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Nina Simone e a música como expressão dos direitos civis

No rastro do documentário “What happened, Miss Simone”, vale a pena refletir sobre a vida, música e lutas da compositora negra que dizia: “É obrigação artística refletir o meu tempo”. Por Kauê Vieira, no Afreaka.

O movimento dos direitos civis é um dos momentos mais importantes da história dos Estados Unidos, concentrado principalmente em estados do sul do país, os factos ocorreram entre 1954 e 1968 e foram uma forma de resistência da comunidade negra que exigia o fim da segregação racial imposta por supremacistas brancos. O objetivo era questionar e boicotar decisões claramente racistas, como as proibições sociais quotidianas impostas aos negros e os direitos cedidos apenas às pessoas brancas o que, na visão dos estrategas do movimento, provocaria uma crise e consequentemente um diálogo com as autoridades.

De ambos os sexos, ativistas famosos e anónimos faziam uso de variados instrumentos culturais para reunir as pessoas e discutir a importância do orgulho negro. O discurso estava presente no teatro com o espetáculo “To Be Young Gifted and Black” – peça de Lorraine Hansberry que falava de racismo, igualdade social e de género; em reuniões nas igrejas gospel da comunidade; na literatura e retórica dos envolventes discursos de Martin Luther King, Malcolm X e Rosa Parks e na música, principalmente na obra de Nina Simone.

Nina Simone estava determinada em usar a música em prol dos negros. (Foto – John Rudoff / Facebook Oficial)

Nascida em 1933, na Carolina do Norte, estado do sudoeste do país e fronteira com alguns dos pontos nevrálgicos dos conflitos raciais, Eunice Waymon, nome de nascimento da artista, sofreu desde pequena os males do racismo. Contudo, desde os primeiros contactos com as teclas de um piano, colocou na cabeça que seria a primeira pianista clássica negra dos Estados Unidos e foi à procura do sonho. O tempo passou e já respondendo pelo nome de Nina Simone, a jovem conquistou o público com um estilo que unia jazz, blues, música clássica e gospel. Em função de canções como ‘I Loves You Porgy’, Nina, mulher e negra, era disputada por importantes casas de espectáculos conhecidas pela predominância branca, como o Town Hall em Nova Iorque.

O sucesso da cantora crescia em compasso com os conflitos raciais. Muitos foram os rastilhos para a fúria dos negros, sendo o massacre de 1963 um dos mais marcantes, quando quatro crianças negras foram mortas num atentado racista numa igreja batista na cidade de Birmingham, no Alabama, logo após o assassinato do ativista Medgar Ever no Mississippi. Os factos despertaram um sentimento novo em Simone, que percebeu o significado de ser negra nos Estados Unidos. Um momento crucial para a carreia da cantora, que resolveu transformar a sua arte em política, tornando-se num símbolo de expressão dos direitos civis e da luta do movimento negro.

Ao perceber o que era ser negra nos EUA, Simone decidiu se tornar uma ativista dos direitos civis. (Foto – Jack Robinson / Facebook Oficial)

O primeiro e duro recado da artista para as injustiças do país veio com ‘Mississippi Goddam’ (Mississippi puta que o pariu na tradução livre), que expressa toda a sua raiva e indignação acerca da situação dos homens e mulheres negros dos EUA. A faixa era um hino político e as suas letras cheias de raiva e desespero contrastavam com o conhecido repertório da artista e deixavam claro o objetivo de Simone de usar a sua música como mais um instrumento a favor dos direitos civis.

Nina Simone - Mississippi Goddam

Determinada, Simone continuou mergulhada num momento considerado decisivo para a comunidade negra e continuou a dedicar toda a sua produção musical ao assunto. Em 1968, o movimento dos direitos civis sofreu outro duro golpe, a morte de um dos seus principais líderes, Martin Luther King, morto aos tiros em 4 de abril de 1968. O facto mexeu muito com Sinome que mais uma vez recorreu ao talento musical para expressar os seus sentimentos e escreveu a canção ‘Why? The King of Love is Dead’ (‘Porquê? O Rei do amor está morto’ na tradução livre), cantada por ela três dias depois numa performance emocionante no enterro de Doctor King.

Nina Simone - To Be Young, Gifted and Black

No ano seguinte Simone, grande amiga da escritora Lorraine Hansberry, gravou um dos hinos dos direitos civis, ‘To Young Gifted and Black’, homenagem ao trabalho da amiga, conhecida por usar a arte como ativismo em prol dos negros e também por despertar a consciência política de Nina. No entanto, a guinada política de Nina não trouxe apenas benefícios para a cantora, que passou a ser negligenciada e evitada pelas casas de músicas, gravadoras e parte do público, que evitavam envolver-se diretamente com a causa. Esgotada com a violência dos conflitos e com a rejeição imposta por uma cultura ainda racista, Nina Simone resolveu afastar-se dos holofotes e deixou os Estados Unidos em 1970. Morou em Barbados, e em seguida passou um longo período na Libéria, depois Suíça, Holanda e França, onde acabou por fixar residência.

Nina Simone Why The King of Love Is Dead (live)

O movimento dos direitos civis deixou feridas profundas na sociedade norte-americana ao mesmo tempo que inspirou e inspira jovens dispostos até hoje a mudar a realidade de homens e mulheres negros. Tal como antes, as artes e especialmente a música tem vindo a exercer um papel fundamental nas mudanças. Nomes como Erykah Badu, Lauryn Hill e muitos outros beberam na fonte e seguiram os corajosos passos de Nina Simone na procura por uma sociedade que precisa de aprender de uma vez por todas a conviver com as diferenças. Nina Simone faleceu em 2003 deixando um legado ímpar para o mundo da arte e emblemático para a luta pelos direitos civis e igualdade racial.

Artigo publicado em http://www.afreaka.com.br/notas/nina-simone-e-musica-como-expressao-dos-direitos-civis/ e reproduzido pelo Outras Palavras

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