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Ayotzinapa: o fogo, as cinzas

A tragédia de Iguala é, hoje, um terreno onde a memória e o esquecimento lutam pelo seu lugar na história mexicana. O relatório agora divulgado é um ponto a favor da luta pela memória. Um passo adiante na busca pela verdade e a justiça. Luis Hernández Navarro, para o diário La Jornada, do México.
Foto de Steve Rhodes.

O relatório oficial sobre a tragédia ocorrida em outubro do ano passado foi reduzido a cinzas. A versão apresentada pelo ex-procurador Jesús Murillo Karam foi devorada pelo fogo das evidências. O relatório do Grupo Interdisciplinar de Especialistas Independentes (GIEI), criado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), demoliu completamente o relato governamental sobre os factos ocorridos. Como logo disse uma das mães das vítimas desaparecidas: “nós sempre soubemos que era mentira”.

Segundo o relatório do GIEI, os ataques aos estudantes rurais, no município de Ayotzinapa, no dia 26 de setembro de 2014, foram realizados para impedir que os três autocarros que os jovens apanharam em Iguala saíssem da cidade – além de castigar os rapazes pela atitude que tiveram.

Portanto, a versão dada por Murillo Karam, de que os estudantes pretendiam sabotar o ato de María de los Ángeles Pineda como presidenta do DIF (Sistema de Desenvolvimento Integral da Família, instituição pública ligada às políticas de assistência social) de Iguala, foi considerada falsa. Quando eles chegaram à cidade, o evento já tinha terminado há mais de uma hora.

O relatório também concluiu que a agressão contra os alunos foi massiva, planeada e indiscriminada. Foi realizada em nove diferentes lugares, e em diferentes momentos (durante três horas), dirigida e coordenada.

Para chegar à magnitude e sofisticação dos ataques, foram necessários níveis complexos de comunicação, infraestrutura e coordenação, que não se pareceriam, segundo o relatório, ao que possui o grupo criminoso Guerreros Unidos, o mais forte da zona. Na história de Iguala, não existe um episódio parecido, de uma operação criminosa ou um assassinato dessa magnitude, tão pouco desaparecimentos ou ocultamento de restos humanos em fossas. A hipótese mais provável é a de que alguém mais, com mais recursos, conhecimento e capacidade de atuar, teria participado da ação.

A operação contra os jovens estudantes teve duas etapas: as duas caras de uma mesma moeda. Na primeira, a do ataque aos autocarros e aos que participaram da conferência de imprensa para denunciar os ataques iniciais, os agressores não ocultaram a sua identidade, e tão pouco se importaram em atuar diante de testemunhas. Na segunda, a do desaparecimento forçado dos jovens, os algozes tentaram ocultar todas as pistas do crime e a sua identidade. A decisão de fazer os estudantes desaparecerem teve continuidade com a violência desencadeada contra eles desde o início. Ambas foram parte de uma mesma operação.

Segundo os especialistas da CIDH, uma perícia qualificada e independente mostrou claramente que a versão governamental de que as 43 vítimas foram assassinadas por um grupo de capangas, e que os seus restos foram incinerados num depósito de lixo do município de Cocula, é totalmente insustentável. Assim, o sentido central do relatório governamental naufragou vergonhosamente.

O relatório não só mostra que a verdade oficial foi uma mentira, como também abre levanta questões sobre a responsabilidade de funcionários públicos e instituições de segurança nas execuções extrajudiciais, nos desaparecimentos forçadas e nos atentados contra os alunos da Escola Rural Raúl Isidro Burgos.

As polícias estadual, municipal e federal, assim como o Exército, foram informados em tempo real, e durante praticamente toda a realização da operação em Iguala. As forças de segurança estavam cientes de tudo o que os estudantes de Ayotzinapa fizeram desde a sua saída da escola, quando faltava um minuto para as 18h até o momento em que foram atacados e sequestrados, e essa informação partiu do Centro Estatal de Controlo, Comando, Comunicações e Cômputo (C-4).

Apesar de estes agentes de diferentes forças de segurança e do Exército saberem que os estudantes de Ayotzinapa estavam a ser atacados violentamente, por homens fardados e por civis armados, não fizeram nada para evitá-lo. Além disso, o facto de alguns policias e soldados se encontrarem no exato lugar onde ocorreram os factos foi o que permitiu que os jovens fossem agredidos e assassinados da forma mais selvagem.

Entretanto, houve dois momentos em que as comunicações do C-4, segundo os dados que puderem ser captados pelo GIEI, se perderam. Curiosamente, essa falta de informação coincide com o tempo posterior ao primeiro ataque, na rua Juan N. Álvarez, e ao instante em que se perpetra uma segunda agressão, no mesmo lugar. De acordo com um documento oficial da Proteção Civil de Chilpancingo, a transmissão das informações a partir do C-4 foi suspensa em certos períodos porque a comunicação sofreu intervenção da Secretaria de Defesa Nacional.

Isso significa que, por alguma razão não esclarecida, o Exército bloqueou a comunicação do C-4, no exato momento em que foram efetuados dois dos primeiros ataques aos estudantes. A razão pela qual isso aconteceu não pode ser apurada.

Não são os únicos casos em que o relatório demonstra a participação de militares naquela noite em Iguala. Elementos do 27 batalhão de infantaria estiveram presentes nas várias cenas do crime, e procuraram sem sucesso os estudantes que ficaram detidos no comando da polícia, e interrogaram (e ameaçaram) os jovens que se encontravam na clínica Cristina, solicitando que um dos seus companheiros fosse atendido.

A tragédia de Iguala é, hoje, um terreno onde a memória e o esquecimento lutam pelo seu lugar na história mexicana. O governo apostou em deixar os ataques para trás, e também as execuções extrajudiciais e os desaparecimentos forçados dos estudantes. Os pais das famílias das vítimas não desistiram de encontrar a verdade dos factos e exigem que se faça justiça. O relatório do GIEI é um ponto a favor da luta pela memória. Um passo adiante na busca pela verdade e a justiça.

Publicado em La Jornada.
Tradução: Victor Farinelli para a Carta Maior.

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