You are here

Votar é fazer escolhas pela vontade

Podemos ter muitas dúvidas, mas devemos ter a certeza, pela certificação dos resultados e pela vivência da dolorosa realidade, que a política seguida por sucessivos governos em Portugal, não serve o país, não dignifica as pessoas, não resguarda a democracia.

Estamos a um mês de eleições legislativas. Viemos de banhos, reentramos nos afazeres profissionais e vamos a votos. Multiplicam-se os apelos, encarniçam-se as promessas, justificam-se os equívocos, responsabilizam-se os adversários pelos insucessos e ilibam-se os apaniguados pelo que correu menos bem. Já ninguém fala em êxitos, em boa governança ou em cumprimento do anunciado. Limitam-se a dizer que teria sido pior se fosse o outro. É a política do menos mau, do caos se não fossemos nós, do inevitável perante o descalabro. É tudo para nosso bem mesmo que estejamos cada vez pior. Temos de viver com austeridade porque vivíamos acima das possibilidades e temos de ter menos possibilidades para não sentir tanto a austeridade. Assim vão enfeitiçando o povo com esta lengalenga do arco do poder, como se fossem uma espécie de emissários divinos para o sacerdócio da plutocracia dos tempos modernos. Tudo está determinado pelos ditames do poder financeiro e os excelsos mensageiros, amamentados e adubados por uma corja de ambiciosos partidários, executam meticulosamente o guião da encomenda. Conseguimos mandar a Troika embora, agora só temos uma Tríade que dá orientações, fiscaliza intervenções e determina orçamentos. Agora sim, temos um Estado ágil e auspicioso. Estamos a vender, ao desbarato, tudo o que era património coletivo e encargo social e a esvaziar aquilo que os esquerdistas chamavam de “conquistas de Abril”. Os transportes já eram, a eletricidade já foi, a Segurança Social é caritativa, o SNS em desmantelamento, a Escola Pública em liquidação, na Banca privatizamos os lucros e nacionalizamos as despesas… Temos o país à venda e em saldo, dividido em talhões e setores, aberto à porfia concorrencial de quem nos impingem. Nem que seja por ajuste direto. Enquanto o desemprego aumenta para índices vergonhosos, a precariedade no emprego institui-se como normalidade, a emigração atinge valores superiores aos anos sessenta, a pobreza e a miséria grassam pelo país como divisa indelével da desumanização austeritária. Simultaneamente o número de milionários não para de crescer, os presidentes das grandes empresas ganham cada vez mais, os carros e as moradias de luxo atingem top´s de vendas. Alargou-se o fosso entre os poderosos, mais dominadores e mais arrogantes, e o povo, mais dependente e menos livre. A cultura do medo, instaurada pelas instâncias da macropolítica europeia com zelosos discípulos a governar o nosso país, retira capacidade de luta e de enfrentamento porque obriga as pessoas a segurarem o pouco que têm com receio de deixarem de ter. Há quatro anos, Passos Coelho, com a desfaçatez de um inveterado trapaceiro, fazia bandeira do fim dos cortes salariais e das reformas e “cruz-credo” se alguém falar em aumento de impostos. O irrevogável Portas, embalsamado pelo marketing e ornado pelo sorriso cínico, autoproclamava-se de cristão misericordioso na defesa dos pobres e chefe do partido dos reformados. Julgando o povo como néscio e falho de memória, com a obscenidade doutrinal que a ânsia do poder os impele, voltam a dizer o mesmo com a mesma pouca-vergonha. Apregoam a ladainha de que estamos a emergir do longo calvário fundeado pelos outros. Como tal, estão quedos de pensamento e de propostas para não estragar a sordidez que encetaram. Alguém ainda acredita nas promessas destes embusteiros?

O PS recauchutado tenta esquecer os malefícios do passado e ignorar o eminente quinhão de responsabilidades pelo lastimoso estado do país. Sempre tático e calculista, este partido do arco da alternância, mais uma vez, não se apresenta como alternativa. Tem novamente uma atitude política titubeante de palavras mansas e ideias vácuas sem propostas de comprometimento. A epígrafe é alastrar a rede à periferia dos polos contrários, indiferente da esquerda ou da direita, para alcançar a maioria. Configura-se na simbologia do ditado popular “não é carne nem é peixe”. Diz preservar o Estado Social mas é apologista das privatizações. Diz defender os direitos do trabalho mas assume a liberalização dos despedimentos. Diz que quer romper com a austeridade mas recusa a renegociação da divida. Entendamo-nos!

Votar é fazer escolhas pela vontade. Essa vontade é tanto melhor escolha quanto melhor se conhecerem as hipóteses. É tempo de percebermos as visões políticas, as formas de intervenção, os programas, as propostas e a sua credibilidade. Não há caminhos únicos como nos querem fazer crer. O esclarecimento público está condicionado e é inflamado por um rolo compressor de comunicação social e de fazedores de opinião, que colocam as eleições na esfera da luta titânica entre os partidos da alternância de governo, como se outras políticas não existissem.

Ninguém é dono dos votos e ninguém nos pode obrigar a optar pelo que não queremos. Podemos ter muitas dúvidas, mas devemos ter a certeza, pela certificação dos resultados e pela vivência da dolorosa realidade, que a política seguida por sucessivos governos em Portugal, não serve o país, não dignifica as pessoas, não resguarda a democracia.

Em Portugal ainda temos o direito de fazer escolhas políticas. Compete aos cidadãos informarem-se, analisarem e optarem. Já fiz a minha. É por um programa político que faz a diferença pelas ideias, pelas propostas, pela clareza e determinação. É por um passado de confiança na intervenção e na proposição. Nunca enganaram os portugueses e sempre disseram o que achavam dever ser dito. Doa a quem doer. É gente de verdade que defende princípios e valores e que demonstra atitude e convicção. É pelo Bloco de Esquerda. O nosso distrito deve estar condignamente representado na AR com deputados do Bloco de Esquerda. Para isso é preciso despertar, juntar forças e afirmar a alternativa. O tempo é de opções e das escolhas de hoje depende o futuro das nossas vidas.

Nota: num registo de política local e a propósito da troca de fundamentos com o deputado municipal do PS, Nelson Brito, e sem o propósito de adensar querelas e somente em forma de reparo, chamo a atenção, ao PS concelhio e à CMB, que Portugal em 26/07/2010 subscreveu uma Resolução aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, ratificada em Genebra por aprovação de consenso em 30/09/2010, onde se declara “o direito à água potável e ao saneamento como um direito fundamental para o pleno disfrute da vida e de todos os direitos humanos”, passando esta prerrogativa a ser legalmente obrigatória na consagração dos tratados. Assim, já não se trata somente de uma questão moral ou de princípios mas sim de direitos humanos institucionalmente estipulados. Esta deliberação reforça, e muito, o fundamento da moção apresentada pelo Bloco de Esquerda na AM.

Artigo publicado no “Jornal de Barcelos”

Sobre o/a autor(a)

Professor. Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda
(...)