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O Silêncio e a Cultura, em Portugal (ou Budos e mico calado)

O fenómeno das pessoas muito sérias na cultura só é compreensível sobre um mar de consensualismo que reduz todo o acto artístico e política cultural ao nível da propaganda.

O gesto de censura (e sim, foi censura) que o Presidente da Fundação Gulbenkian fez pela sua própria mão ao proibir a venda de um livro de denúncia ao colonialismo — um gesto ideologicamente racista — é exactamente o mesmo que recebe e protege a Fundação Sindika Dokolo como pretenso acto de igualdade pós-colonial. Segundo o próprio Sindika em entrevista ao Jornal de Negócios, “Portugal conseguiu inverter o período negativo do fim da colonização”. Parece que o pós-colonialismo se resolve oferecendo uma montra para uma colecção de arte. A ninguém incomodou ou sobressaltou o facto de Sindika Dokolo ser peça fundamental no negócio de diamantes do regime angolano. Ninguém estranhou que a maior colecção de arte africana se tenha deslocado para uma cidade fora dos circuitos artísticos internacionais, ou sequer se não haverá algum conflicto ético em promover o regime que persegue Rafael Marques. Ninguém pergunta nada, porque é Cultura. E na Cultura não há política, apenas respeitinho.

A escolha da colecção de Sindika para a Bienal de Veneza de 2007 suscitou as maiores dúvidas e críticas acesas. Como o La Conscience descreve em 2006, a fortuna que Sindika herdou do pai, Augustin Dokolo Sanu, é criada em 1969 sob o regime de Mobutu através do Banque de Kinshasa SARL, um veículo de financiamento de negócios da família — o Grupo Dokolo — através da alavancagem junto do Banco Central do Congo e desvio dos depósitos do banco. Lá como cá, o espírito santo está sempre presente. O Banco, inevitavelmente, faliu. O estado, que ficou com a dívida, criou um Novo Banco de Kinshasa (sim, lá como cá) em 1986. O estilo de gestão fraudulento de dinheiro e interesses permanece, agora, no império de Isabel dos Santos. Num comunicado de 2009, a GlobalWitness denuncia um conflito de interesses na nomeação de Dokolo para administrador da Amorim Energia (accionista da Galp) que, através de subsidiárias, está presente na Sonangol como representante oficioso da família dos Santos.

O paradoxo do gesto explica-se através do silêncio de compromissos e favores entre pessoas muito sérias que se tornou o mundo institucional da arte em Portugal. Não se trata de conspirações secretas. A partir do momento em que a Fundação de Serralves, a Fundação Casa da Música e a Fundação Gulbenkian se tornam plataformas giratórias de pessoas muito sérias vindas do BPI, as parcerias estratégicas — os favores — tornam-se a moeda de troca para a sua própria valorização (Sindika anunciou já que quer ser fundador de Serralves e Casa da Música, fundações públicas com dinheiro público). As pessoas muito sérias aceitam Sindika porque Sindika é um dos seus. Vem da finança e é marido da maior accionista do BPI. Tem uma colecção de arte que quer valorizar e, para isso, tem de a retirar de Luanda.

O paradoxo do gesto vai buscar a sua força ao Silêncio. E o silêncio alimenta-se através de formas específicas de propaganda: a comemoração e a cumplicidade. É notável que as dezenas de peças publicadas em diários e semanários sobre a Fundação Sindika Dokolo não se dediquem nunca à colecção em si ou o que a envolve e a sua história. Pelo contrário, anunciam o acto, aplaudem as personagens, comemoram o triunfo. Ficamos a saber que Sindika tem uma colecção porque gosta de arte que é estética, e que isso significa ser elegante. Que o vereador da cultura da Câmara Municipal do Porto se declara o único vereador da cultura do país (uma assinalável e pouco elegante desconsideração para a vereadora da cultura de Lisboa e outros vereadores que sabem a diferença entre propaganda e políticas públicas de cultura). E que criticar a iniciativa é um acto ou racista — de quem não gosta de angolanos (declarações do curador da Fundação na Visão, 4 de junho) — ou invejoso — de quem é de Lisboa (como sugere Jorge Afonso Morgado no jornal i, 5 de maio). Nada disto faz sentido mas nada disto é refutado. Pelo contrário, surge gratuitamente e é repetido sem qualquer contraditório ao longo de meses em notícias sucessivas. Segundo o vereador Paulo Cunha e Silva, a exposição You Love Me, You Love Me Not expresssa também a relação paradoxal que nós, portugueses, temos com o continente africano, e com Angola em particular”. Neste contexto, estas palavras cumprem a função de lavar a reputação de alguém que é alvo de fundadas suspeitas. São um favor político que obrigaria a demissão imediata numa democracia que se respeita.

Querem Silêncio. Venha a Castafiore.

Budos e mico calado

Quando Castafiore canta, os vidros partem-se. A brigada do politicamente (in)correcto exalta-se com dramáticas defesas pela Liberdade sempre que alguém critica o Poder. José Manuel Fernandes [JMF], com a sua habitual elegância, exige que a parvoíce (a crítica publicada no Público) pague imposto. José Carlos Fernandes [JCF], mais contido e num longo ensaio publicado no Observador [Tintin (sic) no Tribunal Penal Internacional], expõe três argumentos contra a opinião que expus, um deles interessante. Primeiro, o menor, que a censura do livro de Anton Kannemeyer na Gulbenkian se justifica pela sua classificação etária — parece que é impróprio para crianças. Uma ingenuidade que não é atribuível a JCF. É aliás um argumento que obrigaria a retirar boa parte das bandas desenhadas expostas em qualquer livraria. Gosto muito do riso de Castafiore mas isso não impede alguma honestidade.

Mais sério, argumenta depois que não se podem aplicar princípios éticos contemporâneos a obras do passado (Bloom ri). No início do século XX, “poucos seriam os europeus que não estavam convencidos de que assistia aos europeus um direito natural a subjugar as raças inferiores. As crenças racistas não eram perfilhadas apenas por ditadores fascistas, bandos de arruaceiros e capatazes de fazendas em África. Nos países mais avançados e democráticos do mundo, eram teorizadas, com apoio em provas científicas, por antropólogos e biólogos, subscritas por eminentes académicos, cristalizadas, legitimadas e postas em prática pela legislação e genericamente aceites pela opinião pública.” Ou seja, Tintin au Congo, reflectindo o status quo, é inocente. Nisto, como noutras coisas, o argumento revela-se oco na sua reversão: o esforço da crítica não vai ao passado para criticar o passado mas sim, como é óbvio, para criticar o presente. Numa altura em que a Europa assume publicamente uma política de guerra armada contra qualquer pessoa que entre numa jangada no Norte de África, JCF acredita sinceramente que o racismo latente do início do séc. XX se desvaneceu? Os campos de concentração para imigrantes construídos desde 1995 na Grécia, Itália, França e Espanha são o quê, exactamente? Campos de inserção social? Apesar da denúncia da banalização do mal, o regime jurídico que permitiu o campo continua bem presente no estado de excepção que Giorgio Agamben desvela e que, em boa medida, cada vez mais nos encerra.

A consciência crítica anticolonial era já uma presença intelectual séria em 1931 e nada obrigava um jovem em ascensão a assumir um discurso racista. O terceiro argumento, mais interessante, peca por chegar atrasado. “Se, de todos os livros de Hergé, [Tintin no (sic) Congo] é o mais fraco e desinteressante é-o não por causa do seu conteúdo paternalista e pró-colonialista, como pretende Tiago Ivo Cruz, mas porque é uma obra incipiente de um autor que ainda não domina o seu mister.” Ou seja, o problema não é político, apenas artístico e, crucialmente, os dois vivem separados. Mas como nos ensinam os irmãos Dupondt, separar a forma do conteúdo pode ser um exercício de crítica brilhante na pena de Stanley Fish, Eliot ou Wilde. But, alas, you are no Fish. De tão estafada, a separação tornou-se dogma corriqueiro na crítica literária e, entre o conteúdo que define a forma e a forma que define o conteúdo, a discussão é sempre estéril. Uns dizem Dupond, outros Dupont, sempre cheios e vazios de razão.

É por isso que enxertar meia dúzia de parágrafos sobre ópera sem lhes retirar consequências políticas é mera boutade. Por muito que me apaixone e ouça Rossini, o libreto de La Cenerentola é uma pastoral medíocre que seria estraçalhada por Empson ao pequeno-almoço (porque o estilo literário tem consequências políticas). E, sobre Wagner, é importante lembrar que não é censurado pela esquerda, mas sim por Israel.

Hergé era conservador e isso não me impede hoje de ler nenhum dos seus livros e de ter prazer nisso; só não entendo por que razão tenho de suspender a minha consciência crítica ao fazê-lo. E esta é a falácia do dicionário politicamente (in)correcto: a sua defesa da Liberdade considera que os gurus culturais os proíbem de ler o que quiserem e, sobretudo, os proíbem de retirar prazer desses pequenos pecados reaccionários. Já era altura de enterrar esta infantilidade protestante. Estou-me nas tintas para os prazeres dos irmãos Dupondt, mas incomoda-me quando se arrogam definir o que posso ou não encontrar numa livraria. Não são os gurus culturais quem acha normal censurar livros. São as pessoas muito sérias.

O problema não é a discussão etérea sobre o racismo latente de Tintin au Congo, muito menos se ele deve ou não ser lido, mas sim aquilo que parece não causar o menor incómodo a JCF. Tintin au Congo deve ser lido e vendido (também na sua versão original) tal como o livro censurado de Anton Kannemeyer, precisamente porque o passado colonial não pode ser apagado. E o problema é este. O que se passou na Gulbenkian foi uma escolha ideológica que censura um e não o outro, uma escolha que JCF se prestou a ilibar, mas que não assume.

É aliás extraordinário que um jornal que se exalta com a pretensa censura de Saramago, como se ele tivesse assaltado as bibliotecas (como bem satiriza António Guerreiro), não se incomode nem por um segundo com um acto de censura verdadeiro. Tal como, por toda a sua imagem de irreverência, nem um único artigo crítico publicou sobre a Fundação Sindika Dokolo, pelo contrário, comemora sem reservas. Para o Observador, a Liberdade é do Poder e só deles. JMF e JCF criticam como os irmãos Dupondt: “Budos e mico calado”.

PS: peço as mais sinceras desculpas aos irmãos Dupondt.

Artigo publicado em observador.pt a 8 de julho de 2015

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