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Educação como quem faz madeixas

O Ministro Nuno Crato é um tipo exigente. É matemático. Todos sabemos que os matemáticos são exigentes.

O Nuno fez as contas e enviou um SMS à Ministra das Finanças que não consegue poupar porque tem 3 filhos pequenos. E dizia: “Ó Maria, vistas bem as coisas, gastares 100€ em canetas de feltro e uns cadernos de argolas do SonGoku para os putos é o mesmo que fazeres umas madeixas californianas no salão da Vanessa”.

As boas famílias e os meninos penteadinhos

E se há coisa que interessa ao Nuno é o futuro do ensino em Portugal. Sabendo disso, e sabendo que os meninos dos colégios privados suportarão o fardo da futura liderança do país, o fardo da gestão e administração de topo, o melhor é fazer com que as boas famílias continuem a declarar no IRS a mochila com a cruz do Sagrado Coração da Maria (da outra), dos cadernos – brand Sagrado® – da cantina com arroz aromatizado e do transporte com ar condicionado do colégio. Tudo para IRS com o limite de dedução à coleta - despesas de Educação - de 800€.

E as famílias… quase todas?

O Nuno e a Maria são exigentes, não gostam de quem não investe em Educação. Por isso, as famílias que compram aos filhos os lápis do chinês, os cadernos do Minipreço, a cantina da Uniself e o tranporte do Metropolitano e da Carris… naturalmente, não parecem estar interessadas em investir seriamente no país e na educação. Por isso, só podem declarar esses custos nas Despesas Gerais Familiares, com o teto máximo de dedução de 250€. Não têm dinheiro para o colégio? Tivessem!

Mas entretanto… uma poção mágica

Entretano, apareceram umas eleições, e a Maria e o Nuno arranjaram uma poção mágica que, com os ingredientes certos, pode fazer com que as famílias do sistema público de ensino possam declarar as despesas de Educação na rubrica… Educação, que se for levada a cabo, pode livrar estes pecadores das Despesas Gerais e trazê-los para junto das boas famílias, ou seja, da Educação. Basta que vão atrás do chinês e lhe perguntem qual o CAE do seu estabelecimento, vão ao Minipreço e perguntem se dá para passar fatura à parte dos cadernos do SonGoku com o CAE certo, vão à Câmara Municipal de Lisboa ou à Sede de Agrupamento e peçam uma fatura da cantina com IVA a 0% ou com taxa reduzida. Depois, vão à Carris e peçam ao senhor da bilheteira (algures) para vos dar uma nova fatura com taxa reduzida ou isenção de IVA. E no fim, mesmo no fim, é só pedir a todos eles que não se esqueçam de lançar essas faturas nas rubricas certas (senão, têm de ir ao portal das faturas e alterar a classificação de cada uma delas).

Passos, Portas, Crato e Maria Luís. Simples, exigentes e justos, como gostam de ser conhecidos. Afinal é mesmo simples: o sistema público de ensino deve ser mínimo e é para quem trabalha, não é para quem manda. Para quem trabalha, a regra de justiça fiscal iguala o material escolar a um corte de cabelo.

Já os meninos e meninas de Audis e BMWs, esses sim, têm de ser compensados, afinal, um dia terão muita responsabilidade em cima. É só um projeto de país. Partido ao meio.

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro informático
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