You are here

Líder da UGT diz-se “mais tranquilo” com governo à direita

Ao fim de quatro anos de cortes nos salários e pensões, o líder da UGT defende que o PS viabilize a continuação do governo Passos/Portas por mais quatro anos. Dentro do PS, o debate é aceso sobre a estratégia a seguir.
Carlos Silva e Passos Coelho num seminário da UGT no ano passado. Foto António Cotrim/Lusa

Em entrevista à Antena 1, Carlos Silva diz que um acordo do PS com Bloco de Esquerda e PCP para viabilizar um governo alternativo ao da direita seria “muito instável” e "não dá garantias de que a governabilidade seja assegurada por quatro anos".

“Ficaremos mais tranquilos se a decisão do PS for encontrar um compromisso com o PSD e o CDS”, afirmou o líder da UGT.

A escolha política que o PS tem pela frente abriu o debate no partido, com várias vozes a exprimirem-se quer no sentido da de Carlos Silva, quer no do acordo à esquerda para uma mudança de políticas.

Este fim de semana, o deputado Sérgio Sousa Pinto anunciou a demissão do Secretariado Nacional do PS, prometendo justificações para a próxima reunião no partido. Mas quem abre a sua página de Facebook pode ver em destaque uma fotografia do comício do PS da Fonte Luminosa em 1975, sem comentários. Também num registo fotográfico, mas no sentido inverso, o líder da concelhia do PS/Porto, Tiago Barbosa Ribeiro, optou por uma imagem da queda do muro de Berlim, juntando-lhe este comentário: “Os piores muros são os que nos deixam presos aos fantasmas do passado. São os únicos que subsistem. O outro já foi derrubado em 1989”.

 
 

Os piores muros são os que nos deixam presos aos fantasmas do passado. São os únicos que subsistem. O outro já foi derrubado em 1989.

Posted by Tiago Barbosa Ribeiro on Sábado, 10 de Outubro de 2015

Outras figuras influentes na vida do PS têm preferido a escrita nos seus blogues ou nas redes sociais para marcar as suas posições. Vital Moreira, no blogue Causa Nossa, diz que um acordo à esquerda “pode ser uma péssima solução e estar votado ao fracasso”, mas argumenta que esse eventual acordo “não pode ser acusado de ilegítimo por alegadamente defraudar a vontade dos eleitores”. Num texto em quatro pontos, Vital Moreira defende que um entendimento à esquerda nunca esteve afastado do discurso dos três partidos durante a campanha eleitoral. E desmonta “o argumento falso” de uma suposta ilegitimidade de um acordo de governo à esquerda que tem sido “ativamente perfilhado pela generalidade dos média (como é escandaloso o alinhamento da imprensa com a direita!)”, exclama Vital no mais recente de uma série de posts dedicados à situação pós-eleições.

Também Augusto Santos Silva, numa série de quatro posts no Facebook, expõe vários cenários em aberto para a nova legislatura, defendendo que para o PS aceitar formar governo, um acordo à esquerda teria de passar por compromissos de Bloco e PCP que incluem a viabilização do Orçamento de Estado com aceitação da meta do défice inscrita no Tratado Orçamental. E só no caso desse acordo não se concretizar, entende Santos Silva, deverá o PS negociar compromissos com o PSD, mantendo-se formalmente na oposição mas viabilizando a continuidade de Passos e Portas.

Quem não aceita a legitimidade ou sequer a hipótese de acordos à esquerda é o ex-líder da distrital de Viseu, José Junqueiro. “Só é possível se Jerónimo de Sousa meter o comunismo na gaveta”, afirmou ao Público, acrescentando que mesmo nesse caso “o resto do país pode não apreciar uma tentativa de vitória na secretaria”. “Mas alguém se lembra de um único orçamento viabilizado por esses dois partidos nestes 40 anos?”, questiona Junqueiro.

Arnaut: “Acordo à esquerda até pode ter repercussões na Europa”

A defender abertamente que é preciso "acabar com esse absurdo a que chamam arco da governação" está o histórico militante António Arnaut, considerado o “pai do SNS” e que foi mandatário nacional da candidatura do PS às legislativas. Em declarações à Lusa, defendeu que o PS, Bloco e PCP devem “assumir as suas responsabilidades" e constituir "um Governo mais conforme os interesses nacionais”. Seria um governo que “estaria em melhores condições de defender os interesses do povo, dos trabalhadores, reformados e pensionistas”, bem como o Estado social e a Constituição. Arnaut preferia que os três partidos estivessem representados no executivo, mas admite um cenário de “apoio parlamentar” a um governo liderado pelo PS. Uma solução deste tipo "até pode ter repercussões na Europa", concluiu António Arnaut.

Também em defesa da legitimidade de um acordo para uma maioria parlamentar que dê uma solução de governo está o ex-líder socialista Ferro Rodrigues. “A única posição anti-democrática ou golpista é a que não seja constitucional. Por exemplo, impor o programa de qualquer Governo minoritário sem se aferir as reais condições de governabilidade”, afirmou ao Público na sexta-feira, após a reunião das delegações do PS com o PSD e o CDS.  

As referências ao anúncio de Cavaco Silva, ao mandatar Passos Coelho para encontrar soluções para um governo com apoio maioritário, surgiram também pela voz do constitucionalista e membro do Secretariado Nacional do PS, Pedro Bacelar Vasconcelos.  “A conclusão óbvia é que foi extemporânea a decisão do Presidente da República de chamar o PSD e incumbindo-o de falar com o PS. Da mesma forma que foi extemporânea a assinatura de um acordo de Governo [entre PSD e CDS] que não garante nem governabilidade nem estabilidade”, afirmou ao Público.

Termos relacionados Política
(...)