You are here

A culpa não é do Athayde, é mesmo da realidade

Os seus cartazes podem dizer o que for, mas serão sempre o retrato dessa realidade: o PS foi inimigo do emprego e agora não apresenta uma proposta consistente para a criação de emprego. Por isso, faz estes cartazes que desdizem o que dizem.

Um cartaz que simulava a anunciação de um santo, outro com uma narrativa surpreendente que lança a culpa do desemprego para Sócrates, antes da troika e mesmo antes do benemérito PEC4, agora outro com uma mulher que desdiz a história do outdoor – cada cartaz do PS serve para enterrar as suas propostas e para manchar a atitude segura que esperava exibir neste agosto tão perigoso. Pior: se o PS escolheu o desemprego para terreno do debate eleitoral, esta sequência de disparates evidencia a sua fragilidade onde tinha que parecer forte. Tudo corre mal, na verdade porque os dirigentes ou os publicitários do PS apostaram nesta Lei de Murphy: é preferível que seja sempre pior, desde que falem de nós.

Terá Athayde razão na escolha destas imagens e destas mensagens? Ele passou por campanhas em vários continentes e em vários partidos, dirige uma multinacional do marketing, deveria saber aconselhar e coordenar o grafismo e muito mais. Mas num caso “não foi ele” quem decidiu o cartaz, no outro “nem foi ele” quem juntou a foto à história fantasiosa, apressa-se a dizer a campanha do PS. A notícia passa a ser o não-Athayde e não o PS.

Desculpem então a pergunta sobre o mistério dos cartazes: quem foi que decidiu esta técnica e estas mensagens? Costa, ele próprio? O director de campanha? A comissão de festas de Arruda dos Vinhos? O grupo taurino de Barrancos? E quem decidiu, queria mesmo significar o quê?

Ora, esse é o problema. É que as historietas que o PS conta sobre o desemprego não batem certo nem com o seu curriculum passado nesta matéria nem com as suas propostas actuais. Tudo foi sempre fácil nos cartazes do PS: um deles prometia criar 150 mil postos de trabalho em 2009. Mas a realidade foi madrasta e, com a sua maioria absoluta, deu em alterar o Código do Trabalho, e depois veio a troika, e agora o “despedimento conciliatório” ou, na versão musculada de Ascenso Simões, “o fim do contrato de trabalho”. A história do PS é uma longa peregrinação que passou pela criação dos contratos a prazo, pela promoção das empresas de trabalho temporário, pela restrições à contratação colectiva, pela punição fiscal das vítimas dos recibos verdes. Por isso, não se diga que a culpa é do Athayde. O PS, que lhe paga, faz bem em preservar a imagem do “marqueteiro”. Porque o que ele faz ou deixa fazer não tem defesa, simplesmente porque o PS é o que é, um partido que se empenhou em enfraquecer os direitos, as regras e os mecanismos de criação de emprego. Os seus cartazes podem dizer o que for, mas serão sempre o retrato dessa realidade: o PS foi inimigo do emprego e agora não apresenta uma proposta consistente para a criação de emprego. Por isso, faz estes cartazes que desdizem o que dizem.

E quem se demite é o director de campanha e não o Athayde. Ainda vamos ter mais telenovela na campanha do PS.

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
Comentários (1)