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“Governo português tentou ser mais alemão que os alemães”, diz ex conselheiro de Durão Barroso

Segundo o economista britânico Philippe Legrain, “com eleições à porta, o governo está a defender o seu terrível recorde - inclusive recorrendo à propaganda de que Portugal ‘deixou os seus problemas para trás’”.
Foto de TOBIAS KLEINSCHMIDT, EPA/Lusa.

“É propaganda e é um absurdo”, vinca Legrain numa entrevista ao Diário de Notícias, referindo-se à troca de tweet’s com Bruno Maçães sobre a situação portuguesa, na qual o secretário de Estado dos Assuntos Europeus escreve que Portugal ‘deixou os seus problemas para trás’.

Sobre a situação económica e financeira portuguesa, o ex conselheiro de Durão Barroso assinala que “Portugal ainda está num buraco fundo”. “A economia está ainda 7,5% mais pequena do que no seu pico no início de 2008 - na verdade está mais pequena do que em 2002 - e ao nível atual de crescimento de 1,5% não vai voltar aos níveis de 2008 antes de 2020: mais de uma década perdida”, lembra.

Philippe Legrain refere ainda “as dívidas globais - das famílias e das empresas”, que “são insuportavelmente grandes”, bem como a confusão instalada na banca “com o escândalo do BES à cabeça”.

A quebra dos salários e o aumento da pobreza, a crescente emigração, o desemprego que “continua altíssimo” e a redução do mercado de trabalho de 20% também merecem destaque por parte do economista.

Segundo Legrain, o fracasso do programa de assistência a Portugal tem três responsáveis: “O programa falhado foi projetado pela troika dentro das limitações políticas definidas pela Alemanha. E foi entusiasticamente implementado pelo governo português, que tentou ser ‘mais alemão do que os alemães’”.

Para o economista, “as consequências foram desastrosas: uma longa e desnecessária depressão da qual o país ainda não recuperou e que perversamente causou uma dívida pública tão alta que ultrapassa o produto interno bruto”.

Philippe Legrain alerta que “o peso da dívida portuguesa é insuportavelmente grande, e a sua maioria é detida por estrangeiros”, defendendo que, como assinalou o FMI, “Portugal tem de ser muito mais vigoroso na reestruturação da dívida corporativa”.

“A troca da dívida detida pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira por obrigações do Tesouro - que pagam mais quando há crescimento, mas nada numa recessão - seria uma grande ajuda”, advoga.

Sobre o modelo que a Europa deve seguir para ultrapassar esta crise, o ex conselheiro de Durão Barroso vinca que “precisamos de reformas para tornar as nossas economias mais dinâmicas, focando-se no aumento da produtividade e, consequentemente, nos padrões de vida, e não de cortar salários numa demanda germânica da ‘competitividade’".

“E precisamos de políticas muito mais abertas e honestas que antecipem o interesse público em vez dos interesses particulares (em particular o setor financeiro) e que permitam às pessoas legitimar escolhas democráticas sobre questões cruciais como a tributação e a despesa”, acrescenta.

Legrain salienta que “a narrativa alemã de que a crise é culpa de toda a Europa do Sul é falsa”, fazendo referência às “decisões políticas catastróficas tomadas pelos decisores da zona euro, especialmente Angela Merkel”.

No que respeita à crise do euro, o economista britânico afirma que “economicamente, a zona euro é um inteiro desastre”, sublinhando que “a menos que a zona euro comece a produzir padrões de vida mais elevados para todos de uma maneira que respeite as democracias nacionais, este casamento infeliz vai acabar eventualmente em acrimónia”.

No entender de Legrain, “as autoridades da zona euro em geral, entre as quais a Comissão Europeia de Durão Barroso, falharam miseravelmente aos europeus”.

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