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O medo

A propósito da crise humanitária dos refugiados temos ouvido e lido o discurso do medo no seu esplendor.

Passamos a vida a ter medo de ter medo. Percebo a paralisação face ao desconhecido, esse temor que entorpece, a falta de fiabilidade de quem soma o verbo arriscar com perda, como uma inevitabilidade. Mas já tenho dificuldade em admitir que o medo apareça e se instale como o nome de família de tanta gente, Marias e Maneis com medo, quando se conhece o ponto de partida e o contraponto, quando se identifica o reverso da medalha. A solidão é uma das causas deste fenómeno, mesmo quando pensamos juntos ou em conjunto. Assistimos, diariamente, à exortação do pensamento solitário de vários homens em grupo, como se o "a uma só voz" fosse sinónimo de "a uma só ideia". O medo é solitário e por isso clama para que as pessoas se juntem, se agrupem por ele e que, em última análise, percam a razão pelo medo que o medo convoca.

A consagração do medo está nos ensinamentos básicos de qualquer livro ou manual de guerra. A diversificação táctica para a propagação do terror é tão grande que prolifera em consecutivas vagas de desinformação, chantagem, amnésia, história sem h, recalcamentos e sentimentos transviados. Vale tudo para instalar o medo. O método é simples: ir directo ao consciente apagado e iluminar o lado negro. Passamos a vida a ouvir dizer que se confiarmos mais no nosso instinto de sobrevivência, estaremos mais e melhor preparados para enfrentar o Mundo. E é aí que acabamos sozinhos, sem Mundo algum.

E alguns assim passam a vida se para isso forem ensinados. Com o medo de viver depressa demais para depois acharem que a vida é curta. A desdenhar da promoção porque traz mais responsabilidade. Com o medo dos refugiados de guerra porque podem ser perigosos terroristas que a trazem refugiada no corpo. A procurarem e a adquirirem experiências para depois as gozarem sentados no sofá. Com o medo do Syriza, do Podemos e de Jeremy Corbyn para depois se espantarem com a boçalidade de Donald Trump e a ignomínia de Viktor Orbán. Relutantes na admissão de que Catarina esmagou Paulo e Pedro nos debates democráticos para depois se julgarem imparciais no julgamento político. Com o medo de interpretar a dura verdade dos factos por se sentirem mais seguros pela estabilidade da mentira. A perceberem se o plafonamento na Segurança Social é viável para depois se surpreenderem sem ela. Com o medo e mesquinha altivez sobre a mesa de Sócrates em domiciliária mas sem tanto receio pelo extra-queijo de Dias Loureiro na rua. A investigar uma solução para a crise sem perceberem quem a colocou no meio de nós. Com medo dos tempos sem permitirem que o Mundo avance. À procura de uma solução sem admitir a viragem. Com medo de andar de pé para depois andarem a pé e sem rumo.

A propósito da crise humanitária dos refugiados temos ouvido e lido o discurso do medo no seu esplendor. Esse discurso abjecto que compara o que não é comparável, esquece toda a dimensão e proporção, impossibilitando o diálogo. A resposta pode ser não responder, por agora. Fazer, continuar é mesmo o que há para fazer. O medo do escuro é um dos ancestrais medos das crianças e não se combate pelo confronto, antes pela desconstrução. "A psicanálise dos contos de fadas", como Bettelheim refere. As crianças adoram ouvir a mesma estória vezes sem conta, procurando o prazer e o reconforto nessa repetição, mesmo que não seja um conto de fadas agradável: os pormenores invadem o seu inconsciente e ajudam a que ela entenda e supere os seus conflitos, estes bem reais. Judeu austríaco, deportado para um campo de concentração após a anexação da Áustria, o psicólogo do autismo e dos contos de fadas experienciou o lado extremo da condição humana. Nem por isso procurou refúgio na vindicta ou baixou o nível do debate para fingir que mantinha um diálogo. Para dialogar sobre a humanidade é imperioso não descer ao nível da barbárie, nem cair na tentação de armar o anjo da guarda. Há que enfrentar a violência das imagens e do discurso interpretativo de alguns com a clareza e o silêncio que não omite mas que procura desconstruir o medo do escuro. Como Capicua escreve, "eles têm medo de que não tenhamos medo". Ninguém concebe a liberdade na escuridão.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” em 15 de setembro de 2015

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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