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Morreu Vitor Silva Tavares, editor da &etc

Editora distingue-se pelo formato quadrado dos livros, pela qualidade artesanal das edições e pela qualidade dos autores. Fazia pequenas tiragens e não reeditava as obras esgotadas – preferia lançar novos títulos.
Vitor Silva Tavares, a pintar um mural da Casa da Achada
Vitor Silva Tavares, a pintar um mural da Casa da Achada

Vitor Silva Tavares, fundador e editor da mítica &etc, morreu esta manhã em Lisboa, aos 78 anos, devido a uma infeção cardíaca.

Os livros da editora que fundou em 1974 são imediatamente identificados pelo seu formato diferente, quadrado, e pela linha gráfica das capas. Mas isso era apenas uma forma de identificá-los mais facilmente, porque a verdadeira característica das suas edições era a qualidade, quer se tratasse de autores consagrados ou marginais, ou primeiras obras. E também a qualidade e o cuidado da edição. A &etc começou por ser um magazine do Jornal do Fundão, onde José Cardoso Pires também escrevia. Por ter começado como magazine, Vitor Silva Tavares continuou sempre a falar da editora no masculino, dizendo "o &etc".

A &etc publicou poetas nacionais como Herberto Helder, Alberto Pimenta, Manuel de Freitas ou Adília Lopes, e estrangeiros como W. H. Auden, Antonin Artaud ou Rainer Maria Rilke. Tem no seu catálogo João César Monteiro, Henri Michaux, Marquês de Sade.

Vitor Silva Tavares era também escritor, mais raro do que regular. “Púsias”, um livro de poesia satírica, foi publicado este ano numa edição artesanal, pela 50Kg.

Começo como jornalista

Vitor Silva Tavares começou a vida profissional como jornalista em Angola, onde viveu entre 1959 e 1962, no jornal O Intransigente. Já em Lisboa, fez crítica de cinema na Flama e no Jornal de Letras e dirigiu o suplemento cultural do Diário de Lisboa.

Tornou-se editor “por mero acaso”. Foi convidado para dirigir a Ulisseia, onde publicou “Os Condenados da Terra”, de Frantz Fanon, livro anti-colonialista em plena guerra colonial, os surrealistas portugueses – que nenhuma editora publicava – e o primeiro livro de Luiz Pacheco, “Crítica de Circunstância”, que foi apreendido pela PIDE.

A &etc fazia pequenas tiragens e não reeditava as obras esgotadas – Silva Tavares preferia lançar novos títulos.

Vitor Silva Tavares foi um dos mais entusiásticos fundadores da Casa da Achada-Centro Mário Dionísio, recorda um comunicado divulgado esta segunda-feira, recordando que pertenceu vários anos à direção. “Deu ideias, participou em sessões, trabalhou em edições, apresentou filmes e teve a seu cargo o boletim informativo desta associação, chamado Ficha, que saiu duas vezes por ano entre Setembro de 2010 e Abril de 2014.”

Entrevista

O jornal brasileiro K Jornal de Crítica publicou em 2007 uma extensa entrevista com o editor, de que reproduzimos aqui alguns pequenos extratos. A entrevista na íntegra pode ser lida aqui.

Como surgiu a intenção de ser editor?

Foi por mero acaso, que uma grande editora portuguesa [Ulisseia] de repente ficou sem orientação e alguém se lembrou de sugerir o meu nome, justamente porque sabia que eu era um leitor compulsivo, tinha adquirido uma razoável cultura literária, e não apenas literária, mas artística (meus interesses se alargavam para o campo das artes plásticas, do cinema e por aí afora). Fui aceito e lá fiquei por mero acaso, aliás, como quase tudo o que ocorre na minha vida. Creio, porém, ser do André Breton aquela frase que diz que a única coisa que não acontece por acaso é o acaso. Parece que tinha que ser.

Isso foi na Ulisseia. Mas antes disso houve o trabalho como jornalista.

Sim. A minha estreia nos jornais foi da seguinte maneira: um jornal daqui de Lisboa, chamado Jornal do Comércio, abriu um concurso literário a que chamou "A oportunidade 202". Quem ganhasse o prémio, além da publicação no jornal, recebia 202 escudos. Resolvi concorrer. Só que, em vez de mandar poesia, conto, enfim, literatura de ficção, mandei uma reportagem sobre pequenos delitos. Ali onde agora está a Biblioteca Camões funcionava o Tribunal dos Pequenos Delitos. Fiz uma reportagem sobre um dia de trabalho nesse tribunal. Escusado será dizer que ganhei os 202 escudos. Mais do que isso: ligaram do jornal para perguntar à minha mãe que idade eu tinha e se eu era bom estudante, ao que ela respondeu: "Não, é um vadio". Quando publicaram o texto, fizeram uma pequena nota que revelava a minha idade (15, 16 anos), me aconselhava a prosseguir nos estudos e me dizia para não esquecer que eu tinha uma caneta de ouro. Abriram-me então espaço para eu continuar a escrever.

Conte-nos um pouco mais do seu encontro com o surrealismo e com os surrealistas portugueses.

Tive conhecimento direto, pessoal, dos representantes do surrealismo português. Houve dois grupos, digamos assim, na história do surrealismo português. Um deles era algo folclórico, superficial, epidérmico. Uma cisão no interior desse primeiro grupo veio gerar o segundo, para mim o mais autêntico. Aquele que vem a juntar Mário Cesariny, que havia passado pelo primeiro (e lá continuou em parte), António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Henrique Leiria e outros. Como é que vim a conhecê-los? Sempre através da Ulisseia. Antes de entrar para a Ulisseia, fiz uma viagem a Paris (exclusivamente para procurar autores, livros, editoras) e lá comprei a História do Surrealismo, do Maurice Nadeau. Ao chegar a Lisboa, já na Ulisseia, convidei o Mário Cesariny para traduzir e apresentar o volume. Mal podia adivinhar que não se davam: Cesariny repudiava completamente o historicismo de Nadeau. Os surrealistas portugueses são alheios à historicidade. Não é papel deles debruçarem-se sobre a história, muito menos sobre a própria história. Portanto, a tradução não foi avante. Em compensação, Cesariny propôs à Ulisseia uma espécie de antologia por ele organizada, que eu publiquei sob o título “A Intervenção Surrealista” [1966]. Uma antologia muito mais ortodoxa, bretoniana, seguindo a linha dos manifestos. Foi o primeiro livro surrealista que publiquei na Ulisseia.

Em Portugal ninguém publicava os surrealistas. Era um pequeno grupo em rotura com o neo-realismo vigente, que ocupava jornais, editoras em resistência ao fascismo. Ninguém publicava aqueles rapazes algo bizarros que andavam à noite a apanhar gatos em cima dos telhados e a os meter em caixas de papelão e outras coisas assim. Então eu pus a Ulisseia ao serviço dos surrealistas portugueses, com quem tive contactos pessoais, nas noitadas, nas boemias, nos cafés.

De resto, há uma história interessante. Certo dia Cesariny chamou-me a um cafezinho para uma conversa. Lá fui eu. Ele, com o ar conspirativo, vozinha baixa, ao fim e ao cabo propôs-me entrar no grupo surrealista, um grupo fechado. Disse-lhe: "Sim, senhor. Mas quanto é que se paga por cota?" O que podia ser entendido como provocação foi logo secundado por uma gargalhada que cimentou um tipo de relação especificamente surrealista. A simples pergunta dava logo uma distância, digamos assim, dialética em relação ao movimento.

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