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Palavras reprimidas

Desde pequena que se questiona sobre o destino das palavras quando não se diz o que se sente. Durante muito tempo habituou-se a ignorá-las. Engolia-as sem as mastigar, sem conseguir mesmo, por vezes, entender o que lhe queriam transmitir.

Tinha acabado de completar 15 anos quando a levaram a meio da noite para aquele quarto, numa cidade distante, onde haveria de ficar mais de duas semanas até se recompor, até poder ser aceite no colégio que lhe estava destinado. Era preciso não deixar a barriga crescer mais, diziam, porque seria perigoso e não tardava que as roupas de inverno deixassem de ser apropriadas para o calor que já se avizinhava.

Maria não sabia ainda muito bem o que a esperava, mas compreendia que o importante era ocultar que o tio a visitava regularmente durante a noite, quando vinha pernoitar naquela casa enorme por causa dos negócios da família. Há anos que era assim, mesmo quando a tia e os primos o acompanhavam durante as férias.

Mal teve tempo de se despedir das vinhas que a viram crescer e muito menos lhe foi permitido dizer adeus à amiga do coração, de quem fora proibida de receber visitas havia mais de um mês. Apenas os pais, o médico e o padre António - que inclusive escolhera a casa onde haveria de ficar os três anos seguintes - sabiam desta viagem e do motivo por trás da pneumonia grave que a apanhou desprevenida e a deixara de cama.

Quando partiram, o padre ofereceu-lhe um terço e pediu-lhe que nunca deixasse de rezar à madrinha do Céu. Ela haveria de ter compaixão e acompanhá-la nesta nova etapa, de total dedicação e entrega a Deus.

Maria rezava, todos os dias, primeiro porque fora obrigada e depois por mera habituação. O pensamento raramente acompanhava as palavras e o corpo foi-se moldando ao uniforme que tinha de usar e às práticas diárias exigidas. Sentiu raiva, mas calou-a, até se transformar num vazio, até tudo lhe ser indiferente. À hora das refeições comia porque todas o faziam. Durante as orações não recordava por que palavra exatamente tinha começado ou terminado, mas não saltava nenhuma. Sabia-as de cor. E quando conseguia dormir não se importava se o dia amanhecia com Sol ou com a chuva a bater na janela.

Esta manhã recebeu a notícia da morte daquele que tantas vezes lhe apertara as mamas ainda verdes. Pareceu-lhe ouvir novamente os seus gemidos sussurrados ao ouvido enquanto lhe esfregava o sexo. Ficou paralisada por alguns instantes, ou talvez horas, até desatar a rir como nunca.

Não ia fazer absolutamente nada do que possivelmente esperam dela. Nem responder à mensagem do primo ou muito menos telefonar aos pais. Não os via há anos. Deixara tudo para trás, pelo menos o que podia, o que não permanecia agarrado a si. Recordou a última estada na casa grande, uma visita breve após muito tempo de ausência no estrangeiro e apenas motivada pelo casamento do irmão, que era ainda tão pequeno noutros tempos. Lembrou então as palavras da mãe, naquela noite, a insurgir-se contra a infâmia dos tempos. Onde já se viu permitirem a qualquer uma escolher romper com a vontade de Deus.

Nessa altura não riu e engoliu novamente as palavras, mas hoje gargalha. Muito. Sabe que não mudará o que foi feito, o que decidiram durante muito tempo em seu nome, porém está certa que agora pode escolher por onde caminhar. Os seus passos pertencem-lhe e ao corpo, embora assustado e em parte roubado, só lhe destina o que a praz.

Percebe finalmente onde estavam amordaçadas as palavras que não proferiu durante anos. Volta a rir e veste o casaco. Já é tarde e esperam-na para jantar.

Sobre o/a autor(a)

Trabalhadora da administração local
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