You are here

Sim, é possível: a reestruturação da dívida da Ucrânia

O governo de Ucrânia chegou a acordo com os seus credores, exceto a Rússia, para uma reestruturação da sua dívida pública que levará ao corte de 20% do seu valor nominal (de 18 mil milhões de dólares, cerca de 4 serão apagados).

Creio que só o Jornal de Negócios se referiu em Portugal à notícia: depois de cinco meses de negociações, o governo de Ucrânia chegou a acordo com os seus credores, exceto a Rússia, para uma reestruturação da sua dívida pública que levará ao corte de 20% do seu valor nominal (de 18 mil milhões de dólares, cerca de 4 serão apagados).

O resultado é importante, porque os credores se opuseram inicialmente a qualquer concessão, mas o governo ucraniano ameaçou impor uma moratória aos pagamentos e, finalmente, foi possível o acordo.

O acordo tem vantagens e desvantagens. Os principais benefícios para o país são a redução do valor em dívida e um período de carência até 2019. O risco é uma cláusula de vinculação de pagamentos futuros ao crescimento do PIB que poderá implicar uma subida dos juros (os credores receberão 40% do excesso da taxa de crescimento do PIB acima de 4%, com um limite de mais 1% durante os primeiros quatro anos).

Naturalmente, a Ucrânia tem um contexto político que favoreceu a negociação e pressionou os credores, dado o conflito com a Rússia e o apoio dos governos europeus e norte-americano ao executivo de Kiev. Além disso ou por isso, o FMI fez um empréstimo à Ucrânia mas, para adiantar a próxima prestação contratada, exigia a reestruturação da dívida – alguma coisa foi aprendida com a Grécia.

Em todo o caso, o facto é este: há mesmo reestruturações das dívidas soberanas e os credores podem ter que aceitar perdas. É só mais um episódio dessa longa saga de renegociações e abatimentos da dívida, que os peritos do FMI contabilizavam em 2012 em mais de 600, considerando no pós-guerra as 95 principais economias.

Melhor seria para Portugal fazer parte dessa lista mais recente.

Artigo publicado em 8 de setembro de 2015 em blogues.publico.pt

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
Comentários (2)