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Tsipras: “Ameaça de Grexit só acaba com a assinatura do programa”

No dia seguinte à assinatura do acordo, o primeiro-ministro grego recusou o cenário de eleições antecipadas, afirmando que assinou um acordo em que não acredita para evitar o desastre inscrito no plano dos “conservadores extremistas europeus”. Até à assinatura final do programa nenhum cenário está fechado, avisa.

Na entrevista ao canal público de televisão no dia seguinte à cimeira de Bruxelas, o primeiro-ministro grego recusou o cenário de eleições antecipadas. Tsipras assumiu a responsabilidade por assinar um acordo que lhe foi imposto e em que não acredita, mas que evitou o desastre inscrito no plano dos “conservadores extremistas europeus”: expulsão da Grécia do euro, com dose reforçada de austeridade em troca de ajuda humanitária. Mas até à assinatura final do programa nenhum cenário está fechado, avisa.

“Assumo as minhas responsabilidades por todos os erros que possa ter cometido, assumo a responsabilidade por um texto em que não acredito, mas que assino para evitar o desastre para o país”, disse o primeiro ministro grego na primeira entrevista após aquela “noite má para a Europa” em que a forma como a Grécia foi tratada “não honra a tradição de uma Europa democrata”, com a maioria dos países a ter uma “posição dura e vingativa”. Tsipras diz que o Grexit nunca foi uma alternativa que o governo pudesse aceitar, por não ter reservas suficientes para regressar ao dracma, provocando o colapso dos bancos e uma catástrofe humanitária. “Falei com a Rússia, com a China e com os Estados Unidos e não havia outra escolha”, pelo que preferiu bater-se em Bruxelas pelo melhor acordo possível, acrescentou.

Nesta entrevista, o primeiro-ministro garantiu que lutou com todas as forças para defender os salários e as pensões, mas não escondeu que, apesar de não haver cortes, o poder de compra dos gregos irá diminuir com as medidas previstas no acordo. Ainda assim, Tsipras considera que o texto que assinou em Bruxelas é melhor que o ultimato rejeitado pelos gregos nas urnas, logo à partida porque afasta a possibilidade de Grexit, ao garantir as necessidades de financiamento a médio prazo e a restruturação da dívida. “Temos um acordo com reformas duras, mas não o beco sem saída do ultimato com que fomos confrontados a 25 de junho”, defendeu.

Falando das medidas em concreto, Tsipras discordou das mexidas no IVA, cujos aumentos trarão certamente efeito recessivo, mas não necessariamente aumento da receita fiscal. “Quanto maior a taxa, menos gente paga… mas foi isso que eles quiseram”, lamentou, admitindo que o impacto no poder de compra possa ser compensado com outras medidas. Sobre a reforma das pensões, com o aumento da idade de reforma para os 67 anos, que já estava incluído na proposta anterior de Atenas, Tsipras explicou que é uma medida correta. E quanto ao fundo que servirá de garantia ao empréstimo, Tsipras revelou que a proposta inicial de Merkel seria usar as receitas todas para abater a dívida

Comparando as ações prévias agora exigidas pelos credores e que irão a votos no parlamento esta quarta-feira e nas semanas seguintes, Tsipras diz que elas são as mesmas que estavam a ser discutidas antes do referendo. “Temos de ser sinceros sobre isso. Só que agora temos um período de financiamento maior e alívio da dívida”, prosseguiu, prometendo também que as leis já aprovadas, como a reintegração das funcionárias de limpeza do Ministério das Finanças ou dos trabalhadores da tv pública, não correm risco de voltar atrás.

Tsipras sobre o Syriza: “Não obrigarei ninguém a fazer aquilo que não quer”

Manter a estabilidade no país e na maioria que apoia o governo é a nova prioridade do primeiro-ministro, que acredita que irá cumprir os quatro anos de mandato. “Tenho a certeza que os grupos conservadores extremistas europeus ficavam contentes se o nosso governo fosse um parêntesis”, afirmou Tsipras, lembrando que o Partido Popular Europeu junta Merkel, Juncker, Tusk e a Nova Democracia, o principal partido da oposição ainda em busca de novo líder. Alexis Tsipras diz ainda acreditar que “a Europa pode mudar”, se por exemplo as eleições em Espanha trouxerem bons resultados para as forças “próximas do Syriza”.

“O pior que um comandante pode fazer quando está ao leme do navio no meio da tempestade, por mais difícil que seja, seria abandonar o leme”, respondeu Tsipras sobre as conclusões políticas de uma eventual perda da maioria de suporte do governo na votação de quarta-feira. Quando a possíveis demissões de governantes que se oponham à decisão de assinar o acordo, Tsipras respondeu que “no nosso partido, eu não posso expulsar ninguém e cada um assume as suas responsabilidades”.

“Não obrigarei ninguém a fazer aquilo que não quer”, garantiu Tsipras, contrapondo que “não vou aceitar que alguém me acuse de não ter respeitado os valores da esquerda e do povo grego” nas decisões “críticas” que foi obrigado a tomar.

Veja aqui a entrevista dobrada em inglês (começa aos 1:14:24)

Artigo publicado no infoGrecia.

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Resto dossier

A Europa da chantagem e o ultimato à Grécia

O acordo imposto em Bruxelas a Alexis Tsipras veio mostrar aos europeus que a democracia vale zero para quem toma decisões nos corredores do Eurogrupo. O povo grego vai continuar a pagar a permanência no euro com a receita recessiva prescrita pela Alemanha.

Dossier organizado por Luís Branco.

Democracia contra o colonialismo financeiro

Leia aqui a resolução aprovada na reunião da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda a 26 de julho sobre as consequências da cimeira da zona euro e a solidariedade com a luta contra a ocupação financeira da Grécia.

Vozes da direita juntam-se às críticas a Bruxelas

Em Portugal, não foram apenas os partidos à esquerda do PS a insurgirem-se contra a chantagem de Bruxelas e Berlim ao povo grego. Ex-governantes e comentadores políticos nos antípodas destes partidos também criticaram a “humilhação” que os líderes políticos europeus procuraram infligir ao governo da esquerda grega.

Leia aqui o "acordo" de Bruxelas (anotado por Varoufakis)

O ex-ministro das Finanças grego decidiu dar a conhecer as suas notas pessoais sobre o texto que serviu de acordo em Bruxelas e no qual, poucos dias depois, já quase ninguém diz acreditar.

Discurso de Zoe Konstantopoulou a favor do NÃO ao acordo imposto pelos credores

A presidente do Parlamento grego e uma das figuras mais populares do Syriza votou contra os dois pacotes de medidas prévias à negociação do terceiro memorando. No discurso de 15 de julho, Zoe Konstantopoulou diz não ter dúvidas de que "Alexis Tsipras foi chantageado com a sobrevivência do seu povo".

O “acordo” visto do interior do Syriza

Quando Alexis Tsipras regressou de Bruxelas com um acordo em que diz não acreditar e ter resultado da chantagem europeia, encontrou o partido dividido entre a estupefação e a revolta.

Habermas: “Governo alemão assumiu-se como chefe disciplinador da Europa”

Nesta entrevista ao Guardian, o filósofo alemão Jürgen Habermas fala sobre o acordo imposto à Grécia, considerando-o “um ato de punição de um governo de esquerda”. E defende que as medidas exigidas são uma “mistura tóxica de reformas” que irão “matar qualquer ímpeto de crescimento” na Grécia.

Stiglitz: Acordo sobre Grécia é "punitivo e uma estupidez cega”

Segundo o ex economista chefe do Banco Mundial e prémio Nobel da Economia, a Alemanha “não tem nenhum bom senso económico e nenhuma solidariedade”. Joseph Stiglitz  defendeu uma transformação radical da arquitectura financeira mundial. 

Vicenç Navarro: “Europa como ponto de referência mundial desapareceu”

“A Europa ponto de referência mundial para aqueles que desejam viver em países democráticos e justos desapareceu”, defende o sociólogo e politólogo espanhol. No seu artigo, Navarro denuncia a enorme manipulação dos media espanhóis e alemães no que respeita à chantagem e ao ultimato a que foi sujeita a Grécia.

Mélenchon: “Um acordo forçado que não devemos apoiar”

“O Governo de Alexis Tsipras resistiu de pé como nenhum outro na Europa. Devemos-lhe solidariedade”, contudo, “nada nos pode obrigar a participar na violência que lhe estão a infligir”, destacou Jean Luc Mélenchon poucos dias após a cimeira de Bruxelas.

O “plano Grexit” da Alemanha

O plano de Wolfgang Schäuble de expulsão da Grécia do euro, dado a conhecer na reunião do Eurogrupo de 11 de julho, impõe que o país entregue bens no valor de 50 mil milhões a um fundo para abater a dívida, sob a ameaça de mandar a Grécia para um “intervalo da zona euro” pelo menos até 2021. Aparentemente tem a cobertura de Angela Merkel e do vice-chanceler Sigmar Gabriel, líder do SPD.

Tsipras: “Ameaça de Grexit só acaba com a assinatura do programa”

No dia seguinte à assinatura do acordo, o primeiro-ministro grego recusou o cenário de eleições antecipadas, afirmando que assinou um acordo em que não acredita para evitar o desastre inscrito no plano dos “conservadores extremistas europeus”. Até à assinatura final do programa nenhum cenário está fechado, avisa.

Varoufakis abre o livro: “Você até tem razão, mas vamos esmagar-vos à mesma”

Na primeira entrevista após deixar o Ministério das Finanças, Varoufakis revela que defendeu a emissão de moeda alternativa como resposta à asfixia dos bancos, fala da “completa falta de escrúpulos democráticos por parte dos supostos defensores da democracia na Europa” e acusa os governos de Portugal e Espanha se serem “os mais enérgicos inimigos do nosso governo”.