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"O império"

Um dia um colega e amigo polaco contou-me como tinha acompanhado a independência de Angola e a sua guerra civil, através dos artigos e livros de Kapu"sci"nski . Mais tarde, por mero acaso, encontrei "O império", e o nome soou.

Li-o como se lê um bom romance, sem tempo para ganhar fôlego e a maldizer as cada vez menos páginas que me separavam do fim.

Em meia dúzia de meses tratei de perseguir e ler os restantes. Escritor, repórter, jornalista e fotógrafo, comunista por convicção, há quem diga que escrevia por metáforas para fintar o Partido Comunista Polaco, e que o tribunal de Haile Selassie da Etiópia (que descreve em "O imperador") era, afinal, a imagem do absurdo do comunismo real.

Kapu"sci"nski movimenta-se como ninguém no perigoso limbo entre a realidade e a ficção, e expõe, como poucos, a impossibilidade técnica de qualquer neutralidade discursiva.

Há quem o acuse de inventor ou romantizar os relatos que são, de facto, quase demasiado bons para ser verdade. "O império" está cheio dessas maravilhosas narrativas, viagens aos mais longínquos recantos de uma União Soviética em eminente colapso.

Deixemo-nos libertar, então, pelo fascinante limbo que Kapu"sci"nski nos oferece. Afinal, toda a história é demasiado complexa para ser retratada por uma estória, por muito boa que seja. E esta é uma boa estória.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” em 21 de julho de 2015

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
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