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Monsanto: Dois anos de luta contra a Mondiablo

A Assembleia das Malvinas Argentinas, em Córdoba, celebra a sua resistência: 730 dias de luta contra a Monsanto, a maior corporação do agro mundial que envenena o ar, a terra e a vida dos habitantes. Uma viagem de Darío Aranda que nos relata como lutar contra uma causa supostamente perdida e ganhar. Publicado em La Vaca.

Não tinha forças nem para se levantar da cama e custava-lhe a respirar. Deambulava por diferentes médicos, centros de saúde, laboratórios para análises. Diziam-lhe que não tinha nada. E ela sabia que tinha. Sentia que morria e não encontravam nada. A causa estava ao lado da sua casa, onde cortavam (“reciclavam”) barris de agrotóxicos. Eli Leiria tinha agroquímicos no corpo. Alteraram-lhe o sistema nervoso e o aparelho digestivo.

Raquel Cerrudo vivia em Córdoba capital. Precisava de mudar de vida. Estar tranquila com a sua família. Respirar outro ar. Vendeu a sua casa e mudou-se. Há seis meses o mundo dela ruiu. Chorava. Não podia acreditar.

Eli e Raquel não se conheciam. Mas ambas sentiram o mesmo. Souberam pela televisão que a maior empresa de transgénicos do mundo ia instalar no seu bairro, com a maior instalação de sementes da América Latina. Ambas, sem o imaginar, transformaram-se em ativistas contra a instalação da Monsanto.

Uma viagem à Assembleia das Maldivas Argentinas, a localidade de Córdoba que travou a maior corporação do agro mundial. Objeto de estudo para os académicos. Precedente para outras assembleias. Mau exemplo (para governos e empresas). História de uma luta.

Contexto

Darío Avila, advogado militante que acompanha as lutas contra as pulverizaçõesagropecuárias, dirige desde o centro de Córdoba até as Malvinas Argentinas. Filho de trabalhadores do sul da província, estudou enquanto contava as moedas e vivia de mate. Fanático de Belgrano e conhecedor das assembleias, organizações sociais e lutas. Anima-se a dar a notícia que em Córdoba já se conhece, mas que poucos aceitam. “A assembleia dividiu-se. Já te vão contar”, avisa.

A viagem é curta. Não mais de vinte minutos na rota 88. Viragem à direita e uma das ruas principais de Malvinas (San Martín), de asfalto. Casas baixas. Bairro trabalhador. Pouos quarteirões e nova viragem à direita, rua de terra. Do lado esquerdo, uma moradia com um grupo de pessoas na calçada, parte da assembleia de Malvinas.

Circulará o mate. E quase duas horas de conversa.

Depois, dez quarteirões de distância, cruzar a rota e uma moradia com cerca à frente. Será a segunda entrevista.

Ambas à Assembleia de Vizinhos Malvinas Luta pela Vida. Problemas de saúde, marchas, repressões, discussões com vizinhos e familiares, a empresa, polícias, o modelo agropecuário, governantes, alegrias e prantos, balas e resistências.

Televisão

A população das Malvinas Argentina soube pela televisão de que teria a Monsanto como vizinha. Foi em 15 de junho de 2012, quando a presidente Cristina Kirchner informou, falando dos Estados Unidos, que a multinacional lhe tinha confirmado a instalação de uma fábrica na localidade de Córdoba. Só sabiam disso o presidente da câmara, Daniel Arzani, do partido UCR (União Cívica Radical UCR), e os seus colaboradores mais próximos.

Mesa longa, toalha de cores, termo de plástico com o decalque grande da Virgem de Luján. O mate circula. Uma dezena de pessoas, diversas idades. Desde crianças até avôs. Eli Leiria ouviu o anúncio na televisão. Mas deu por certo que se tratava da localidade com o mesmo nome na Província de Buenos Aires. Até que a avisaram que era a poucos quarteirões da sua casa. Não sabia nada sobre a Monsanto. No dia seguinte, perguntou a um estudante universitário, da casa de família onde trabalhava, e a resposta deixou gelada-a: “Você está feita”, disse-lhe. E passou-lhe as primeiras informações da história da empresa.

Começou a ler, a informar-se, a perguntar. E já não lhe restavam dúvidas. “Aí, acordei. Alguns vizinhos diziam que ia trazer mais trabalho, eu respondia-lhes que sim. Mais trabalho para os oncologistas, os médicos, os coveiros”, ironiza, mas não esboça um sorriso.

Outro vizinho assegurou-lhe que as autoridades não permitiriam uma empresa que prejudique a população. A rodada de mate, uma dezena de pessoas, uma gargalhada longa . Fustina Quispe também se anima. “Os políticos não respeitam nada. Eles negoceiam e temos que nos submeter. A mim não enganam mais”.

Na segunda entrevista, Raquel Cerrudo conta que havia deixado a capital de Córdoba à procura de tranquilidade. “O que melhor que uma pequena cidade nos arredores?”, diz. Passados seis meses da mudança, o anúncio da Monsanto. Raquel via a televisão e chorava. Sabia o que era a Monsanto por um trabalho com uma bióloga crítica do modelo agropecuário. O seu marido, Ariel Becerra, conhecido por Rula, escuta-a e agora sorri. Trabalha numa concessionária. Os patrões também têm campos de soja. Diziam-lhe que ficasse tranquilo, que não ia acontecer nada. Raquel chorava. Até que um dia disse basta. Conhecia pouca gente no bairro. Começou a falar com os lojistas, no talho, no armazém, a trocar informações. Assim conheceu outras pessoas inquietas com o tema e teve conhecimento de uma palestra do biólogo Raúl Montenegro. E também de uma manifestação na capital, onde foi com um grupo da cidade de Malvinas. Lá, conheceu Ester Quispe, que hoje também parte da assembleia. Veio a primeira reunião e o contato com dezenas de vizinhos. O segundo encontro. O nascimento do movimento.

Despertar

Silvana Alarcón cresceu nas Malvinas. Sotaque inconfundível, lembra que não sabia o que era a Monsanto, como a grande maioria dos seus vizinhos. A princípio acreditou no discurso de investimentos, de trabalho, mas também começou a ouvir– primeiro superficialmente – quem era a empresa, a sua história de denúncias e contaminação. “Começámos a reunir os vizinhos, a ler, ter outras informações. Aos pouquinhos fomos aprendendo”, recorda. Também lhe causou impacto o modo como a empresa começou a intervir no bairro, prometendo trabalho. Num terceiro momento, começaram a problematizar a situação atual, do povo rodeado por culturas transgénicas e pulverizações. “E demos-nos conta de que havia muitas crianças doentes, com lúpus, malformações, problemas respiratórios, broncoespasmos. E se a isso acrescentássemos a Monsanto... fomos-nos dando conta de que iria ser pior”, explica.

Teve também muito a ver com a visita de biólogos, médicos, advogados e também de movimentos e ativistas de outras cidades. A população avaliou também a proximidade da fábrica com a escola, conhecida como “La Candelária”, onde o filho de Alarcón estuda, e de onde se pode ver o prédio da Monsanto.

Ela lembra que a justiça tinha travado a obra, mas a fábrica continuava em andamento. Sentia impotência ao ver que a empresa continuava a construir. “Faziam o que queriam. Até que dissemos basta, aqui não entra mais ninguém”, relata.

E nasceu o bloqueio. Setembro de 2013. Não foi sem consequências. Várias ações repressivas, policiais, balas de borracha, grupos da UOCRA (sindicato dos operários da construção civil na Argentina), pancadaria. Recorda-se de uma em particular. Ela estava na sua casa e ouvia os disparos. Os seus amigos e parentes estavam a ser alvo da repressão. Chorava de impotência. Espancaram o seu irmão e o seu marido. “Podia acontecer qualquer coisa”, afirma, e a voz quebra. “Em primeiro lugar, como mãe, está a saúde do meu filho. Não importa o que tenhamos de fazer. E não vamos recuar”, avisa.

Saúde

Eli Leiría, dona de casa, prepara o mate. Está de pé, encostada sobre a ombreira da porta. Intervém. Em 2007, teve o seu primeiro choque com o modelo agropecuário. Começou a ter vómitos, diarreia, perdeu muito peso e passou a ficar fraca. O médico não encontrava nada, mas ela sentia que não tinha forças nem para se levantar da cama. Davam-lhe injeções, levantava-se um pouco e voltava a cair. Foi a outro médico. Disseram-lhe que os exames estavam bem. Ela sentia que estava a morrer.

Até que ligou os pontos. Ao lado da sua casa eram reciclados barris de herbicidas. Na realidade, o processo era mais que rudimentar. Eram levados sem lavar, cortados com uma serra de talho e moídos. O terreno vizinho estava repleto de recipientes, e mesmo ao lado do seu quarto. As árvores e todas as suas plantas morriam. Contou ao médico e ele não teve dúvidas. Mandou-a fazer novos exames. Mais complexos. Encontraram herbicidas no sangue dela. Não se lembra dos nomes, mas, sim, dos valores: “O máximo tolerado pelo organismo é 0,3%. Eu tinha 27”.

Perguntou ao médico como iria curar-se. E fez-se um longo silêncio. Ele respondeu-lhe que não havia nada a fazer. Que era preciso esperar. Disse-lhe que era como um tornado. A tempestade passa, mas as sequelas ficam. E as doenças podem aparecer meses ou anos depois. Dois anos depois foi constatado um enfisema pulmonar. O médico perguntou-lhe se fumava muito. Ela nunca tinha acendido um cigarro.

De pura impotência, começou a fumar nesse mesmo dia. “Eu escolho como morrer”, disse.

Diagnosticaram uma alteração no sistema nervoso e no aparelho digestivo. E deram-lhe um cocktail de medicamentos. “Vou acabar por me matar com medicamentos. Não é o que quero”, avisou.

E o anúncio da Monsanto foi a cereja do bolo. Aderiu à segunda reunião de moradores, era o gérmen do movimento. No dia seguinte, foi ver o presidente da câmara. “Não, querida. Não te preocupes. A empresa trará trabalho. Acontece que há pessoas que não querem trabalhar, e se opõem”, foi a resposta que lhe deu Daniel Arzani.

A chave, outra vez, foi a informação. Leu muito. Foi a debates. Viu documentários. Pensou no seu filho e decidiu-se : não queria a empresa no seu bairro.

Silvia Vaca, 52 anos, é trabalhadora do município, nascida e criada nas Malvinas. O primeiro aviso sobre o modelo agropecuário chegou pelo marido. Camionista, transportador de cereais. Costumava queixar-se do cheiro da roupa quando voltava do trabalho e da forte dor de cabeça. Silvia colocava as peças na máquina de lavar e tinha de enxaguá-las duas vezes. Odor penetrante. Segundo aviso: quando a fossa séptica da sua casa ficou cheia. Chegou o caminhão para limpar a fossa e o funcionário chamou a atenção para a ausência de insetos e bactérias no material orgânico recolhido. Perguntou se usavam algum produto químico forte. Silvia pensou em voz alta e, não, só água sanitária de vez em quando.Terceiro aviso: a repentina pneumonia do marido. Internamento, depois tratamento e, em poucas horas, risco de vida. Os médicos tratavam-na com distanciamento, perguntavam e reperguntavam. Acreditavam que ela o tinha envenenado. Voltou a sua casa, deu a má notícia à família. Aí se deu conta. Voltou ao hospital e contou que o marido transportava cereais. Também colocava as famosas pastilhas de fosfina no camião para protegê-los dos insetos. Estava a envenenar-se.

O seu filho, então estudante de agronomia, deu-lhe o documentário “O Mundo Segundo a Monsanto”.

Quando se anunciou a instalação, foi uma das moradoras que analisou o seu sangue. Confirmou o que se temia. Tinha agrotóxicos. “Vivo no centro do povoado, onde em teoria deveria haver menos produtos químicos. O que resta para quem vive diante das pulverizações? Estamos todos envenenados”, afirma.

Foram coisas demais. Ela uniu-se à assembleia.

Outra vida

Uma grande coincidência. Todos viram a sua vida alterada.

Soledad Escobar conta que teve discussões na escola (com a professora do filho, porque lhe dizia que “não podia envolver-se”), com amigos que trabalham no município e com vizinhos que já não a cumprimentam.

Beatriz Vega tinha uma livraria que também vendia vários outros produtos, na avenida San Martín, a principal, e a meio quarteirão da prefeitura. Punha na vitrine os cartazes que convocavam a manifestação, entregava folhetos e afirma que passou a ser um alvo. As suas vendas começaram a cair, o filho de um vereador ameaçou queimar o local, os clientes de sempre já não entravam. Fechou o negócio. “A nossa vida mudou totalmente. O povoado dividiu-se”, resume.

Lucas Vaca, boina clara, casaco de couro. Há dois anos regressou ao seu bairro (esteve cinco anos fora), encontrou uma câmara nova e chamou-lhe a atenção que, poucos quilómetros antes de chegar a Malvinas, não havia mais as árvores de antigamente a ladear a Rota 88. A soja estendia-se até a beira das bermas.

Estudava no ensino secundário recorrente. E também recebeu a notícia pela televisão, em direto. Alegrou-se pelos possíveis postos de trabalho. Até que alguém o alertou que nem tudo era como dizia a publicidade. Entrou na Internet, começou a ler, deparou-se com o documentário “O Mundo Segundo a Monsanto” e não pôde acreditar. Entrou também no site da empresa. E não queria cair em si. “Dizia para mim mesmo que não podia ser tão mau. Custa a acreditar. Mas quanto mais eu lia, mais me convencia de como era mau”. Levava informações à escola e as professoras minimizavam as suas críticas.

Começou a participar da Assembleia. A comprometer-se. Não parou mais.

Lamenta que muitos vizinhos se tenham distanciado. Mas outros aproximaram-se. Com muitos conviveu na escola e até em bailes, mas algo conduziu-os para dois caminhos distintos. Há uma situação que lhe causa impacto: “Não te olham na cara. Olham para o chão. Sabem que é mau apoiar a Monsanto. Isso é impressionante”. Lucas diz que se lembra do que lhe disse certa vez o cientista Andrés Carrasco: olhar os corpos. Crianças com malformações, jovens com cancro, mulheres com lenços na cabeça.

Eduardo Quispe ressalta que não há espaço de apoio à empresa. Mas, sim, contra. “As estatísticas são contundentes. Um total de 90% não a querem. Sim, há pessoas que dependem do Estado, mas não são um movimento permanente nas ruas”, esclarece.

Vanesa Sartori tinha ouvido algo sobre pulverizações, mas não sobre a Monsanto. Viu o anúncio na televisão e também pensou que se tratava das Malvinas Argentinas de Buenos Aires. Depois teve conhecimento da primeira assembleia pelo Canal 8. Viu Montenegro, tinha sido seu docente na faculdade, e concluiu que se tratava de algo grave. Ligou-se à internet, leu durante horas, não podia acreditar. “Parecia tirado de um filme, mas estava mesmo a acontecer”, recorda.

Foi à terceira assembleia. A sua filha, que durante a entrevista dorme no berço, tinha então seis meses. Aterrorizava-a que acontecesse algo ao seu bebé.

Tinha construído a sua casa com o seu marido há alguns meses. Pensava em todo o sacrifício atirado ao lixo. Ponderaram mudar-se. Sabiam que ninguém lhes compraria a casa, mas ainda assim estavam dispostos ir embora.

Foi a uma reunião de vizinhos. Não conhecia quase ninguém, mas juntou-se à assembleia.
O que mais lhe dói é a divisão no povo. Inclusive na família. O seu pai tem uma loja de ferragens. Foi “selecionado” pela autarquia como possível fornecedor da multinacional e viajou, com a empresa, quatro vezes a Rojas, onde a companhia faz constantes visitas guiadas para mostrar os benefícios das suas fábricas.

Vanesa levava-lhe informação, diários, revistas, artigos. “Muito ingénuo o meu pai. Já tinha caído na conversa da Monsanto”, lamenta.

A situação piorou quando ela se transformou numa cara visível da luta, com entrevistas e programas de televisão. “Chegou a dizer-me que tipo de educação dava à minha filha. Também perguntou como que o meu marido me deixava participar da assembleia”, avança. Indigna-se. Chora. É um tema de que não se fala nos almoços familiares. Já nada voltou a ser o mesmo.

Assegura que a história se repete em muitas casas.

Silvia Vaca distanciou-se do irmão. Ele tornou-se avô. E ela ainda não pôde conhecer o seu sobrinho-neto. “São fraturas que vão ficando. Muitas famílias zangadas. É triste”, resume. E lembra-se da boa relação que tinha com o presidente da câmara, conhecem-se desde crianças, iam a almoços de família. Agora não.

Vanessa sorri. Era amiga da filha de Arzani.

Eli lamenta que tenha vizinhos que já não a saúdam. Recorda uma noite, existia um manifestação até à câmara e ela estava mal disposta. Não podia nem levantar-se. Recebeu um telefonema anónimo. “Deixa de meter-te com a Monsanto”, ameaçaram.

Levantou-se de imediato e foi à manifestação. “Se não fosse, iam achar que me assustaram. Isso não. Nunca”, avisa com voz firme. Não quer protagonismo nem aparecer, mas não quer que o seu filho passe o mesmo que ela. E deixa uma advertência. Soube que em Neuquén há mapuches que se borrifaram com nafta para evitar um despeijo: “Se o Governo deixa vir a Monsanto... há que pará-lo de alguma maneira. E com um morto não se instala”.

Votação?

Durante o primeiro ano de luta contra a Monsanto, a Assembleia exigiu o direito de votar sim ou não. Os três níveis de governo (municipal, provincial, nacional) opuseram-se. O mesmo fez a empresa. Atualmente, o movimento já não pede o voto. “Não se pode votar num facto ilegal. O relatório de impacto ambiental foi negativo. A lei não permite que se instale aqui. A fábrica é ilegal”, esclarece Eduardo Quispe, menos de 40, boné com pala e t-shirt preta com o M da Monsanto e uma caveira.

Desde 8 de janeiro de 2014, a fábrica está judicialmente paralisada. E em 10 de fevereiro a província rejeitou o estudo de impacto ambiental.

Responsáveis

Soledad Escobar hierarquiza as responsabilidades, das maiores às menores: presidente da câmara, governador, presidente. E lembra o exemplo de Río Cuarto, onde o presidente da câmara vetou a instalação de uma estação experimental da Monsanto. E não se esquece quando o autarca das Malvinas prometeu que, se o relatório de impacto ambiental fosse negativo, cancelaria o projeto. Não cumpriu. “Enganou-nos”, resume.

Eli, a dona de casa, inverte a ordem. Acredita que o autarca não tem capacidade para decidir pela Monsanto. Afirma que a presidente e o governador são os principais responsáveis. “Cristina abriu-lhe a porta. Ela é a principal responsável”, afirma.

Debatem entre si. Não há acordo. Coincidem em que Arzani era um morador a mais, mas já não é. Muitos conhecem-no desde criança. Dizem que tem plantações de soja e que os seus pais morreram de cancro.

Nas Malvinas nunca tinha existido uma manifestação. Muito menos protestos contra o autarca com mais de 15 anos no poder. Raquel e Vanessa Sartori fazem a mesma leitura ao mesmo tempo. O presidente da câmara nunca pensou que haveria tanta contestação. Vanina Barboza complementa: “A Monsanto reconheceu que nunca tinha passado por semelhante situação”.

Eser Quispe aponta para o autarca: “Ninguém se mete na sua casa se não abrir a porta”, argumenta. Irrita-se porque ele agiu nas costas da população. Vanina Barboza, jovem estudante e porta-voz em várias ocasiões, garante que o presidente da câmara não é suficientemente inteligente para atrair a Monsanto. Aponta mais para cima: “Cristina trá-los”. Recorda a primeira vez que falaram com os vereadores. Mencionavam os “transgénicos” e os funcionários de nada sabiam.

Alguém comenta que não têm educação. Silvia Vaca relativiza. “A presidenta e o governador são instruídos e abraçam a Monsanto. Muitos camponeses e indígenas não têm talvez educação formal, mas sabem o que é o modelo agropecuário e defendem a vida”.

O modelo

Vanesa Sartori explica com paciência professoral que a Monsanto quer fazer a sua maior fábrica de milho transgénico no seu bairro, a 800 metros da escola e perto das casas. Para biocombustível, não para comida, e utilizará milhões de litros de água e pesticidas. Destaca que a empresa e o município estão a contrariar leis que proíbem a instalação, enfatiza que o interesse da população é violado. Arremata: “Promete trabalho e progresso, mas é falso”.

Ariel Becerra põe ênfase na saúde. Alerta que já são uma localidade empestada com agrotóxicos. E com a Monsanto as consequências podem ser multiplicadas.

Eduardo Quispe fala aos habitantes das grandes cidades. Pede-lhes que não se deixem enganar pelo verde da soja, explica que antes tudo era mata, e desapareceu. “Chamam de progresso, mas os lucros são privados e nos territórios ficam a doença e a devastação”. Afirma que é possível outro modelo, de soberania alimentar, alimentos saudáveis para a população.

Divisão

Nas duas entrevistas, em duas casas diferentes, todos são muito cuidadosos quando falam da separação da assembleia em dois grupos. Explicam que não se compartilham algumas formas de luta, o tema de se apresentar a eleições abriu brechas, o recorrer a ações directas não teve consenso, o impor maiorias, a democracia representativa contra o plebeísmo, e – reconhecem - o tema de egos ou os personalismos sempre jogam de alguma maneira.

Um setor está mais em sintonia com o acampamento. Trata-se de um terceiro espaço que há dois anos é mantido por um grupo de jovens que vive no portão de entrada do prédio. Alguns responsáveis ou media chamam-lhes, de forma depreciativa, os “hippies”. Outros não confiam neles e até acusam-nos de estarem infiltrados com os serviços. Também é verdadeiro que enfrentaram a repressão. Têm a sua autonomia. Não atuam sempre em consonância com a assembleia. Mas coincidem na rejeição à empresa.

Ester Quispe assinala que ambos os grupos são uma assembleia, com os mesmos interesses, lutas e objetivos, mas que alguns tomaram outro caminho. Avisa que nunca vão expulsar os colegas. Que há coisas que não compartilham, nas formas e atitudes, mas isso é interno. Inclusive lamenta ter ficado de um lado, e o seu irmão de outro. Avisa que todos usam a mesma camisa (negra com vivos verdes). Todos são assembleia, todos recusam a Monsanto, a casta política aliada às corporações e questionam o modelo agropecuário tóxico. 

Futuro

Sem consenso social e em ano de eleições, a Monsanto não pôde avançar durante 2015. Mas não se foi embora. Já deixou vir à tona que em dezembro apresentará um novo estudo ambiental. Quer construir em 2016. A empresa continua presente no bairro, com processos de sedução e promessas. Eli Leiría denuncia que a Monsanto compra apoios. Dois exemplos: doou o gerador para a cooperativa de eletricidade. Custou 60 mil pesos e fizeram propaganda disso até no panfleto que chega às casas. A Monsanto financia workshops e cursos em escolas da zona. Também na igreja adventista.

Leiría sonha que o seu filho continue a morar em Malvinas. Diz que aí estão as suas raízes e que é injusto que por causa de uma empresa tenham de partir. Faustina Quispe (mãe de Eduardo e Ester), mulher idosa, contrapõe: “Se a Monsanto se instalar, não há futuro”.

Marcos Romero é nascido e criado em Malvinas. Está casado com Solead Escobar, também membro da Assembleia. Têm quatro filhos que frequentam “La Candelaria” (escola perto da fábrica em questão). Quase não falou durante a entrevista em grupo. Recorda que via noutras cidades pessoas que protestavam e bloqueavam estradas, e observava isso com uma mistura de preconceito e desinteresse. Até que se desatou o caso da Monsanto. “Agora atingiu-nos. Já nos agrediram e balearam com balas de borracha. Não me importo. Vou deixar a vida pelos meus filhos. Ela (Soledad) já sabe”, afirma. A sua esposa chora.

Lucas Vaca tem um olhar otimista. “Estamos a fazer o futuro todos os dias, lutando na rua, não permitindo que a fábrica se instale.” Eduardo Quispe vai além: “Os moradores estão convencidos. A Monsanto não tem oportunidade connosco”.

Ester Quispe avisa que continuarão a trabalhar no bairro, informando os moradores. Não baixarão a guarda. Continuam a reunir-se todas as quartas-feiras e lembra a bandeira presente nas marchas: “Não à Monsanto em Córdoba e na América Latina”.


*Texto publicado pelo coletivo La Vaca
Tradução de Mariana Carneiro para o Esquerda.net

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