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15 coisas que deves saber sobre as eleições na Argentina

Este domingo decorrerão as eleições primárias e entre outubro e novembro será conhecido o sucessor de Cristina Fernández Kirchner. Artigo de Javier M. González, publicado em Nueva Tribuna.
Na foto: Cristina Fernández Kirchner.

Este domingo, 9 de agosto, a Argentina terá eleições primárias, instituidas por lei em 2009. Decidirão os candidatos que competirão na primeira volta de 25 de outubro, com segunda volta a 24 de novembro. O novo presidente assumirá o mandato a 10 de dezembro. Para além do presidente e do vice-presidente, eleger-se-ão 130 deputados, 24 senadores e 43 deputados do Parlasur. Em algumas provinciais eleger-se-ão governadores e autoridades locais.

Estas são as questões principais para entender este processo, que acabará em dezembro com um novo presidente e, sobretudo, um novo tempo político, depois de 12 anos de kirchnerismo – Néstor e Cristina -, caracterizado por uma liderança forte, centralizada e populista.

1- Inesperadamente, a campanha tomou um novo rumo com as graves acusações contra o chefe de gabinete, Aníbal Fernández, candidato a governador de Buenos Aires, e denunciado por ter ligações com o tráfico de droga. Divulgadas no passado domingo, não houve tempo para fazer uma sondagem que faça prever as consequências eleitorais, mas a maior vítima pode ser Daniel Scioli, o candidato presidencial do partido no poder.

2- A oposição não conseguiu apresentar-se unida, o que teria aumentado as suas hipóteses de derrotar o kirchnerismo. O sistema permite o reagrupamento de voto na segunda volta, mas também é possível que não haja segunda volta.

3- Haverá segunda volta eleitoral se nenhuma das candidaturas obtiver mais de 45% dos votos válidos ou mais do que 40% com uma diferença de 10% do segundo.

4- É, certamente, a eleição presidencial mais difícil de prognosticar desde que a democracia foi recuperada em 1983. As sondagens também falharam miseravelmente nas eleições recentes na cidade de Buenos Aires.

5- Daniel Scioli vai em primeiro lugar nas sondagens, seguido pelo presidente da Câmara de Buenos Aires. Mauricio Macri e Sergio Massa. Este, ex-chefe de gabinete de Cristina Fernández, que rompeu com Kirchner, esteve em primeiro nas intenções de voto há uns meses atrás. Mas afundou-se, embora haja analistas que digam que, nos últimos dias, tenha recuperado.

6- Há 15 candidatos presidenciais. Mas apenas três coligações onde existirão eleições internas. Os pequenos partidos, incluindo as formações de esquerda, terão que ultrapassar os 1,5% dos votos para poderem participar nas eleições de outubro.

7- Na província de Buenos Aires, o maior distrito do país, com 37% dos eleitores, os dois candidatos a governador têm apoiantes poderosos: Aníbal Fernández é apoiado pela presidente. Julian Dominguez, pelo Papa Francisco.

8- O governo reza para que nenhuma variável económica saia fora de controlo. Emite moeda sem controlo, gasta fortunas em propaganda, incentiva o consumo e tenta manter o valor do peso a todo o custo, embora as consequências tenham que ser assumidas pelo próximo governo.

9- Um das incógnitas fundamentais é se depois da primeira volta, de 9 de agosto, o peronismo não kirchnerista apoiará Scioli.

10- Se vencer um candidato da oposição terá que derrotar o mito de que só o peronismo garante governabilidade. O primeiro governo após a recuperação da democracia, em 1983, com Rául Alfonsin como presidente, sofreu 14 greves gerais, encorajadas pelo aparelho peronista.

11- Desde 27 de julho, o governo não podia promover iniciativas para captar votos. Mas, o governo saltou a legislação, e, na passada quarta-feira, a presidente foi a uma televisão nacional anunciar aumentos para os pensionistas e lançar duros ataques à oposição. Há poucos dias, a presidente aumentou as dotações orçamentais para a saúde e segurança, não incluídas no Orçamento de 2015. Fê-lo sem autorização do Congresso, graças aos superpoderes.

12- Apesar do êxito do voto eletrónico na cidade de Buenos Aires, onde se elegeu o chefe de governo no passado mês de julho, o governo nacional manteve o voto em papel. Na província de Buenos Aires o boletim de voto tem 80 centímetros de largura. Na pequena província de Catamarca, 120 centímetros. São as chamadas listas lençol. A votação tradicional facilita distintas formas de fraude, como o roubo de boletins de voto.

13- Depois destas eleições, o kirchnerismo aspira que o eixo da política passe para o parlamento. Após anos de hiperpresidencialismo, os soldados mais fiéis da presidente concentram-se no Congresso e no Senado, onde tentarão marcar o rumo do novo presidente. Mesmo não sendo candidata – por lei não pode candidatar-se a um terceiro mandato consecutivo -, Cristina Fernández joga um papel fundamental nestas eleições: indicou os principais candidatos, tendo em vista manter a maior cota de poder possível.

14– Ganhe quem ganhar a presidência, acaba uma época. Os candidatos com possibilidade de vitória têm um perfil dialogante, pragmático e com ênfase na gestão, mais do que nas grandes batalhas épicas e ideológicas dos últimos anos. Em qualquer caso, trata-se de conservadores, cada um com as suas nuances. Nem Scioli, nem Macri, nem Massa, têm habilidades oratórias, imprescindíveis para uma liderança populista.

15– O historiador Tulio Halperin Donghi disse uma vez: “o peronismo foram três anos que duraram cinquenta”. Fazia referência ao extraordinário fenómeno de longevidade do peronismo, embora apenas os primeiros três anos (1944-1947) tenham sido realmente brilhantes. O kirchnerismo aspira a persistir com a mesma intensidade, mas apenas os primeiros quatro anos (2003-2007, presidência de Néstor Kirchner), apresentam resultados notáveis.  

Artigo publicado em Nueva Tribuna

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