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Por quem vou votar

No Domingo vou votar. Gosto de eleições. Do dia das eleições, digo. Sinto-me bem, sinto-me um cidadão. Daqueles republicanos antigos que valem alguma coisa, como quem proclama algo de bom, um Eureka qualquer, de uma varanda ensolarada.

Na maior parte dos outros dias sinto-me pouco cidadão, mas naquele dia, ah, é uma barrigada de cidadania.

Adoro o dia e a graça que o acompanha. Um vez, estava sozinho a fumar na neve, e pousou uma enorme cegonha à minha frente, em silêncio total. Patinhas no chão sem um único som, só pousou, de enormes asas, no níveo feltro, pousou, serena, olímpica, a olhar para mim. E depois levantou. Nunca mais esqueci aquela cegonha, branquinha, branquinha... O dia das eleições é para mim como aquela cegonha a pousar. Limpa o ar, acalma, flecte e reflecte, tudo com muita calma, e depois, zás... lá vai.

E gosto da gente que se veste bem para ir votar. Vê-se o vizinho, o patrão, a mulher-a-dias, o desempregado e o estudante, e aquele de quem não gostamos muito, esse vai sempre, vai sempre, vai sempre, votar. E cumprimentamo-nos:

- Bom dia Sr. Bom!

- Bom dia Sr. Mau! vai votar? Olhe que o seu vale tanto como o meu.

Pois é. O papelinho que vale exactamente aquilo que todos juntos escolhemos. E que tanto custou. Temo-lo como garantido, mas nada, obviamente, o é.

Irei sempre votar naqueles que não se conformam por haver ainda um único pobre em Portugal, um único na Europa, um único na Terra. Pobre disto ou pobre daquilo, um pobre. Além disso, gosto de gente rica, sempre gostei. E gosto tanto que quero que todos, mas mesmo todos, sejamos ricos. Quantos mais, melhor, tudo rico, que maravilha. Um dia, um dia...

E não hei-de morrer sem ver mais um homem ou uma mulher que era pobre e agora é rico, e mais um, e mais uma, e mais um e mais uma. E cada dia que vejo um rico a lutar por um pobre, é mais um rico que com a sua luta mais enriqueceu, e um pobre que se pode esquecer do que é ser pobre. E ainda bem. É bom que nos possamos esquecer que um dia fomos pobres. Mas melhor ainda é ser-nos impossível esquecer que ainda os há. Às vezes fazemos de conta que não há, mas há. Bem sabemos que há.

É que tudo, um dia, toca a todos.

No Domingo vou votar por mim, por si, por ela e por ele, com um voto só.

Sobre o/a autor(a)

Linguista. Dirigente distrital do Porto do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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