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A segunda oportunidade

Os resultados das eleições de domingo desenharam o país numa nova configuração política e em renovadas possibilidades de aprendizagem democrática.

Tal como o programa "Novas Oportunidades" de Sócrates (alguém achou que ia desaparecer após as eleições?) permitia a equiparação pela equivalência no combate às assimetrias escolares, a reconfiguração política que sai vencedora das legislativas é uma segunda oportunidade para todos os partidos com assento parlamentar, sem excepção. Não há força partidária que escape ao programa de assistência, "take 2". E é também nesta singularidade que reside a beleza da democracia quando reduzida a votos: parece haver sempre uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão.

Segunda oportunidade para a Coligação. Não subsistem dúvidas de que parte do eleitorado resolveu premiar quem assegurou a execução orçamental do ficheiro Excel da troika. Depois de anos de austeridade, excesso de zelo no cumprimento das metas orçamentais, empobrecimento, desemprego e emigração, Passos Coelho e Paulo Portas vencem as eleições e fazem de Portugal um "case study", consoante as opiniões, de resignação ou de bom senso. Os portugueses decidiram pelo termo do meio e pela via dos brandos costumes: entre a adopção ou adaptação preferiram esta última, "limitando-se" a retirar a maioria absoluta à Direita. Já a palavra rejeição não entra no léxico destas legislativas. Mas se Passos terá ideia do seu peso específico, a curiosidade mórbida pergunta quanto pesaria Paulo Portas e o seu partido se não concorresse coligado? Nesse caso, talvez procurássemos por "irrelevância" no dicionário. Ainda assim, a Coligação só seria "irrevogável" caso atingisse a maioria absoluta. Não vale a pena ampliar o vocabulário porque essa é uma história de palavra que não aconteceu no domingo.

Segunda oportunidade para o PS. Mesmo quando perde desastrosamente e em toda a linha, ainda encontra forma de continuar a navegar à deriva ou com Costa à vista. Tendo subido em votos, percentagem e mandatos, António Costa assegura que não se demite apesar de ter falhado por muitos a vitória nas eleições aparentemente mais fáceis de ganhar na história da democracia portuguesa. Logo ele, que no tempo de José Seguro não se contentava a ganhar por poucos. É verdade que António Costa teve que lutar ferozmente contra o próprio PS (até acabar por interiormente desistir, julgo). E será nessa tarefa que terá que se concentrar novamente após viabilizar, pela abstenção, o Orçamento do novo Governo (quando na campanha tinha prometido o inverso). Antes, vendo Álvaro Beleza, o assalto à liderança do partido far-se-á abertamente. Uma vantagem: António Costa deixará de ser vítima de "bullying" dos seus "camaradas" de partido. Sim, António Costa também foi uma vítima e bem pode dizê-lo. Já chega, não? Ou será necessário esperar por mais uma derrota nas presidenciais pessoais de Maria de Belém?

Se há uma vencedora inequívoca destas eleições chama-se Catarina Martins e é, neste momento, a líder da Oposição em Portugal. Segunda oportunidade para o Bloco de Esquerda (BE). O que para muitos era um nado-morto, transformou-se na grande surpresa eleitoral, alcançando o melhor resultado de sempre. Catarina Martins subtraiu o BE, definitivamente e muito à sua custa, ao espectro da momentânea passagem. Muito por força de uma campanha sólida, competente e preparada, superou em poucos meses a tensão interna de uma disputa cerrada pela liderança interna e a saída do Bloco de muitas pessoas ou personagens que resolveram correr solitários pela fragmentação ou pelo superego. Agora, é inevitável olhar para o carácter distinto do BE, reconhecendo-o como uma força motriz decisiva para a reconfiguração da Esquerda e do poder em Portugal. Frontal, o BE deve ser humilde e construir a ponte-parágrafo. Com o que se segue.

Se estiver consciente da sua força inequívoca, o PCP tem na possibilidade de convergência com o BE (e com a ala social-democrata do PS) uma oportunidade histórica que não pode desbaratar. Segunda oportunidade para o PCP. Sente-se que esta ideia só emerge quando o PCP olha de frente para o BE ou, neste caso, partindo de um resultado eleitoral inferior. A CDU sobe o seu resultado e a ultrapassagem do BE só poderá ser fonte de ciúme ou desconforto por má leitura política. Perante os votos, há sempre uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão. Só o PCP pode combater a sua futura crise de sucessão. Somando.

Segunda oportunidade para todos. Mas, ainda assim, por que me parece improvável que ninguém falte à chamada?

Artigo publicado em Jornal de Notícias em 6 de outubro de 2015

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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