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Joseph Stiglitz : “Europa deve recuar perante abismo da austeridade grego”

O economista norte-americano questiona-se sobre se “os líderes financeiros irão encontrar coragem para admitir que estavam errados”. “Se os parceiros da Grécia na zona euro continuarem na mesma direcção”, “mesmo que o euro sobreviva por enquanto, é o princípio do fim”, alerta Stiglitz.

Num artigo publicado no USA Today, Joseph Stiglitz refere que a “profunda recessão” em que se encontra mergulhada a Grécia não acontece por o país “não ter feito o que era suposto; foi porque o fez”.

“No tão importante plano macroeconómico, a Grécia teve a maior e mais rápida consolidação fiscal entre as economias europeias avançadas no rescaldo da crise financeira global, cortando de forma impiedosa as despesas e captando novas receitas”, avança.

Lembrando que os gregos, ainda assim, “não fizeram todas as reformas estruturais que lhes foram exigidas”, o economista frisa que, se tal tivesse acontecido, “a situação hoje seria pouco ou nada diferente em termos de PIB”.

“De facto, mais pessoas estariam desempregadas, e existiria bastante mais sofrimento. Não são estes ‘entraves estruturais’ que estão a reter a Grécia. Afinal, sem nenhuma destas reformas, a Grécia cresceu a uma taxa mais rápida do que a União Europeia a partir de meados da década de 1990 até à crise global (4.0% vs. 2.6%)”, adianta.

Segundo Stiglitz, “a bola está agora no campo dos líderes europeus”.

“A questão é, manterão uma política que já provou ser um desastre? Ou combinarão o desejo de preservar o euro com boas políticas económicas e um respeito pela democracia? Poderão reformar o pacote de reformas adequadamente?”, questiona.

“Este é o momento de nos erguermos contra uma austeridade impensável”, advoga o economista norte-americano, recordando que “há quatro anos atrás, à medida que os primeiros sinais do fracasso desta política surgiram, os líderes europeus reconheceram que o que era preciso era uma estratégia de crescimento”.

“Foi o que prometeram à Grécia. Não cumpriram. Implementaram mais do mesmo”, salienta.

Sobre a reestruturação parcial da dívida grega, Stiglitz afirma que “foi muito pouca e o processo não foi bem conduzido”. “Quando a crise começou, a dívida grega era de cerca de 117% do seu PIB. Hoje, depois da reestruturação, depois de um programa alegadamente desenhado para aumentar a sustentabilidade da dívida, a mesma atinge os 177%”, destaca.

“Embora as condições que a Europa impôs à Grécia tenham causado impressão, a Grécia viu pouco deste dinheiro – cerca de 90% foi para os credores, incluindo os bancos franceses e alemães”, avança o economista, declarando que “é típico: a maior parte dos resgates (como, por exemplo, o do México) não são resgates do país mas sim dos bancos ocidentais que não garantiram a vigilância adequada”.

Lembrando que, “neste momento, até o FMI está a reclamar uma reestruturação da dívida mais profunda”, Stiglitz refere que “há várias formas de fazê-lo: alongar o prazo de pagamento dos empréstimos, diminuir as taxas de juro, ou até mesmo anular parte da dívida ou converter parte da dívida em obrigações indexadas ao PIB, que pagariam mais se a Grécia recuperasse”.

Segundo o economista, “um acordo que pudesse garantir a manutenção da Grécia na zona euro é claramente possível: uma restruturação da dívida profunda (simplesmente reconhecendo que o dinheiro que não pode ser reembolsado não será pago), metas orçamentais mais razoáveis, tais como um “excedente primário” de 1% – e não de 3,5% como exigiu a Europa antes do referendo de domingo – e reformas estruturais razoáveis focadas nas questões centrais que a economia enfrenta actualmente são a chave”.

“Eu não conheço nenhum país que tenha conseguido manter o tipo de excedente que a Europa exige. É uma receita certa para uma depressão continuada e um ainda maior caos económico, social e político”, vinca.

No seu artigo, Stiglitz defende ainda que o Banco Central Europeu deve garantir liquidez imediatamente, sendo que “não fornecer os euros de que os bancos necessitam para pagar aos depositantes corresponderia a empurrar a Grécia para fora da zona euro”.

“Se os parceiros da Grécia na zona euro continuarem na mesma direcção em que estavam antes da crise, temo que o jogo tenha acabado”, lamenta, alertando que tal “será mau para a Grécia, mau para a Europa, mau para a economia mundial, incluindo os Estados Unidos”.

“Mesmo que o euro sobreviva por enquanto, é o princípio do fim. Na próxima crise – e existirão mais crises – outro país será forçado a sair. Não era suposto a zona euro ser um casamento de conveniência, mas uma nova realidade económica e política. Com a saída da Grécia, a zona euro começará a fracassar. Mesmo aqueles que consideravam que o euro era um erro não querem assistir a este fim trágico”, remata.

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