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O dever de desobediência

Obedecemos para abdicar da nossa vida, ou desobedecemos para a reclamar de volta?

Dizem ser a moralidade e a consciência a tornar distinto o ser humano; é a capacidade de se exceder para além das suas necessidades básicas o epíteto da humanidade.

O evoluir dos tempos passou no entanto a cultivar a segurança, o conforto e a pacata aceitação; a distinção da humanidade passou sim a medir-se pela sua obediência aos valores morais, mutáveis consoante as eras, interesses e vontades. Ainda assim continuaram os despreocupados de si próprios a ser os obreiros das mais significativas mudanças da sociedade, não fora a desobediência estaria ainda por vencer a tirania, a distribuição injusta, a escravatura e a iliteracia e ignorância impostas.

Os obreiros de uma sociedade justa são os criminosos da sua era, disposto a trocar o conforto do papel expectante pelo risco da dianteira, movidos pela combustão exuberante de valores e causas maiores. Ridicularizados, beliscados na sua mais ínfima dignidade, desprovidos do mais minúsculo conforto ou segurança, são os desobedientes que marcam novos limites nas futuras regras de um mundo demasiado prisioneiro de si mesmo.

A moralidade tornou-se ferramenta de controlo para alguns, que granjeiam uma imaculada moralidade interesseira. A moralidade que os próprios escrevem escraviza todos os outros. Portugal vive agrilhoado no dogma salazarista do bom e humilde pagador. Abdicamos de direitos, de vidas dignas, tudo em nome de uma dívida que poucos ousam questionar. Esses, a escumalha irresponsável cometem a loucura infame de por entre a neblina de uma dívida que cresce a cada pagamento, procurarem vislumbrar o que concretamente estão a pagar.

Desmantela-se um país, vendendo todos os seus ativos ao desbarato, para granjear amealhar tostões em vez de investir e produzir milhões. A cegueira da obediência levou a que se vendesse uma companhia aérea por metade do preço de um avião, levou a resgatar bancos que custam mais que todo um dito insustentável sistema de saúde, levou a alugar transportes públicos para que se massacrem direitos laborais e postos de trabalho.

Desobedeceram os corajosos gregos, ameaçados pela aristocracia da imaculada moralidade, legisladora de regras para os outros, já que a si regra alguma se aplica. Onde a ofensiva das armas falhou, delineia-se a ofensiva do dinheiro, saqueando uma nação soberana, exigindo que abdique da soberania em troca de pouco mais do que migalhas. Critica o mundo, demasiado ocupado em obedecer, em ser o orgulhoso pagador.

Esquece que paga o contribuinte responsável pela sua própria pobreza, paga a impunidade dos ditadores das regras morais, paga os negócios irresponsáveis, paga a sua própria precariedade, paga o seu próprio enterro de sonhos e perspetivas; paga um caminho de vida que o leva a ser um número fiscal em troca da sua humanidade

Vinculados a um dos mais rigorosos códigos de dever deontológico os enfermeiros são o perfeito exemplo deste penoso desejo de obediência. Devem os enfermeiros obedecer à obrigação deontológica de cuidar, ou deverão questionar se o que lhes é imposta se denomina mesmo cuidar? Anos de exploração deste dever de cuidar levou a que os enfermeiros abdicassem de si próprios em maratonas de trabalho heroicas e vencendo o impossível; reduziram-se os rácios chantageando os que ficam com o bem-estar dos utentes, exigindo-lhes o que o sistema desistiu de fazer: cuidar com dignidade.

Devem os enfermeiros obedecer a um código de obrigações que os aprisiona e limita todos os direitos de reivindicação? A culpabilização dos profissionais levou a que os protestos sejam invisíveis, as greves pouco relevantes, enquanto perante a passividade das estruturas dirigentes e representantes as condições laborais se degradam, os vencimentos se ridicularizam e a precariedade ganha contornos de infeção fulminante.

Devem os enfermeiros aceitar quaisquer condições laborais pela oportunidade de cuidar? Instigados moralmente a não fazer algo diferente, a acutilância na maior oferta formativa e a insistência em que qualquer remuneração serve, mesmo dadas as pesadas responsabilidades, tem sido a maior arma na nivelação dos ordenados a níveis que ridicularizam aquilo que é a responsabilidade de ter nas mãos a vida de alguém.

A desobediência essa fica para os que “não precisam” dirá a maioria, esquecendo o preço que os desobedientes pagam. A emigração tem sido a moeda de paga para muitos, invisível para os que aceitam ganhar metade, escudados na necessidade do bom comportamento e da experiência profissional a que custo for, esquecendo que não são novas portas que se abrem, mas antes encurralarem-se numa sala sem saída até que alguém apareça para ganhar ainda menos.

Não restará país para os obedientes. Restarão cinzas se os criminosos de sempre não mudarem o curso da história. Não restarão empregos dignos, educação gratuita, qualidade de vida, pois o dever moral de pagar ditará mais exigências e obrigações perante aqueles que cada vez mais responde apenas a si próprios.

Haja Grécia no coração de cada um, esquecer que não é qualquer emprego que serve, que não é qualquer sala de espera decrépita num hospital que serve, que não é comer uma vez por dia que serve, que não é viver para pagar impostos que serve. A escolha é simples: Obedecemos para abdicar da nossa vida, ou desobedecemos para a reclamar de volta?

Sobre o/a autor(a)

Enfermeiro. Cabeça de lista do Bloco de Esquerda pelo círculo Europa nas eleições legislativas de 2019
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