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“O Bloco de Esquerda distingue-se por pôr sempre o dedo na ferida”

Numa entrevista à RTP, a porta-voz do Bloco afirma que o eleitor de esquerda que queira mudar o rumo do país deve votar nos partidos que não seguem a lógica da austeridade e do Tratado Orçamental, e desde logo no Bloco de Esquerda que põe claramente esse problema na mesa.
"O Bloco de Esquerda mantêm-se fiel ao compromisso que faz com as pessoas lhe confiem o seu voto”.
"O Bloco de Esquerda mantêm-se fiel ao compromisso que faz com as pessoas lhe confiem o seu voto”.

O eleitor de esquerda que queira mudar o rumo deve votar bem à esquerda do PS, partido que tem estado alinhado com o PSD e o CDS em questões fundamentais que precedem a austeridade, defendeu Catarina Martins na entrevista conduzida pelo jornalista Vítor Gonçalves. E recordou os compromissos europeus que obrigam já para 2016 gastar tanto na dívida quanto em todo o Serviço Nacional de Saúde e toda a Educação.

“Este ano, para as pessoas terem uma ideia, tivemos de gastar 9 mil milhões de euros – isso é toda a Saúde. Para o ano, se ficar tudo na mesma, vamos gastar 15 mil milhões de euros – toda a Saúde e toda a educação”, sublinhou a candidata do Bloco, insistindo que este compromisso foi firmado tanto pelo PSD e CDS quanto pelo PS, quando aceitaram o Tratado Orçamental. “A única forma de se fazer pressão na Assembleia da República para que assim não seja”, afirmou, “é votar nos partidos que não têm essa lógica e desde logo no Bloco de Esquerda que põe claramente esse problema na mesa”.

De que vale escolher entre duas forças que nunca são alternativa?

De que vale votar em quem tem tido a mesma lógica da austeridade e portanto tem criado tanto desemprego?

Diante da pergunta que apontava para o voto útil, Catarina Martins foi clara: “De que vale votar em quem tem tido a mesma lógica da austeridade e portanto tem criado tanto desemprego? De que vale fazer uma escolha entre duas forças que têm alternado e nunca têm sido alternativa? De que vale fazer uma escolha entre duas forças que não apresentam as contas para o ano seguinte e portanto já sabemos que no dia em que forem eleitas dirão 'Ah! Afinal os constrangimentos europeus não nos permitem fazer o que tínhamos dito', ou 'afinal as contas do país não são como pensávamos?'”

E perguntou: “Não estarão as pessoas já fartas desse rodar de alternância que não traz alternativa?”, para alertar para o perigo maior de os que se sentem enganados não irem votar. “E isso será o pior. Porque quem não escolhe, alguém sempre escolhe por ele – o ministro das Finanças alemão, por exemplo.”

O Bloco de Esquerda nunca falhou a uma votação de esquerda na AR

O entrevistador perguntou então que possibilidade há de haver um acordo com o PS em determinadas matérias em que seja necessário o voto para viabilizar elementos da governação.

A porta-voz do Bloco foi clara: “O Bloco de Esquerda nunca falhou a uma votação de esquerda na AR”. E sublinhou: “As pessoas têm tanta segurança de que o Bloco nunca se venderá por um lugar no governo, como têm a segurança de que nunca deixará de assumir todas as responsabilidades para fazer a diferença na vida das pessoas”.

E concretizou esta ideia com exemplos: “Aumentar salário mínimo nacional? Claro, contam com o Bloco de Esquerda. Quem está em situação de desemprego deve ter acesso a subsídio? Claro, contam com o Bloco de Esquerda. Quem está precário na Função Pública, está a ser abusado num contrato de emprego inserção ou num falso estágio e quer ter um contrato de trabalho a sério? Claro que conta com o Bloco de Esquerda.”

Aumentar salário mínimo nacional? Claro, contam com o Bloco de Esquerda. Quem está em situação de desemprego deve ter acesso a subsídio? Claro, contam como Bloco de Esquerda. Privatizar? Não, não contam com o Bloco de Esquerda

Em contrapartida, “privatizar? Não, não contam com o Bloco de Esquerda. Baixar os salários ou baixar as pensões? Não, não contam, esse é o caminho que tem trazido destruição ao país”, vincou a candidata do Bloco. "Não é um problema de siglas, é um problema de políticas e o Bloco de Esquerda mantêm-se fiel ao compromisso que faz com as pessoas que lhe confiam o seu voto”.

Ao pedido de que identificasse duas ou três ideias específicas que diferenciam o Bloco dos outros partidos, Catarina Martins respondeu que “ainda nesta legislatura fizemos com que a violência no namoro fosse também considerada crime público, como a violência doméstica; ou que a violação passasse a ser um crime semipúblico, protegendo melhor as vítimas”. Há muito ainda para andar, disse Catarina Martins, dando como exemplo a hipocrisia de considerar que drogas leves como a marijuana “devem ser tratadas ao lado de drogas pesadas, em vez de serem tratadas com os cuidados e os riscos que há por exemplo com o álcool e o tabaco, para prevenir os consumos danosos, mas ao mesmo tempo respeitar a saúde das pessoas e protegê-las”.

Nunca recuar diante de um combate

Mas Catarina Martins afirmou que o Bloco de Esquerda distingue-se, mais que por isso, “por pôr sempre o dedo na ferida e nunca recuar diante de um combate que diga algo de concreto sobre a vida do país”.

E deu exemplos: “Nenhum partido, como o Bloco de Esquerda, é capaz de confrontar o primeiro-ministro quando ele considera que Dias Loureiro deve ser considerado um modelo de empresário. Nenhum partido como o Bloco de Esquerda está à vontade para denunciar como o capital angolano, de uma ditadura, vai controlando uma parte da comunicação social em Portugal”. Em resumo: “Faz diferença que haja um partido que nunca hesita em denunciar o que deve ser denunciado”.

Ilações da experiência da Grécia

Ao pedido de que tirasse as ilações da experiência recente da Grécia, a porta-voz do Bloco esclareceu: “Primeiro, que é muito importante que as pessoas tenham voz, que lutem e lutem diferente, para que não continue tudo na mesma”.

E depois, “uma lição muito dura: o governo grego foi para negociações achando que estava a falar com pessoas de bem que cumpririam as regras. E não cumpriram as regras. O BCE decidiu estrangular a banca grega para condicionar a decisão política dos gregos. O Eurogrupo expulsou o ministro das Finanças grego da reunião para poder decidir coisas nas suas costas. E os governos liderados por Partidos Socialistas na Europa, que têm dito que não querem a austeridade, na hora da verdade, estiveram juntamente com Angela Merkel e Schäuble a dizer que a austeridade devia ser o único caminho.”

Para Catarina Martins, por outro lado, “o Syriza não se preparou para a chantagem europeia que enfrentou. Devemos aprender com isso. E se a Alemanha tem o poder de ameaçar com a expulsão quando não gosta das decisões desse país, a partir de hoje, qualquer país europeu, para não ser uma colónia financeira alemã, tem de ter sempre um plano B preparado”.

O Syriza não se preparou para a chantagem europeia que enfrentou. Devemos aprender com isso.

À pergunta se votaria na Grécia, nas próximas eleições, no Syriza ou nos seus dissidentes, Catarina Martins respondeu: “Eu não voto na Grécia, mas uma coisa lhe digo com toda a clareza: eu não concordo com o plano de austeridade imposto na Grécia. Acho que é mau para a Grécia e é mau para a Europa.”

Refugiados: Passos Coelho regateou a cota vergonhosamente

Sobre a cota de 1400 refugiados para Portugal, Catarina Martins criticou Passos Coelho porque este regateou para baixar a cota que era de mais de 2000. “Eu acho que isto é uma vergonha” E deu exemplo de um concelho pequeno, como Penela, que está disposto a receber 20 refugiados. “Se cada concelho português estivesse disposto a receber o mesmo, significava que podíamos receber mais de 7 mil. E as pessoas em Portugal sabem que isso é possível e querem fazê-lo, são generosas".

“Acho que Passos Coelho nesta altura devia olhar para Angela Merkel, que ofereceu ficar com 800 mil refugiados, era uma boa altura para seguir Angela Merkel”.

Catarina Martins defendeu abrir um corredor humanitário para deixar de sair os refugiados e parar de financiar a guerra nas regiões de onde estão a vir os refugiados, parando de comprar petróleo ao Estado Islâmico e deixar de vender armas. Mas rejeitou uma intervenção militar da Nato, lembrando que o que fizeram até agora essas intervenções foi aumentar a ação do Estado Islâmico.

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