You are here

O Chanceler que a Europa (nunca) teve

Definido por Angela Merkel como o melhor chanceler que a Alemanha nunca teve e há mais de quarenta anos no parlamento alemão, o percurso de Schäuble cruza-se com a consagração daquilo que muitos se apressaram em declarar como sendo o “fim da História”.

Olhando o percurso político de Wolfgang Schauble ressalta a sua perseverança e capacidade de, mesmo perante as adversidades, levar a cabo projetos ganhadores.

Schäuble admitiu ter recebido de um traficante de armas um donativo dirigido à CDU, de 100.000 marcos alemães

É também impressionante a forma como combinou, em diferentes momentos da sua carreira, formas distintas de exercício do poder.

Em 84-89, como Ministro para os Assuntos Especiais e chefe da diplomacia alemã, e em 89-91, como Ministro da Administração Interna, seria um dos conselheiros mais próximos de Helmut Kohl e um dos principais arquitetos e negociador dos tratados que celebraram a reunificação alemã, contribuindo decisivamente para a sua implementação.

Em 1990, escapando por pouco a um tentativa de assassinato cujas motivações – além do estado mental do seu autor - nunca foram totalmente esclarecidas, não desistiu da sua carreira política.

Beneficiando de grande popularidade, tornou-se então um dos possíveis sucessores na liderança do seu partido, a União Democrata-Cristã (CDU).

Mantém a atividade como líder da bancada parlamentar do partido, o qual passa a presidir em 1998.

Demite-se em 2000, na sequência de uma investigação de financiamento partidário ilegal envolvendo Karlheinz Schreiber, admitindo ter recebido deste traficante de armas um donativo dirigido à CDU, de 100.000 marcos alemães.

A sua demissão abre espaço à afirmação de Angela Merkel como líder da CDU e, mais tarde, Chanceler alemã.

A sua persistência trouxe-o outra vez ao poder executivo, em 2005 novamente como ministro da administração interna e, em 2009, como ministro das finanças.

O melhor chanceler que a Alemanha nunca teve”

É de facto impressionante.

É pouco comum encontrar um Ministro das Finanças que tenha sido antes chefe da diplomacia – poder associado à gestão das relações entre Estados (e neste caso num momento crítico dessas relações), para depois ser responsável pela gestão das forças policiais e administração do Estado (e numa altura em que era necessário arrumar a casa, moldar a forma da grande Alemanha reunificada).

Já em 1994 defendia a promoção de uma UE a duas velocidades e uma série de passos visando a abolição da soberania nacional, como meio de sustentar a união monetária e promover a unidade política

Definido por Angela Merkel como o melhor chanceler que a Alemanha nunca teve e há mais de quarenta anos no parlamento alemão, o percurso de Schauble cruza-se com a consagração daquilo que muitos se apressaram em declarar sendo o “fim da História”.

Como figura incontornável da direita alemã, não se alheou dos destinos da Europa. Tem sido defensor acérrimo de uma das posições dominantes no desenho da União Monetária e Económica (EMU): a união monetária como trampolim para união polítíca.

Já em 1994 defendia a promoção de uma UE a duas velocidades e uma série de passos visando a abolição da soberania nacional, como meio de sustentar a união monetária e promover a unidade política.

Se até finais da década de 2000 esta posição disputava espaço com uma outra, assente numa lógica distinta – a união monetária como culminar de um processo de convergência social e política – o rescaldo da crise financeira parece ter constituído a derradeira oportunidade para completar a obra.

É nesta conjuntura e, muito provavelmente, esta agenda que Schäuble assume o cargo de Ministro das Finanças Alemão, tornando-se num dos principais protagonistas da institucionalização da “nova governação económica”, ensaiada primeiro nos países periféricos e depois adaptada à generalidade dos países – o Tratado Orçamental é o exemplo mas claro dessa institucionalização.

Era necessário um controlo férreo sobre a política orçamental e, através desta, a completa desregulação dos modelo(s) social(is) Europeu(s).

Demonstrando também aqui estar à altura da missão que lhe é destinada, Wolgang Schauble será, talvez, o Chanceler que a Europa (nunca) teve.

Esteve no sítio certo, no momento certo, em lugares e momentos críticos para história contemporânea Alemã e Europeia, com implicações geopolíticas mundiais.

O Golpe de Estado de 13 de julho de 2015 parece ter sido particularmente eficaz para a salvaguarda da concepção da UME que coloca a moeda no topo da preocupações. Tão eficaz que François Hollande apressa-se a dizer presente face ao chamamento alemão: nos escombros da democracia e da solidariedade, é urgente reconfigurar a política

O Golpe de Estado de 13 de julho de 2015 parece ter sido particularmente eficaz para a salvaguarda da concepção da UME que coloca a moeda no topo da preocupações.

Tão eficaz que François Hollande apressa-se a dizer presente face ao chamamento alemão: nos escombros da democracia e da solidariedade, é urgente reconfigurar a política. E rápido, antes que anseios de democracia e solidariedade atrapalhem a consagração de uma nova ordem económica e social.

O fim da História não aconteceu

Mas a vitória pode ter um sabor amargo.

Porque uma nova ordem precisa de legitimidade política.

Porque a violência da vitória dificulta a sustentação de uma qualquer dominação consentida.

Porque, mais do que a força intelectual, é o abuso do poder - enquanto controlo sobre recursos, força bruta do dinheiro, controlo sobre informação, insinuação da repressão e da chantagem - que se torna visível aos olhos das opiniões públicas europeias, e não só.

Porque o imaginário histórico de um qualquer despotismo, seja ele político, económico, étnico-cultural ou financeiro, tem sido alimento para movimentos anti-capitalistas e para ensaiar alternativas - nacionais, europeias, internacionalistas.

Porque o fim da História não aconteceu.

Sobre o/a autor(a)

Investigadora bolseira e doutoranda em sociologia. Ativista para o que faz falta
Comentários (1)