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Como a direita salga a terra

A direita e o seu governo arruinou o presente e comprometeu o futuro. É tempo de parar a austeridade que destrói a vida; é tempo de resgatar o futuro.

A campanha eleitoral nas mãos da coligação de direita perdeu toda a dignidade. Não é mais um superior exercício de cidadania. Com a coligação de direita, a campanha perde grandeza e seriedade. Porque eles mentem descaradamente; porque dizem uma coisa e o seu contrário; porque mistificam. Impingem mentiras a quem os escuta com o mesmo ar inocente de quem propala a verdade. Brincam com as palavras, gozam com a estupefação, aproveitam-se de uma máquina untada para esse fim. Manipulação, perfídia pura. Mesmo que a indiferença não se tenha instalado, percebe-se que há um afastamento da política porque para muitos cidadãos (demasiados, talvez) a política é isto, um espetáculo que se repete a intervalos de quatro anos, período durante o qual as promessas dos partidos que se alternam no poder vão para o lixo e em que as medidas gravosas se sucedem num contínuo estonteante.

Prescindo aqui em distinguir os que experimentaram a política antes do 25 de Abril dos que só a conheceram depois dessa data. Seria injusto e abusivo. De um lado ou de outro dessa linha imaginária, há cidadãos que sentem e vivem a política todos os dias do ano como há cidadãos que a experimentam apenas nestes períodos mais movimentados. Urge mudar isto, misturar essas pessoas transmitindo aos que só despertam de quatro em quatro anos o entusiasmo, a alegria, a satisfação de viver e saborear a cidadania. A coligação de direita não contribui rigorosamente com nada para que mais cidadãos sejam atraídos pela política. A coligação de direita põe, dispõe, pensa, executa, faz escolhas e distribui lugares, opiniões, mordomias. E muitos cidadãos aceitam, acham que é assim. Desistiram. A direita mata as expectativas, salga a terra.

Num almoço em Pombal, dizia Passos Coelho que tudo correu bem na governação: não houve desmentidos à política do governo; não houve contestação; nada se passou de anormal no setor público; tudo funcionou como expectável nestes últimos quatro anos. Tudo recitado com uma entoação de voz cuidada a preceito. Que jeito para a comédia, que falta de respeito pelos cidadãos! Ao longo destas duas últimas semanas, a mentira foi-se tornando mais ousada exigindo desmontagens imediatas e frequentes. De mansinho, insidiosa a parada aumentou e agora nega-se a existência de toda a movimentação social que testemunhámos em resposta às medidas miseráveis do governo de direita contra a população em geral. Há nisto tudo muito despudor e muita manipulação. A coligação de direita serve a mentira durante os almoços e jantares de campanha enquanto os participantes manducam. Será que ouvem? Será que engolem? Digerirão? Ou o soco no estômago fica apenas para quem está em casa apesar do corte e costura das reportagens televisivas? Dos quatro anos registo a humilhação diária, quatro anos mais longos do que o calendário marca. Ao deturpar a história recente, continuam a salgar.

Em segundo plano, é frequente ver Portas, a espreitar com ar matreiro mas sempre a garantir ficar na imagem não vá passar despercebido. Às vezes, cochicha ao chefe, sabe-se lá o quê. Outras vezes usa um chapelinho e vai provando queijo aqui, chouriço acolá, um copito de vez em quando e acena com a cabecinha, dá ares de entendido. Muito bom, sim senhor, a exportar. Um papel ridículo apenas superado quando no palco, e em poses sucessivas a três quartos, ora apoiado num cotovelo ora noutro, vai repetindo frases e martelando sílabas. Tudo títulos de caixa alta. Cansativo. Portas e Passos, um duo com uma atuação bem articulada para enganar quem estiver pelos ajustes. Transformam a política numa coisa risível. Nem digna nem popularucha, apenas desacreditada. Esforçam-se por passar a mensagem de que eles bastam ao desempenho da política. Sempre mais sal sobre a terra exausta.

A direita e o seu governo deram cabo da vida de centenas de milhares de jovens que emigraram à procura de trabalho; coartaram a esperança de centenas de milhares de desempregados e precários; desfizeram as expectativas de uns anos de tranquilidade para cerca de três milhões de cidadãos seniores mas, cheios de uma desfaçatez inclassificável, exibem uma confiança inaudita. Uma legislatura que arruinou o presente e comprometeu o futuro. É tempo de parar a austeridade que destrói a vida; é tempo de resgatar o futuro. Foram várias as gerações arrastadas neste turbilhão descendente a quem cabe agora a responsabilidade e oportunidade de inverter esse sentido suicidário e relançar a vida. Que Domingo represente o início dessa jornada.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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