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O debate medíocre

O grande debate foi afinal medíocre. Felizmente, podemos escolher a coragem em vez da mediocridade.

O grande debate foi afinal medíocre. Medíocre no formato, medíocre no trabalho jornalístico, medíocre nas respostas aos problemas do país, medíocre na capacidade dos intervenientes. Entediante, enrolado nas releituras claramente oportunistas do passado recente, pobre nos argumentos, com políticos incapazes de um rasgo e a seguir ao milímetro rígidos guiões pré-estabelecidos.

Daí que, provavelmente, dele sobrarão apenas, no futuro próximo, uma ou outra boca de pouco impacto e a impressão vaga de que o António Costa ganhou apenas porque a direita perdeu.

Só que António Costa não ganhou. Ficou um exercício repetitivo de auto-elogio de um Presidente de Câmara que deixou escapar a ideia de que reduziu a dívida apenas através de uma venda de terrenos resultante de um processo de privatização alheio, ficou a prisão no tema da austeridade positiva da troika que apenas teria sido levada um pouco acima do limite, ficou a incapacidade de uma alternativa clara e de uma ideia mobilizadora.

E Passos Coelho perdeu. Porque estava mais tenso, porque caiu no erro de falar mais em Sócrates do que no seu suposto milagre económico, porque aceitou que o seu governo foi austeritário ao mesmo tempo que tentava reescrever (demasiado cedo) a história da vinda da troika.

Perdeu mas a sua derrota foi relativa. Se no debate de dia 9 pesou mais a pequena política do medo (o despesismo PS voltará para nos levar à ruína, a responsabilidade da vinda da troika é exclusiva do PS, o programa do PS para estas eleições consegue ser Sócrates e o Syriza ao mesmo tempo), amanhã voltará a pequena demagogia da resolução da crise.

Nestas eleições o que se irá contabilizar será sobretudo essa capacidade da direita impor a narrativa de que já resolveu a crise, temperada pela lata de se desdizer despudoradamente: a dívida em nome do qual todos os sacrifícios teriam de ser feitos afinal nem é coisa que importe assim tanto, a austeridade que era uma oportunidade para refundar as políticas do país afinal é um interregno e pode vir (quem sabe...) a ser descartada. Por isso, a direita alimenta o paradoxo de criticar um passado despesista do Estado Social que devia sofrer “reformas estruturais” (eufemismo para privatizações e cortes nos serviços) e de sugerir ao mesmo tempo a possibilidade do seu regresso: já nada poderá ser como dantes, tudo deverá voltar a ser como dantes.

Assim, a questão não é quem venceu ou perdeu este debate (como se a política se reduzisse a um jogo de pingue-pongue argumentativo). E interessará aliás menos que ele tenha sido medíocre do que tenha sido interiorizada a falsa evidência de que estas eleições são um jogo limitado a dois candidatos a Primeiro-Ministro. Esta falsa evidência é a mediocratização mediática da política que quer derrotar a democracia. E perderemos todos se aceitarmos que é inevitável a escolha entre os dois políticos medíocres que nos ocuparam os televisores.

Até porque eles, na inabilidade de quem treina para parecer autêntico, não conseguiram esconder que se encaixam confortavelmente no mesmo arco da austeridade que nos é imposta para além da sua própria capacidade de escolha. Candidatam-se assim para continuar a fazer uma gestão discursiva dos ciclos económicos internacionais e uma política de subalternidade absoluta face à ditadura financeira e à burguesia alemã.

António Costa prende toda a sua política ao “cenário macro-económico” ultra-optimista e não consegue dizer o que fará se falharem as previsões. Passos Coelho prende todo o seu “sucesso” a uma fase de ligeiro aumento do consumo no meio da grande estagnação económica e não nos diz sequer o que fará no futuro. Ambos têm um problema com os sinais que se acumulam e que indiciam que a crise está para ficar. Ambos se revelam incapazes para lidar com o que vivemos já e com o que aí vem.

Felizmente, podemos escolher a coragem em vez da mediocridade.

Sobre o/a autor(a)

Professor.
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