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Tempos modernos

"Procuramos Máquinas - Envie o seu CV" é o assunto de um email que recebi. Artigo de Maria de Baledón

Ao abri-lo surpreendo-me com a imagem do Alerta Emprego: a cabeça estilizada de um homem, branca em fundo vermelho com uma espécie de trela, e o logótipo da empresa Era Imobiliária.

No peito do homem, a repetição: PROCURAMOS MÁQUINAS. Assim mesmo em maiúsculas e em bold.

O slogan incomoda-me, porquanto sei que o que pretendem é recrutar pessoas, trabalhadores.

Podemos ter uma base de dados gigante, colocar toda a oferta de imóveis on-line, pois é sabido que a tecnologia facilita em muito o trabalho, mas será sempre necessária a esta empresa, o vendedor.

Assim, por muitos robots que se patenteiem e por muito que os homens se desumanizem, nunca aqueles substituem os homens e nunca estes funcionarão como robots.

Chaplin de tanto apertar parafusos numa fábrica tornou-se neurótico, com tiques. Finda a jornada de trabalho, apertava e desapertava consecutivamente os botões da camisa.

O patronato exigia dele, como de milhares de trabalhadores, que desempenhasse tarefas repetitivas, rotineiras, mecânicas, robotizadas, de facto. A total singularização das funções.

Isso mesmo, Taylorismo e Fordismo, é retratado no filme de sua autoria "Tempos Modernos". Milhares de trabalhadores viviam nos Estados Unidos, à data, a realidade dos modelos de industrialização escravizante agravada pelos efeitos da pós crise de 1929 em que a ideologia capitalista reduzia o saber operário ao cumprimento de ordens e o excesso de produção conduzia outros tantos milhares para o desemprego.  

Chaplin de tanto apertar parafusos numa fábrica tornou-se neurótico, com tiques. Finda a jornada de trabalho, apertava e desapertava consecutivamente os botões da camisa

As jornadas de trabalho eram longas, os períodos de descanso não estavam previstos, não havia lugar a contratos, muitos menos se sabia o que eram subsídios. Aquilo a que se veio mais tarde a chamar-se direitos foi conquistado e vertido em lei na sequência de duras reivindicações, movimentos subversivos, paragens grevistas. Neste contexto, Roosevelt cria o New Deal que visa recuperar e reformar a economia norte-americana, através, por exemplo, da fixação do salário mínimo, da criação do seguro emprego e do seguro de velhice para os maiores de 65 anos.

A própria diminuição da jornada de trabalho com o objetivo de abrir novas vagas, foi uma ideia peregrina que muito gostaria de ver hoje defendida pela esquerda portuguesa.

É certo que muito mudou desde então, mas agora como dantes, o desemprego atingiu níveis muitos altos no nosso País e isso cria um ambiente favorável a certos apelos: "Procuramos Máquinas - Ser agente Era é ser dedicado, rápido, fiável, bem-sucedido. É ser uma máquina a vender casas".

Na realidade, assistimos também agora a inúmeros retrocessos: alterações nos contratos coletivos de trabalho, diminuição do valor das horas extraordinários, alteração do número de feriados, cortes nos subsídios e nos abonos, ausência de vínculos laborais, aumento da carga horária, precarização do trabalho. E tudo isso me ocorreu quando recebi este mail com este slogan de recrutamento.

No fundo, vivemos também num contexto que justifica este e outros anúncios, que potenciam toda e qualquer desumanização laboral.

Artigo de Maria de Baledón

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