You are here

Espelho retrovisor

Se não espreitarmos para o retrovisor antes do voto podemos, uma vez mais, perpetuar no poder todos ou muitos daqueles que se apontam a dedo como os culpados ou cúmplices da crise sistémica a que estamos confinados.

Idealmente, nenhum eleitor deveria precisar de GPS. O voto esclarecido e informado seria a forma de acantonamento individual da árvore no plano largo da floresta, um entre todos os outros, lugar definido pelo princípio eleitoral de um homem/um voto e a maioria decide. Mas o verde esbate-se e não há guia para esta seca. A pré-campanha eleitoral oficiosa arrancou desde que António Costa ganha o partido mas a campanha só começou verdadeiramente durante a pré-campanha oficial, tendo a campanha oficial arrancado há dias. Confusos? Obviamente, todos. Daí que um sistema de posicionamento global (GPS) não seja algo que qualquer eleitor possa dispensar liminarmente ou trocar por votos seguros em caixa: não sendo certo que todos precisemos de um guia para a viagem, é mais do que evidente que se não espreitarmos para o retrovisor antes do voto podemos, uma vez mais, perpetuar no poder todos ou muitos daqueles que se apontam a dedo como os culpados ou cúmplices da crise sistémica a que estamos confinados.

São meses em pré-campanha e, da parte do PS, ninguém consegue explicar algumas opções fundamentais do seu próprio programa. Pela parte da coligação, não se consegue perceber se um programa existe (o que se compreende, tendo em conta que passaram toda a legislatura a executar com excesso de zelo um programa externo baseado na extorsão). O que fica, então, do que existe? Se, aqui ou ali, até arrancamos reflexões dos partidos do arco da governação, acabamos quase sempre estacionados na certeza maior: a certeza de que não há compromissos connosco, com as pessoas. Se a coligação nos diz "Portugal à Frente", convirá então olhar para trás.

Passado. A "firma Portugal" teve como sócios-gerentes da liberdade, desde o 25 de Abril, os mesmos que meteram o socialismo na gaveta, os que enfiaram a social-democracia no pé de chinelo neoliberalista e os que raptaram, pela porta traseira de um táxi, a democracia cristã para um submarino com visto gold. Presente. Os debates televisivos e radiofónicos permitiram, com enorme transparência e inédita mediatização, revelar Catarina Martins e revisitar Jerónimo de Sousa. Sobretudo no caso da líder do BE, a surpresa para muitos: a preparação, acutilância e assertividade do discurso, a coerência na acção reconhecida pelos anos de política activa. Com Jerónimo de Sousa, a clareza na defesa da saída do Euro e a segurança pelos combates de sempre. Sócios ou futuros gerentes, é devido a eles que os partidos do arco governação têm uma agenda para discussão. Não pelo desespero de Marinho e Pinto, não pelo entristecimento de Rui Tavares, não pelo veste e despe de Joana Amaral Dias (nestes três casos, a prova de que ainda há uma enorme diferença entre os partidos que "são" de pessoas e outros, estes, que "pertencem" a pessoas).

Futuro. Catarina Martins foi surpreendente, até pelo reconhecimento transversal aos analistas de todo o espectro político. De súbito, há uma audiência e é uma imensa maioria: foi a entrevista mais vista de todos os líderes partidários, a que mais curiosidade despertou, numa campanha que se implanta diariamente com força acrescida nas redes sociais. Na casa ao lado, Jerónimo de Sousa esteve igual a si mesmo, o que significa mais do próprio. Para o PCP, mais do mesmo costuma ser uma boa notícia e as sondagens assim o comprovam. E nem as informações decepcionantes sobre a segurança na Festa do Avante (ampla e exageradamente divulgadas como um caso maior), podem fazer de um episódio singular um problema colectivo. A campanha da CDU não força a nota, mas reafirma a ideia de que o PCP podia ser mais capaz quando redige comunicados em legítima defesa. Para os que reconhecem a falta de poluição destas forças políticas (quanto mais não fosse porque nunca foram tocadas pela "mão do poder"), sente-se que a verdadeira diferença só se poderá fazer na vontade de um dia poder somar. Até lá, olhando para as alternativas ao arco da governação, uma apresenta mais robustez e passado, outra mais impulso e futuro. A obrigação de escolher entre uma soma que daria certo é um duro confronto com a realidade de quem pensa à esquerda. Mas não creio que haja outra solução quando se olha para trás e se quer fazer caminho para a frente. A ideia de futuro pode ser o grande factor surpresa destas eleições.

P.S.: E, já agora, contra tudo e contra todos, o Syriza voltou a ganhar na Grécia... Os gregos não perdoam aqueles que conduziram o país durante décadas.

Artigo publicado em “Jornal de Notícias” em 22 de setembro de 2015

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
(...)