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China: "Acidentes de trabalho" e desastre ecológico

As "catástrofes industriais", como as explosões na área portuária de Tianjin, interligam-se com uma política de desenvolvimento em que o controle do Partido-Estado sobre os setores-chave da indústria é decisivo.
Bola de fogo da primeira explosão na área portuária de Tianjin - Foto wikimedia

Na quarta-feira, 13 de agosto de 2015, por volta das 23:30 (hora local), poderosas explosões ocorreram na área portuária de Tianjin, um dos dez maiores portos do mundo. Parece que um incêndio num armazém da empresa Tianjin Dongjiang Port Ruihai International Logistics - que estava autorizada a armazenar "produtos perigosos", apesar das suas deficiências em matéria de segurança, esteve na causa das explosões. As autoridades prenderam, de imediato, alguns "quadros" desta empresa. Isso faz parte da política tradicional, como explica um responsável da ONG China Labour Bulletin, de Hong Kong: "Geralmente, neste tipo de casos, as autoridades encontram bodes expiatórios, alguns funcionários vão ser despedidos ou despromovidos, mas as coisas acabarão por mudar muito pouco, apesar da grande publicidade em torno desta tragédia. "

A 16 de agosto, o poder também teve que reconhecer a morte de 114 pessoas, a hospitalização de 722 feridos e o desaparecimento de 85 pessoas. A funesta contagem não terminou. No mesmo dia, o general Shi Luze, chefe do estado-maior da região militar de Pequim - a capital encontra-se a cerca de 140 quilómetros daquela cidade de 14 milhões de habitantes - foi forçado a reconhecer que várias centenas de toneladas de material altamente tóxico estavam armazenadas em dois pontos daquele local. A imprensa chinesa, altamente controlada, já tinha indicado a presença de 700 toneladas de cianeto de sódio. Os meios de comunicação internacionais seguiram este "acidente industrial" difícil de camuflar, tanto mais que nesta zona estão instaladas a Toyota e a Renault. As viaturas chamuscadas dos seus parques de estacionamento testemunham o acontecimento.

Milhares de carros ficaram queimados pelas explosões em Tianjin - Foto de Karl-Ludwig Poggemann

Os projetores focaram menos dois outros "acidentes" ocorridos um dia antes. De facto, na noite de 11-12 agosto de 2015, uma explosão num jazigo de carvão e de gás matou 13 pessoas na província de Guizhou (sudoeste). Uma ocorrência comum. Em 2014, 921 trabalhadores foram “registados” como mortos em resultado de acidente nas minas de carvão. Na mesma noite de 11 para 12 de agosto, um deslizamento de terra em Shangluo (sul) enterrou mais de 60 trabalhadores nos dormitórios das minas. de onde se retira vanádio (metal raro).

Surgiu também uma confusão sobre o estatuto dos bombeiros. Os bombeiros empregados pelas grandes empresas (químicas, por exemplo) não têm nem a mesma formação (daí um erro no ataque inicial ao incêndio), nem o mesmo equipamento, nem os mesmos salários dos bombeiros que dependem das autoridades estatais. Informações sobre o destino de alguns destes jovens - como mostram fotos divulgadas - estão a ser exigidas pelas suas famílias. Os “extintores” da censura têm estado particularmente ativos ... para apagar mais de 50 sites acusados de difundir "rumores" e "semear o pânico." Pode-se compreender a frequência dos "acidentes de trabalho", examinando o mapa interativo, colocado online pela China Labour Bulletin.

As empresas públicas em conjunção com o poder central, com os poderes regionais e locais continuam a ser um elemento central de um sistema de poder político em que se interligam a nomenklatura do Partido-Estado e do exército, que recorre a um poderoso discurso nacionalista . A estabilidade deste sistema implica, por um lado, integrar os capitalistas privados e, por outro, procurar dar emprego a 12 milhões de jovens, que todos os anos chegam ao mercado de trabalho

Estas "catástrofes industriais" interligam-se com uma política de desenvolvimento em que o controle do Partido-Estado sobre os setores-chave da indústria é decisivo. Através das SOEs (State-owned Enterprises, empresas de propriedade do Estado) e sob a supervisão da SASAC (Comissão de supervisão e administração dos bens públicos dependentes do conselho dos assuntos de Estado), as cimeiras do PCC (Partido Comunista Chinês) têm o controle do sistema bancário, da energia (minas, petróleo, atómica), indústria pesada, telecomunicações, indústria aeroespacial, caminhos de ferro, armamento, etc. A cotação na bolsa da China National Petroleum Corporation, da Baosteel Group Corporation ou da State Grid Corporation of China não altera o seu estatuto, mesmo que o seu nome tenha sido alterado e ... tenha um administrador executivo (CEO)… eleito pelo círculo dirigente de um partido que reúne 86 milhões de membros. Um administrador que, certamente, dispõe de alguma autoridade que lhe permite ditar investimentos, desde que convirjam com os interesses dos seus mandantes em termos de escolhas políticas de "crescimento" e de enriquecimento pessoal, assim como de influência. As empresas públicas (SOEs) em conjunção com o poder central, com os poderes regionais e locais continuam a ser um elemento central de um sistema de poder político em que se interligam a nomenklatura do Partido-Estado e do exército, que recorre a um poderoso discurso nacionalista . A estabilidade deste sistema implica, por um lado, integrar os capitalistas privados (no partido, quando eles não vieram direta ou indiretamente dele como "filhos de") e, por outro, procurar oferecer emprego a 12 milhões de jovens, que todos os anos entram no mercado de trabalho. Os investimentos mais excessivos são, portanto, justificados em nome da "criação de emprego", correspondendo ás exigências de enriquecimento e/ou extensão da ascensão política dos “decisores”. Neste emaranhado, a corrupção só pode crescer em espiral.

Tianjin, 16 de agosto de 2015 - As famílias tiveram que exigir informações sobre os seus familiares

No artigo de Richard Smith “China's Communist-Capitalist Ecological Apocalypse” (“O apocalipse ecológico da China comunista-capitalista”)1, o autor faz uma descrição do desastre ecológico em curso. O drama de Tianjin é apenas uma faceta dele.

No documentário de Chai Jing sobre a poluição na China, com o título Under the Dome, (que pode ser visto com legendas em francês em http://www.courrierinternational.com/video/chine-le-documentaire-censure-sur-la-pollution-de-lair-en-francais e com legendas em inglês em 8 vídeos listados em https://www.youtube.com/playlist?list=PLWAJWwjxa-mNeiTvOQulxxSJ8-rb33Uq_) o diretor da divisão de poluição automóvel do ministério do Ambiente resume por esta fórmula a sua influência perante os que não aplicam os regulamentos, nem respeitam as leis: “Procuro não abrir a boca com medo que os poluidores vejam que eu não tenho dentes”).

Artigo da redação de A l'Encontre . Tradução de Carlos Santos para esquerda.net


1 O artigo de Richard Smith, do Institute for Policy Research and Development de Londres, foi publicado no número 71 da Real-World Economics Review e foi traduzido para francês pelo site A L'Encontre.

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