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Sindicalistas preferem Bernie Sanders a Clinton. O que farão os líderes sindicais?

Mobilização dos trabalhadores pode não ser suficiente para garantir o apoio da maioria dos sindicatos americanos. Mas isso não irá necessariamente abrandar a "revolução política" que Sanders está a tentar impulsionar. Artigo de Mario Vasquez, publicado no In These Times.
Foto de Gage Skidmore, Flickr.

O senador Bernie Sanders de Vermont emergiu como o candidato mais abertamente a favor dos trabalhadores nas primárias democratas de 2016. Com a sua proposta sobre a legislação federal relativa ao salário mínimo de US$15 e os frequentes ataques à família Walton do Walmart no seu discurso de campanha, Sanders está a acompanhar alguns dos movimentos de justiça económica mais vibrantes e de grande escala em décadas. Isso contrasta profundamente com Hillary Clinton, que se opõe à proposta sobre o salário mínimo e é ex-membro do conselho de administração do Walmart.

Como o jornalista do trabalho da Bloomberg Josh Eidelson noticiou recentemente, existe também uma "insatisfação ou desconfiança" generalizada para com Clinton entre os líderes locais e estaduais da Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais (AFL-CIO) no primeiro Estado chave de Iowa devido à sua posição sobre o impopular Tratado Transatlântico. O acordo de comércio é amplamente encarado pelos trabalhadores como sendo movido pelos interesses das grandes multinacionais e tem sido comparado com o Acordo Norte-Americano de Livre Comércio de 1994 pelo seu potencial para reduzir salários e dizimar empregos. Clinton começou recentemente a condenar o negócio, mas alguns duvidam da sua nova posição. Sanders, por outro lado, opõe-se ao TTIP, descrevendo-o, e a políticas comerciais semelhantes, como um "desastre" para o trabalhador americano.

A sua retórica musculada sobre o assunto, entre outros, explica o apoio popular entre os sindicalistas de base que integram o movimento Labor for Bernie, uma rede política de trabalhadores que pressionam os seus sindicatos para apoiar Sanders. A carta pública lançada pela organização instando os sindicatos a apoiar Sanders reuniu assinaturas de mais de 5.000 sindicalistas em todo o país.

Embora a AFL-CIO raramente declare o seu apoio durante as primárias, é esperado que, até às primárias de 2016, venha a ser anunciado o apoio das suas 56 organizações sindicais filiadas e de outros sindicatos importantes. Este processo de declaração de apoio, no entanto, está longe de ser democrático na maioria dos sindicatos, já que são os dirigentes sindicais, e não os sindicalistas de base, que possuem mais influência sobre tais questões. Nestas circunstâncias, e contra o peso que tem o nome de Clinton e o facto de esta estar numa posição de significativa liderança, a pergunta para os sindicalistas que apoiam Sanders parece ser quanta agitação de base será necessária para levar os sindicatos a apoiarem o senador de Vermont.

“Uma crise da democracia sindical”

O conselho executivo de 45 membros da Federação Americana de Professores (AFT) apoiou Hillary Clinton a 11 de julho, tornando-se a primeira estrutura sindical nacional a declarar o seu apoio nas primárias democratas. Esta iniciativa surgiu consideravelmente cedo em comparação com o processo da AFT em eleições anteriores. O sindicato esperou até outubro de 2007 antes de apoiar Clinton para a corrida de 2008 e aguardou até fevereiro nas eleições de 2004 antes de apoiar John Kerry.

Num artigo a criticar a decisão, o professor Lois Weiner afirmou que se tratou de "uma decisão apressada [que] foi feita sem qualquer aparência de legitimidade", observando que o sindicato recorreu a uma única sondagem, do início de junho, de 1200 membros - quando Sanders começava a subir nas sondagens – para apresentar o apoio a Clinton como representando os 1,6 milhões membros do sindicato.

"Se quer determinar alguma coisa, tem de atuar antes das primárias", disse o presidente da AFT Randi Weingarten em defesa da decisão. Weingarten, um aliado de longa data de Clinton, está atualmente sentado no conselho da super Comissão de Acção Política pró-Clinton Priorities USA Action.

Beth Dimino, um professor de ciências do oitavo ano em Long Island e presidente da Associação de Professores de Port Jefferson Station, uma organização sindical filiada na AFT, descreve o processo como um "debate sufocado". "[AFT] tomou a decisão de se comprometer com esse apoio 15 meses antes de ser necessário fazê-lo, sem, creio, consultar a sua base".

Megan Moskop, professora de uma escola secundária em Nova York e membro do movimento sobre justiça-social Movimento de Educadores de Base (MORE), descreve a situação como "uma crise da democracia sindical," associando "o negócio" do apoio a Clinton à escassez de políticas progressistas sob tal sistema.

“Candidatos como Bernie Sanders, que realmente têm posições a favor dos trabalhadores e da classe trabalhadora, iriam dar aos meus alunos e às suas famílias o apoio de que necessitam e não obtêm", diz Moskop. "Se os sindicatos trabalhassem de forma diferente, então candidatos como ele teriam mais hipóteses de ter um lugar à mesa. Enquanto os sindicatos alinharem no mesmo processo político que não admite candidatos com pouco dinheiro e pouco reconhecimento, vão contribuir para agudizar algo que já está falido” no processo político.

'Apenas um apoio'

David Moberg relatou em 2012 que o apoio dos sindicatos foi fundamental para a mobilização que levou à reeleição do presidente Barack Obama.

Mas poderiam as federações a nível local e estadual da AFL-CIO proporcionar um esforço similar, ou até menor, durante as primárias presidenciais? Não se o presidente da AFL-CIO Richard Trumka tiver alguma coisa a dizer sobre o assunto.

Depois das afiliadas da AFL-CIO na Carolina do Sul e Vermont terem apoiado Sanders em junho, Trumka enviou um comunicado de repreensão a lembrar os líderes estaduais e locais da federação que tais apoios explícitos foram proibidos. "Há apenas um apoio numa eleição presidencial, e ele vem da sede nacional", afirmou mais tarde Trumka ao Politico.

Ian Robinson, membro do movimento Labor for Bernie e presidente do Central Labor Council/AFL-CIO de Huron Valley, diz que o apoio nacional da AFL-CIO, como o da AFT, não deve basear-se na "pretensão de unidade." As estruturas sindicais devem "descentralizar as decisões sobre quem apoiam até ao nível em que [uma] organização, seja um órgão federal como a AFL-CIO ou um sindicato como a AFT, possa alcançar um amplo consenso sobre quem deve apoiar".

Quando o consenso não existe, diz Robinson, “a pretensão de falar em nome de toda a estrutura nacional revela-se... excessiva. ... Que benefícios pode um candidato apoiado pela estrutura sindical representar que valham a pena dividir e alienar secções importantes da base da sua organização?".

As credenciais progressistas e pró-sindicatos de Sanders certamente contribuem para estimular o apoio de base. Será que vão mobilizar os dirigentes sindicais, também? Os anos em que Sanders, diante dos cortes, apoiou a expansão do serviço postal, deram origem a elogios entusiasmados por parte do presidente da União Americana dos Trabalhadores dos Correios (APWU), Mark Dimondstein, depois de um encontro com o candidato em meados de julho.

"Houve um enorme interesse e entusiasmo sobre a campanha [de Sanders] no movimento operário", diz Dimondstein.

O segundo maior sindicato a anunciar o seu apoio até agora foi o Sindicato Nacional dos Enfermeiros (National Nurses United - NNU) com 185.000 membros, que optou por apoiar Sanders na segunda-feira. O diretor executivo do NNU Roseann DeMoro alega que a decisão foi tomada após sondagens do sindicato que mostraram um amplo apoio dos seus membros, embora a decisão final pareça ter vindo da direção do sindicato. As raízes do movimento social sindical, no entanto, estão claramente em consonância com as posições de Sanders sobre questões prioritárias como o sistema de saúde universal financiado pelo Estado.

'Ativismo, e não apoios decididos de cima para baixo'

Eric Robertson, um apoiante de Sanders e diretor político do sindicato Teamsters de Atlanta, acredita que os apoios são sobrestimados. À medida que as bases eleitorais de Sanders divulgam e elogiam as políticas em defesa dos trabalhadores deste candidato, outros trabalhadores sindicalizados vão mobilizar-se em torno de Sanders, diz Robertson, o que resultará numa campanha que assenta mais num público politizado do que em apoios sindicais.

“Creio que há uma tendência entre os trabalhadores que apoiam Bernie … para ficarem demasiado alarmados com o facto de as estruturas sindicais não satarem para o comboio de Bernie”, diz Robertson. "Penso que é realmente importante que as pessoas simplesmente continuem a trabalhar... e demonstrem a verdadeira amplitude do apoio que Bernie tem. Quanto maior for o apoio popular, mais surgirão apoios oficiais".

Cem mil pessoas terão participado em mais de 3.500 reuniões de ativistas em todo o país a 29 de julho para tentar descobrir como construir e expandir a "revolução política" que Sanders descreve de forma consistente como sendo necessária para a vitória.

"É disso que precisamos - de baixo para cima, milhões de americanos não apenas a votar, mas a organizar grupos nos seus bairros, como vamos ver esta noite," disse o ex presidente do Sindicato Trabalhadores das Comunicações da América, Larry Cohen, em declarações ao In These Times no dia do evento.

Ele compartilha a opinião de Robertson: "O que queremos é construir uma revolução política na América e isso significa apoio de base em todo o país, e não apenas em Estados chave. ... Isso é que é fundamental – é o ativismo, e não apoios de cima para baixo. "

O poder de organização e de angariação de recursos que as estruturas sindicais podem proporcionar podem fazer uma diferença crucial a favor de um candidato fortemente progressista como Sanders numa campanha já submersa em dinheiro por todo o lado. Mas dada a tendência dos sindicatos de apoiarem democratas centristas como Clinton, que eles acreditam ter mais hipóteses de ganhar as eleições (apesar de oferecerem muito poucas garantias sólidas de que esses centristas vão aliviar a tendência decrescente da taxa de sindicalização ao longo dos últimos 30 anos), a mobilização dos trabalhadores que apoiam Sanders pode não ser suficiente para conquistar os apoios da maioria dos sindicatos americanos ou da AFL-CIO. Mas isso não irá necessariamente abrandar a "revolução política" que ele está a tentar impulsionar.


Artigo publicado em http://inthesetimes.com/working/entry/18307/bernie-sanders-hillary-clint...
Tradução de Mariana Carneiro para o Esquerda.net

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