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Guião para ler as horas até domingo

Apresento-vos o que me parece ser o guião adequado para ler as informações que receberemos de hoje até domingo sobre a decisão do Eurogrupo e depois do Conselho Europeu sobre um acordo com o governo grego, ou sobre a imposição da saída da Grécia do euro.

Entregues as propostas gregas ontem à noite, mas não se sabendo se existe uma segunda proposta efetiva sobre a dívida, escolho não comentar para já estas informações parciais ou as suas interpretações.

Em contrapartida, apresento-vos o que me parece ser o guião adequado para ler as informações que receberemos de hoje até domingo sobre a decisão do Eurogrupo e depois do Conselho Europeu sobre um acordo com o governo grego, ou sobre a imposição da saída da Grécia do euro.

Primeira regra: se há um novo resgate, é um recuo da Grécia. O governo tinha sido categórico desde o início, não aceitando o formato jurídico de um novo resgate, com o que ele implica de intromissão, de protetorado e de submissão. A sua alternativa era uma reestruturação da dívida. Tinha coerência: um abatimento do valor atual da dívida, obtido de uma forma ou de outra, permitiria reduzir o saldo da balança de rendimentos, usando muito menos recursos para pagar a prestação anual da dívida. A diferença seria o investimento viável e portanto a solução para a recessão. Mas Tsipras não conseguiu esse acordo de reestruturação, ele nem foi considerado pelas autoridades europeias, e portanto perderam-se cinco meses.

Segunda regra: se são propostas novas medidas de austeridade, a recessão vai agravar-se e a desconfiança também. O referendo convocou os gregos para rejeitarem o ultimato europeu e as suas propostas. Retomar o essencial dessas propostas seria sempre uma derrota política para a Grécia.

Terceira regra: qualquer política fiscal ou orçamental tem que responder à divisão social da Grécia. Os pobres votaram Não porque nada têm a esperar das políticas europeias de austeridade (veja o mapa, que apresenta do lado esquerdo a diferença para o Não e do lado direito a distribuição dos rendimentos médios no território: os mais ricos votaram Sim, os mais pobres Não). É para os desempregados que têm que ser as medidas prioritárias. Se assim não for, a Grécia perde.

Quarta regra neste guião: se, apesar de novas medidas de austeridade, é aplicada alguma forma concreta de reestruturação da dívida, o balanço entre os ganhos e as perdas decidirá o resultado político final desse acordo. Nesse caso, a Grécia ganharia no que deixaria de pagar em dívida (através de um período de carência, de extensão dos pagamentos com juros adequados ao seu crescimento do PIB, ou simplesmente por redução do stock da dívida com os credores institucionais) e perderia do outro lado, no efeito recessivo da austeridade agravada. Se essa austeridade afetar as contas em 12 mil milhões, o que seria um impacto fortíssimo mesmo que ao longo dos três anos, seria sempre preciso um efeito equivalente ou superior em redução do saldo da balança de rendimentos para compensar a Grécia por via da redução da dívida. Isso não seria então uma derrota e poderia mesmo transformar-se numa recuperação da Grécia.

Quinta regra: se houver um plano sobre a dívida, mas ele se limitar a prometer conversações futuras ou estudos a realizar, então a Grécia perde. O FMI e mesmo as autoridades europeias admitiram ontem que essa reestruturação seria necessária, mas nem adiantaram objectivos e instrumentos, nem afastaram a proibição legal (Schauble veio declarar, com cinismo, que esse abatimento da dívida seria necessário mas ilegal face aos tratados europeus).

Sexta regra: se a compensação de medidas de austeridade for uma “ajuda humanitária”, então a Grécia perde. Nenhuma “ajuda humanitária” resolve 30% de desemprego provocado pelo desastre da austeridade.

Sétiama regra para o guião: se o financiamento acordado for de 10 ou 15 mil milhões, então será simplesmente uma forma de dar com uma mão e tirar com outra.

Oitava regra: se os bancos não recebem liquidez imediata, então a escolha foi impor à Grécia a saída do euro. O Bundesbank continua a procurar levar o BCE a impor a falência dos bancos gregos – se assim acontecer, nenhum acordo tem qualquer significado ou qualquer viabilidade. A Grécia estará fora do euro na segunda feira.

Artigo publicado em blogues.publico.pt

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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