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Para onde foi o dinheiro entregue à Grécia desde 2010?

De 2010 até agora a Grécia recebeu muitíssimo dinheiro (262.060 milhões de euros) das instituições europeias e do FMI. No entanto, só 10,3% de todo esse dinheiro acabaram nas mãos do Estado. Por Eduardo Garzón.

De 2010 até agora a Grécia recebeu muitíssimo dinheiro (262.060 milhões de euros) das instituições europeias e do Fundo Monetário Internacional (FMI), incluindo os dois resgates de 2010 e 2012 e também o empréstimo de emergência de 20 de julho de 2015. No entanto, só 10,3% de todo esse dinheiro (27.000 milhões de euros) acabaram nas mãos do Estado. Os 89,7% restantes não serviram para cobrir despesa pública corrente (pensões, salários, segurança social, etc.) mas foram destinados a pagar a antigos credores e a recapitalizar bancos.

Como se pode ver no gráfico abaixo, 32,4% de todo o dinheiro recebido foi utilizado para pagar a dívida que tinha sido contraída com bancos privados e com o Banco Central Europeu. Evidentemente que isso não aliviou (nem aumentou) a dívida pública da Grécia, já que a única mudança é que o novo credor deixa de ser um banco privado para passar a ser uma instituição europeia ou o FMI. Os títulos de dívida (e portanto o risco) mudam de mãos privadas para públicas, mas a dívida mantém-se. Evidentemente, o Estado grego não pôde utilizar esse dinheiro para a sua ação quotidiana.

Mas esses antigos credores não emprestaram o seu dinheiro por solidariedade, mas para fazer negócio. Para isso, em cada ano cobravam e continuam a cobrar juros, que são os lucros que obtêm por terem emprestado o dinheiro. Bem, pois 15,7% de todo o dinheiro dado a Grécia foi usado para pagar esses juros da dívida aos credores. Neste caso sim se produz um aumento da dívida pública, já que a Grécia contrai uma nova dívida para com as instituições europeias e o FMI. Escusado será dizer que esse dinheiro também não pôde ser empregue em despesa e investimentos públicos.

Dois anos após de o risco de ter dívida pública grega ter passado progressivamente de mãos privadas para mãos públicas, foi feito um alívio da dívida. Este consistia em que de cada 100 euros que tinha que devolver o Estado grego só ia devolver 47 euros. Isto é, o Estado grego comprou por 47 euros muitos títulos de dívida avaliados em 100 euros, e para isso precisou utilizar muito dinheiro. Todo esse dinheiro foi-lhe facilitado pelas instituições europeias, e a quantidade representa 17,5% dos montantes recebidos até à data. Essa quantidade aumentou a dívida pública, e também não serviu para despesa e investimento estatal.

O Estado comprou muitos desses títulos de dívida aos próprios bancos gregos, que tiveram que registar importantes perdas (já que venderam por 47 euros algo que tinham comprado por 100). Para compensar essas perdas o Estado grego injetou neles muito dinheiro. E esse dinheiro provinha das instituições europeias e do FMI na forma de empréstimos, representando 18,6% dos montantes recebidos. É dinheiro que o Estado grego também não pôde utilizar para a sua atividade corrente, e que contribuiu para aumentar ainda mais a dívida pública.

Outros 5,7% do dinheiro recebido foram utilizados para devolver dívida que se tinha contraído ao FMI e aos fundos europeus de resgate (Mecanismo Europeu de Estabilidade e Fundo Europeu de Estabilidade Financeira). Dinheiro que aumentou a dívida pública e que não serviu para despesa e investimentos do Estado.

Por último, os restantes 10,3% também aumentaram a dívida pública mas sim chegaram às mãos do Estado, que utilizou essa quantidade para a sua atividade corrente (pagamento de salários, de pensões, de educação, etc).

Em conclusão, se é verdade que o Estado grego recebeu muitíssimo dinheiro da Europa e do FMI, também é verdade que a maioria do mesmo só tem servido para 1) resgatar bancos privados, tanto nacionais como internacionais, 2) contribuir para o negócio bancário ao pagar juros, e 3) satisfazer pagamentos comprometidos com organismos internacionais; enquanto que só uma reduzida proporção de 10,3% serviu para levar a cabo despesa corrente do Estado grego.

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Artigo de Eduardo Garzón Espinosa, economista, membro da Fundación Europa de los Ciudadanos (Izquierda Unida), publicado em 21 de julho de 2015 em eldiario.es. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

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