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Crónica de uma fatura anunciada

Mesmo depois dos generosos e variados benefícios fiscais, o Novo Banco continua a precisar de capital. Sejam as perdas de 2.000 ou 2.500 milhões é impensável que o sistema bancário as vá acomodar.

Independentemente das proclamações dos mais ferozes liberais, o sistema bancário beneficia de uma garantia pública implícita, vitalícia, que decorre do seu carácter sistémico, crucial ao funcionamento da economia.

O segundo maior erro de Passos Coelho foi colocar a sua incontrolável veia eleitoralista à frente desta evidência básica. Quando afirmou que os contribuintes não seriam chamados a suportar perdas privadas, mentiu. A realidade demonstra-o.

Mesmo depois dos generosos e variados benefícios fiscais, o Novo Banco continua a precisar de capital. Os 3.000 milhões que, segundo se diz, a Anbang estava disposta a oferecer já contavam com esta eventualidade. E isto sem falar de outras contingências futuras.

Falhada esta possibilidade, resta a Fosun, negociada em piores condições.

Sejam as perdas de 2.000 ou 2.500 milhões é impensável que o sistema bancário as vá acomodar. A proposta em cima da mesa é um pagamento aos bochechos, ao ritmo das contribuições normais, que no ano passado prefizeram... 38 milhões de euros. Mas mesmo que fossem 50 milhões, vinte anos seriam necessários para que a banca pagasse a sua dívida ao Estado.

Não conhecemos o projeto estratégico da Fosun para o Novo Banco. Mas o que fizeram com a Fidelidade não deixou ninguém bem impressionado, e a hipótese de ter um banco sistémico exposto desta forma ao mercado chinês é tudo menos tranquilizadora.

O desespero nunca foi bom conselheiro e, mais uma vez, a gestão eleitoralista do caso poderá sair muito cara ao país.

Mas e o primeiro maior erro de Passos Coelho? Foi não ter feito absolutamente nada para que não volte a acontecer. Mais uma crise bancária desperdiçada.

Artigo publicado no “Diário Económico” em 2 de setembro de 2015

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
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