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Krugman: Os republicanos não podem estar a falar a sério

Dizer disparates é o que se tem que fazer para chegar a algum lado no atual Partido Republicano. A política normal abandonou o Partido Republicano há já algum tempo. Artigo do Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia.
"Os políticos republicanos de hoje não podem falar a sério. Não, se querem ganhar as primárias e ter um futuro na sua formação", escreve Paul Krugman.

Segundo muitos analistas, este seria o ciclo eleitoral em que os republicanos iriam mostrar o seu grande banco. A corrida pela nomeação incluiria governadores experientes como Jeb Bush e Scott Walker, intelectuais inovadores como Rand Paul, e novos atores com garra como Marco Rubio. No entanto, Donald Trump está à frente por uma larga margem. O que aconteceu?

A resposta, dizem muitos que não estavam à espera, é a ingenuidade: as pessoas não conseguem distinguir alguém que parece saber o que está a dizer, de alguém que leva as coisas realmente a sério. E, não haja dúvida no mundo há muita ingenuidade. Mas, se me perguntam, os especialistas têm sido tão ingénuos como a opinião pública, e continuam a sê-lo.

Se é bem verdade que Trump é, basicamente, uma personagem absurda, os seus rivais também o são. Se prestar atenção ao que qualquer um deles está a dizer na realidade, em vez de como o diz, descobrem uma incoerência e um extremismo exatamente igual e mau como o que Trump tem a oferecer. E, não é por acaso: dizer disparates é o que se tem que fazer para chegar a algum lado no atual Partido Republicano.

Por exemplo, as ideias económicas de Trump (os habituais tópicos conservadores misturados com protecionismo e com um tipo de desregulação estranha) são claramente confusas. Mas, são piores do que a profunda convicção no vudu de Jeb Bush, a sua afirmação de que pode duplicar a taxa de crescimento subjacente da economia norte-americana? Além disso, a credibilidade de Bush não melhora com as provas para semelhante afirmação: o crescimento relativamente rápido experimentado na Flórida, durante a enorme bolha imobiliária, que coincidiu com o seu tempo como governador.

Como é sabido, Trump é um dos que puseram em causa que o presidente Obama tivesse nascido nos Estados Unidos. Mas, por acaso isso é pior que a declaração de Scott Walker de que não está seguro de que o presidente seja cristão?

A intenção expressa de Trump de deportar todos os imigrantes ilegais é claramente extremista, e exigirá violações graves das liberdades civis. Mas, por acaso alguém que defenda essas liberdades está no atual Partido Republicano? Olhe para o entusiasmo com que Rand Paul, que se define como libertário, se juntou à caça às bruxas contra a Federação Americana para a Planificação Familiar.

E mesmo que Trump pertença claramente ao movimento anticatólico e anti-imigrante de meados do século XIX, Marco Rubio, que nega as alterações climáticas, fez do “eu não sou um cientista” a sua frase característica. (Um lembrete para Rubio: os presidentes não têm que ser especialistas em tudo, mas têm que ouvir os especialistas e decidir em quais acreditam).

A questão é que, os perfis lisonjeiros dos meios de comunicação social têm retratado os rivais de Trump como pessoas sérias – Jeb o moderado, Rand o inovador, Marco o rosto de uma nova geração -, a sua suposta seriedade é só fachada. Se forem julgados pelos seus pontos de vista, em vez da sua imagem, o que temos é um monte de personagens extravagantes. E, como disse, isto não é por acaso.  

Há já muito tempo que é óbvio que para as convenções de informação e os comentários políticos se tornou impossível dizer o evidente, a saber: que um dos nossos grandes partidos perdeu o norte. Ou, como os analistas políticos Thomas Mann e Norman Ornstein afirmam no sue livro It’s Even Worse Than It Looks [Ainda é pior do que parece], “o Partido Republicano converteu-se num “excêntrico insurgente”… que não se deixa convencer pelo método generalizado de compreender os factos, as provas e a ciência”. É um partido em que não há espaço para as posturas racionais na maioria das questões mais importantes.  

Ou, dito de outra forma, os políticos republicanos de hoje não podem falar a sério. Não, se querem ganhar as primárias e ter um futuro na sua formação. Economia extravagante, ciência extravagante e política externa extravagante são elementos imprescindíveis do currículo de um candidato.

No entanto, até agora, os republicanos proeminentes têm tentado manter uma fachada de respeitabilidade, o que ajudou os meios de comunicação social a continuar a fingir que estão a lidar com um partido político normal. O que distingue Trump não são tanto as suas visões e a sua falta de interesse em manter as aparências. Acontece que a base do partido, que exige posições extremas, também prefere que sejam expressas diretamente. Por é que existe quem se surpreenda com isso?

Recorda-se que, após o ataque a John McCain, era suposto Trump entrar em colapso? McCain encarna a estratégia de aparentar moderado e adotar de vez em quando posições extremadas, e isso é muito apreciado pelos jornalistas, que o levam constantemente à televisão. Mas, por sua vez, os eleitores republicanos não se importam nem um bocado.

Será realmente possível que Trump consiga a nomeação? Não faço ideia. Mas, mesmo que, no final, o ponham de lado, não prestem atenção a todas as análises que lerão a declarar o regresso à política normal. Isso não vai acontecer: a política normal abandonou o Partido Republicano há já algum tempo. Quanto muito, vamos testemunhar um regresso à hipocrisia normal, do tipo que esconde políticas radicais e desrespeito pela evidência com uma retórica de tom convencional. E isso não será nenhuma melhoria. 

Tradução de Fabian Figueiredo para esquerda.net

Artigo publicado no New York Times. 

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