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Stiglitz: Acordo sobre Grécia é "punitivo e uma estupidez cega”

Segundo o ex economista chefe do Banco Mundial e prémio Nobel da Economia, a Alemanha “não tem nenhum bom senso económico e nenhuma solidariedade”. Joseph Stiglitz defendeu uma transformação radical da arquitectura financeira mundial.

Numa entrevista ao Libération, Stiglitz frisou que “o que a Alemanha impôs violentamente é simplesmente inconcebível” e “é também uma muito má política económica”, sendo que “vamos continuar a impor modelos que são contra produtivos, ineficiente e criadores de injustiça e desigualdade”.

“Continuar a exigir que a Grécia alcance um excedente orçamental primário [excluindo os pagamentos de juros sobre a dívida] de 3,5% do PIB em 2018 não é apenas punitivo, mas também uma estupidez cega. A história recente da Grécia provou-o”, acrescentou.

Referindo que “até o FMI, o órgão mais historicamente hostil a um tal processo”, admite que é preciso uma reestruturação e, inclusive, um alívio da dívida grega, o ex economista chefe do Banco Mundial lembrou que a Alemanha “não quer ouvir falar de ou uma coisa nem outra”.

A Alemanha “diz, nas suas palavras, que é preciso colocar a Grécia de pé, mas defende uma política e um programa que deixará, ainda mais, o país de joelhos”, avançou o prémio Nobel.

Para Stiglitz, “a intrusão na soberania de um país como a Grécia, e o ditame que lhe é imposto, são muito perigosos”.

“Os cidadãos gregos elegeram um governo que está empenhado em acabar com a austeridade. Eles votaram num referendo contra um plano apelidado de ‘resgate’ que alimentou ainda mais essa austeridade”, lembrou.

O economista norte-americano lamentou ainda que a Alemanha não tenha aprendido nenhuma lição com a história, já que o país “deve a sua recuperação económica e crescimento ao maior perdão da dívida já observado”, que teve lugar em 1953.

Sobre as consequências da crise grega para a zona euro, Stiglitz vincou que “é um desastre”.

“Se eu fosse um dos países da zona euro, colocaria a questão que todos os economistas lúcidos colocaram aquando da criação do euro: o que vai acontecer em caso de choque assimétrico [que afeta de modo diferente duas regiões que decidiram fazer uma moeda comum]?”, avançou, sublinhando que “a questão-chave é a solidariedade”.

“Com ela, pode superar-se tal choque. Mas a Alemanha, disse: ‘De forma nenhuma, se você enfrentar um, aceite as consequências’. Eu não quereria ser membro de um clube cujo líder não mostra nenhum reflexo de bom senso económico, nenhuma solidariedade, e, novamente, nenhuma compaixão”, afirmou.

Joseph Stiglitz destacou que “não podemos dirigir uma zona monetária como o euro sem o mínimo de visão, lucidez e solidariedade”.

“Seguramente, a política da zona euro nunca foi um projeto muito democrático. A maioria dos Estados-Membros não procurou a aprovação dos seus cidadãos para colocar a soberania monetária da zona nas mãos do BCE. Mas ao menos havia uma visão comum, uma forma de entreajuda e solidariedade. Essa visão acabou”, acrescentou.

Salientando que “não é possível reformar um sistema irreformável”, Joseph Stiglitz defendeu “uma transformação radical da arquitectura financeira mundial”.

O premio Nobel da Economia fez ainda referência à hipocrisia do “mundo das finanças e banqueiros, os maiores defensores do laissez-faire” que “rezaram para que os Estados voassem em seu socorro” e que são os mesmo “que se multiplicaram fazendo lobby para que o acordo sobre a Grécia fosse o mais duro possível”.

No que toca a hipocrisia, Stiglitz lembrou ainda que “os líderes da zona euro e os Estados Unidos intensificaram a crítica à Grécia e à sua incapacidade de arrecadar impostos e reduzir a evasão fiscal”, esquecendo que “os países ricos criaram a melhor arquitectura global para promover a evasão fiscal”. 

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