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Que parte de mim ponho nisto?

Parece impossível que alguém possa sentir-se feliz porque trabalha, um ato que até então era tão natural como o simples respirar. Sem perspetivas de continuidade que parte de mim ponho nisto? Por Maria de Baledón
Despedem-se milhares de trabalhadores e estabelecem-se contractos empregos e inserção para colmatar as suas ausências: maior precariedade não conheço e não creio que haja

Os elevadores, a alcatifa do gabinete, a música nos corredores, água grátis naqueles bidons e fresca, os sete minutos para tomar café ou chá na sala comum, um buraco para os fumadores no sétimo piso, toda a normatividade que nos dá a ideia de normalidade, uma nova noção do tempo. Os horários são o expoente máximo e aquela máquina de picar o ponto a sua mais que verdadeira encarnação ilusória de que somos todos iguais.

Um certo encantamento em tudo isto carregado que está de organização, hierarquização. Softwares para gerir faltas e férias, outros para documentos que circulam virtualmente, uma plataforma que regista todas as operações financeiras desde a compra das garrafas de lixívia para as empregadas de limpeza até à adjudicação de obras de milhares de euros.

Parece impossível que alguém possa sentir-se feliz porque trabalha, um ato que até então era tão natural como o simples respirar. Parece impossível também que os outros a quem apelidamos de colegas possam queixar-se. Onde vão eles buscar as razões que as não vislumbro!?

E tudo isto nos vai dando consistência, pedra sobre pedra, dia sobre dia há espaços que se preenchem, estamos ocupados, não pensamos em questões ontológicas, porventura até a ferocidade contestatária amaina.

Depois, os dias ganham novo sentido: passa a haver um antes e um depois. Primeiro o trabalho, aquelas nove horas ligados à máquina, das 9 às 18, só depois o resto. Há também um ritmo circadiano que se ajusta.

Só mesmo Mota Soares - partindo da ideia de que o desempregado é um falhado e um chupista - para se lembrar de o colocar a trabalhar ganhando o que é seu por direito, o subsídio de desemprego, mais os míseros 73 euros correspondentes ao subsídio de refeição pagos pela empresa beneficiária e contratante deste trabalho escravo

As tarefas preenchem-nos. Pedem-nos que façamos o que gostamos de fazer. Notas de imprensa, textos para blogues, correções de conteúdos, newsletters, viagens de imprensa, fotografias, pesquisa, etecetera.

O órgão cumpre a função. Há reconhecimento. Para nós o feedback é positivo e dos outros, que já são teus pares, a consideração de te tratarem pelo nome depois de tempos a chamarem-te "a cei".

Há nos colegas uma vontade expressa de que permaneças já que até ajudas. Indagam-se as chefias e aventam-se hipóteses: "eventualmente através da abertura de uma vaga que está congelada, eventualmente através da subcontratação por uma agência de comunicação".

Recai então sobre nós a avaliação, o pressuposto de que se te portares bem poderás ingressar nos quadros, permanecer, tudo isto subentendido e veiculado apenas entre dentes.

Recebes, inclusivamente, emails de agradecimento por “não abusares dos pedidos de procura ativa de emprego”, esse paradoxo que inventaram. Quando os solicitamos fingimos mesmo que vamos procurar trabalho e apresentamos prova disso (é uma obrigação), e o patronato finge que acredita que vamos realmente fazê-lo. O mesmo patronato que nos devia integrar nos seus quadros. Pfff! Não foram estes dias e nem férias tínhamos.

Entretanto, cumprem-se os seis meses, um limite razoável que te faz pôr os pés à parede depois de, sentindo-te cansada, veres o recibo do ordenado com 73 euros pagos pela entidade no seio da qual desempenhas funções.

Sem saberes bem de onde te vem a coragem, interpelas: Há perspetivas de futuro? Presidente? Vice-presidente? Diretor de departamento? Não. A resposta surge imediata e lacónica. É impossível abrir concursos públicos.

Caí-nos a verdade sobre a cabeça, os ombros e as mãos e curvamo-nos com o seu peso.

Sem perspetivas de continuidade que parte de mim ponho nisto?

Sim! Para não ficar vazia no fim?

Despedem-se milhares de trabalhadores e estabelecem-se contractos empregos e inserção para colmatar as suas ausências: maior precariedade não conheço e não creio que haja

Com leviandade e porque és uma desempregada ocupada e não uma trabalhadora, mandam-te fazer trabalhos que não são lidos, vistos ou aprovados. São para encher.

As queixas dos que me rodeiam continuam por excesso de tarefas, mas já ninguém delega porque todos sabem que "não vale a pena". “Não tarda vais-te embora, por isso não vale a pena”, por exemplo saberes as passwords do site, teres a mailling list dos órgãos de comunicação social, etecetera.

E sim, agora apercebo-me.

Que haja miséria, fome, desespero, que corra para cima que corra para baixo, que o país empobreça que sim que não, aqui continuam a fazer-se contratações chave na mão, adjudicações outsourcing, vínculos com empresas exteriores para isto e para aquilo, o público a insuflar o privado em vez de contratar trabalhadores.

Empresas de comunicação convidadas a trabalhar em regime de fornecimento de serviços para fazerem o que eu faço, mas a ganharem 2.400 euros mensais, contra os 73 que eu recebo.

Instala-se uma revolta e ao mesmo tempo uma apatia e uma impotência e a felicidade dá lugar ao desalento.

Com os pés bem assentes no chão, a realidade ganha mesmo os seus contornos e eis que somos chamados a concluir que o Estado é mesmo um chulo, o maior chulo.

Só mesmo Mota Soares - partindo da ideia de que o desempregado é um falhado e um chupista - para se lembrar de o colocar a trabalhar ganhando o que é seu por direito, o subsídio de desemprego, mais os míseros 73 euros correspondentes ao subsídio de refeição pagos pela empresa beneficiária e contratante deste trabalho escravo.

Despedem-se milhares de trabalhadores e estabelecem-se contractos empregos e inserção para colmatar as suas ausências: maior precariedade não conheço e não creio que haja.

Um nojo! Ainda bem que acaba já daqui a 20 dias.

Artigo de Maria de Baledón

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