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É esquerda em bloco, é Bloco de Esquerda!

É um voto de esperança em quem não desiste do país, em quem tem empenho e capacidade para defender o que verdadeiramente interessa.

Passadas que estão as legislativas importa refletir sobre os resultados e inferências político-partidárias. A abstenção, indecorosamente, volta a ser maioritária. A Coligação de direita ganhou as eleições perdendo votos, mandatos e a maioria. É uma vitória enrascada e amarga. O PS perdeu retumbantemente as eleições ganhando votos e deputados. É uma derrota humilhante e comprometedora, especialmente para alguém que espoliou um líder porque tinha ganho por poucos. A CDU, mesmo aumentando ligeiramente de votação e tendo mais um deputado, ao ser ultrapassada pelo Bloco perdeu a áurea do dirigismo. O PAN é a novidade da entrada em parlamento nos últimos 16 anos. O BE obteve o melhor resultado de sempre e tem mais força do que nunca. Mais do dobro dos votos, passou de 8 para 19 deputados, cresceu em todos os círculos eleitorais obtendo mandatos em todos os distritos da corda litoral de Braga a Setúbal, Algarve e, espantoso, na Madeira. É agora o 3º partido parlamentar elegendo mais deputados que o CDS. Extraordinário para quem há pouco tempo era dado como moribundo, balcanizado e sem futuro político. O BE maturou divergências internas, superou retiradas e dissidências e sem paternalismos orgânicos fez a transição geracional com a afirmação de novos rostos, sem perder a matriz identitária. Não foi fácil, mas é nos momentos difíceis que emergem os fortes. A excecional campanha protagonizada pelo BE, com ideias claras e palavras diretas, feita por gente de verdade com a determinação e convicção de quem não vira a cara à luta, galvanizou uma população sedenta de credibilidade nos políticos e na política. É um voto de esperança em quem não desiste do país, em quem tem empenho e capacidade para defender o que verdadeiramente interessa, em quem tem firmeza e responsabilidade de cumprir o que diz, em quem inspira confiança de que outro país é possível e outra política é precisa.

Agora discute-se o futuro. Quem, como e com que programa teremos governo? A Cavaco Silva, que de forma insólita e caricata escolheu fazer reflexão no dia da República que o elegeu esquivando-se às comemorações como que a coroar o término do seu ressequido mandato, compete constitucionalmente desencadear o processo. O BE, com a mesma clareza com que se apresentou a eleições, já disse que não aceita uma minoria de direita que continue com um programa de mais austeridade e empobrecimento e já declarou apresentar uma moção de rejeição a este hipotético governo. Os portugueses, se votaram maioritariamente contra essa política não é para continuar a ter um governo neoliberal austeritário.

Vamos assistir à chantagem da ingovernabilidade, da crise política, do taticismo partidário, dos jogos de influência e de arranjos. Vão-nos encharcar com os medos do colapso financeiro, com o desperdício dos sacrifícios, com os castigos económicos da UE, com o “papão” da extrema-esquerda. Exige-se que os partidos saibam estar à altura do desafio e saibam cumprir, sem hesitação nem tibieza, a palavra dos compromissos e a proposição dos valores. Esta é uma oportunidade para certificar a utilidade do voto tão apregoada pelo PS. Espero que os cidadãos que votaram PS, por convicção ou por “útil”, não vejam este partido a viabilizar, mesmo que “violentamente”, o orçamento e programa do governo PSD/CDS. A esquerda ganhou porque teve quase duas vezes mais votos que a direita. Não se pode transformar a vitória de um povo na derrota de um país.

O tempo é de esperança e a maioria de esquerda parlamentar não pode falhar. É preciso juntar forças e com determinação, coragem e responsabilidade responder ao que verdadeiramente interessa. Criar condições para erradicar a pobreza e ultrapassar as dificuldades de vida das pessoas; garantir os direitos do trabalho e uma distribuição mais igualitária de salários, pensões e reformas; preservar inabalavelmente os pilares da democracia social (Escola Pública, SNS, Segurança Social); estancar a sangria das burlonas privatizações; contribuir decisivamente para a melhoria coletiva da qualidade de vida e para a dignidade de viver neste país que não desistimos. Tudo isto só é possível com um governo de esquerda.

Se assim não acontecer, o povo português não perdoará aos que falharem esta primordial e impreterível resposta política.

Artigo publicado no “Jornal de Barcelos”

Sobre o/a autor(a)

Professor. Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda
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