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A "sondagencracia" e o voto

De que nos serve a informação se ela se fideliza a uma espécie de bolsa dia-a-dia, de discutível fiabilidade, algo especulativa, num método diário que convoca mais o voyeurismo do espectador do que as dúvidas do eleitor?

À volta do voto. Basta olhar os dias que correm em paralelo na televisão para perceber que a influência das sondagens é muito maior no comentário político do que na decisão dos eleitores. Vivemos na bolsa das sondagens, no tempo em que não há um dia em que não sejamos bombardeados por números e percentagens, cenários à lupa e amostragens, certezas poucas e tantas dúvidas. À excepção da SIC, as estações televisivas de largo espectro optaram pela "tracking poll", método com menos tradição e, consequentemente, com menores evidências de fiabilidade. Nesta lógica de inquéritos diários em que todos os dias a amostra é alargada a mais umas centenas de pessoas, o jornalismo procura alimentar a informação com notícias por arredondamento quando a lógica da informação aconselharia algo diferente. Ao veicular números diários sobre a realidade de forma a ilustrar notícias, a informação não corre o risco de influenciar maquiavelicamente a realidade (o eleitor, maioritariamente, já decidiu e quem ainda não decidiu dificilmente irá votar no domingo). O maior risco que a informação corre é a de deixar de fazer informação, vendo-a substituída por infografia a metro para os quadros partidários, a troco de audiências e curiosidade mórbida alimentada por décimas diárias.

O actual contexto é grave porque estamos a falar de política e não de carrosséis. Na política, grande parte dos protagonistas já se encarregaram de a pôr a girar incessantemente a troco de umas quantas fichas, às voltas e com tonturas, vulgarizando-a diariamente pela sua acção e omissão. Substituindo o primado da política pela especulativa genica do poder financeiro. Optando pela lógica dos interesses em detrimento do interesse por alguma lógica que se entenda. Escolhendo o populismo, a demagogia e, tantas vezes, a mentira como prato forte da acção política que - no respeito pelas amplas diferenças - se pretenderia nobre, verdadeira e séria. De que nos serve a informação se ela se fideliza a uma espécie de bolsa dia-a-dia, de discutível fiabilidade, algo especulativa, num método diário que convoca mais o voyeurismo do espectador do que as dúvidas do eleitor?

Se perguntarmos todos os dias a alguém como se sente pela manhã durante duas semanas seguidas - e salvo algum cataclismo - obteremos respostas semelhantes com as quais só compreenderemos a evolução do humor. O que, de alguma forma, tem a sua piada. A evolução das tendências de subida e descida das intenções de voto é uma forma de "fotografar o movimento". Dir-me-ão que são os sinais dos dias e que a política espectáculo à americana chegou para ficar. Em última análise, todas as "tracking poll" até podem bater certo, crivando as tradicionais sondagens com o cunho da morte. Talvez. Mas não são os números que estão em causa. Não duvido que os movimentos sejam aqueles que nos são apresentados, apontando para a subida do BE, a resistência da Coligação de direita e da CDU, o movimento de descida do PS e a progressiva irrelevância eleitoral dos partidos sem representação parlamentar. O problema é que as bases de que partem podem ser absolutamente falíveis e erróneas. Mas como grande parte dos indecisos não vão votar, limitando-se a carregar a abstenção com números assustadores, a "tracking poll" são sobretudo mais um elemento de venda ao público em mercado aberto, com os olhos fixos nas audiências, médias e "shares".

Proibir não é solução enquanto não estivermos no campo das sondagens encomendadas e veiculadas com destino. Importa, antes, distinguir as sondagens e diferenciar o que é distinto. O que não desobriga os órgãos de informação de perceberem o perigo que adensam: o de transformarem os seus espectadores, ouvintes ou leitores em apostadores viciados no resultado diário, como se destinados a salivar todos os dias pela evolução das cotações das suas acções em bolsa.

A poucos dias do fim da campanha, Bruno Nogueira e João Quadros sintetizavam a campanha da Coligação de direita no excepcional "Tubo de ensaio" da TSF: no passado, os partidos da Coligação dava-nos autocolantes de campanha; no presente, distribuem o medo pelas pessoas. Na linha do horizonte do espectro político, com tanto passado lá atrás a dizer-nos o mesmo sobre os mesmos políticos de plástico ou de borracha de sempre que geriram a nossa liberdade desde que a nossa liberdade existe, o verdadeiro voto útil só pode ser na coragem de quem quer fazer diferente. E essa vontade também convoca a nossa coragem. Não podemos ter medo de gente de verdade.

Artigo publicado em “Jornal de Notícias” em 29 de setembro de 2015

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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