamais, em tempo algum se poderá ultrapassar, é o de deixar morrer um homem sem que, pelo menos, tentemos salvá-lo.

Tente explicar a uma criança de escola por que razão um país subscritor da Declaração Universal dos Direitos Humanos pode, ao mesmo tempo que a assina e se obriga a cumpri-la, prender 15 jovens enquanto estes discutiam livros e falavam do estado da nação. E como pode um Estado permitir que alguém, apenas pelo simples facto de discordar da governação desse mesmo Estado, tenha de entrar em greve de fome para chamar a atenção do mundo. Tente também, já agora, explicar a essa criança que o presidente desse Estado foi e é ele próprio, têm-no dito, um combatente pela liberdade. Tente explicar, por fim, como pode um Estado, além de tudo isto, proibir que os filhos da nação, entregues à liberdade pelo seu presidente, se manifestem acerca dessas prisões. Tarefa dura...

É claro que vai ter de explicar também a essa criança que falamos de Angola e que isto não é assim por toda a parte, que só acontece em países mal organizados e em democracias imaturas, e que o mundo é assim para aqueles lados (será?), mas que, mais tarde ou mais cedo, com a ajuda internacional e a nossa hábil e indispensável diplomacia, tudo se resolverá.

E por falar em diplomacia, e porque agora nos sentimos todos muito europeus, vamos lá ver o que a nossa tem feito ultimamente em relação a Angola:

No final de 2011, e após o jornalista Rafael Marques ter publicado o livro Diamantes de Sangue em que o incauto autor denuncia vários assassinatos e casos de tortura cometidos pelo regime angolano, o nosso primeiro-ministro Pedro Passos Coelho declarava que via “com muito bons olhos a participação do capital angolano na economia portuguesa”. Já anteriormente, quando questionado acerca da pequena questão dos direitos humanos (esse detalhe) com relação a um outro estado africano - no caso, o farol de liberdade e lusofonia que é a Guiné Equatorial - o nosso primeiro-ministro invocou o dever de cumprir e honrar as orientações assumidas por Portugal, prosseguindo a “linha de continuidade que a política externa deve merecer ao Estado português”.

Esta continuidade da política externa portuguesa já tinha sido evocada em 2013, quando Rui Manuel Parente Chancerelle de Machete, o nosso garboso Ministro dos Negócios no Estrangeiro, se desculpou publicamente por ter incomodado a nomenklatura angolana com a maçada da instauração de processos judiciais contra altas patentes do regime. Um acto custoso, mas só entendível à luz da coerência do governo português denotada nas declarações do nosso vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, no Verão de 2014, nas quais se refere na FILDA a José Eduardo dos Santos como um dos líderes africanos “mais respeitados”, confirmando também o apoio de Portugal à candidatura de Angola como membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU. Já em 2015, na mesma feira, a FILDA, Portas declara que “no meu calendário anual há o dia do pai, o dia da mãe, o dia de Nossa Senhora e o dia da FILDA" - isto um mês após a detenção dos jovens acima referidos. Ou seja, enquanto Portas dava louvas às relações económicas fantásticas entre Portugal e Angola, os jovens incautos eram atirados para o calabouço. Ah diplomacia!

Bem sabemos que estamos envolvidos em questões sensíveis. E que a nossa diplomacia tem tido no passado muitos contratempos e actores demasiado implicados para poderem resolver estes problemas, vá-se lá saber porquê. E sabemos também que, infelizmente, por um eventual enviesamento de informação, podemos não ter conhecimento de todos os factos. E sabemos que temos fazedores de opinião nas televisões que são consultores de uma filha de gente poderosa.

É difícil a nossa a nossa tarefa diplomática, mas há limites para tudo. E um que nunca, jamais, em tempo algum se poderá ultrapassar, é o de deixar morrer um homem sem que, pelo menos, tentemos salvá-lo.

Viva Luaty Beirão, combatente pela Liberdade!

Sobre o/a autor(a)

Linguista. Dirigente distrital do Porto do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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