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Grécia: O triste papel da social-democracia

Na campanha de culpabilização da Grécia e do seu Governo não têm estado só os governantes conservadores e os meios de comunicação social, têm contado com a inestimável ajuda da social-democracia, tanto a governante como a que está na oposição. Por Núria Parlón, Beatriz Talegón e Enrique del Olmo.

“Nos momentos de crise descobre-se o verdadeiro eixo do poder”, dizia um dos fundadores do socialismo, Friedrich Engels; pois bem, neste longo processo de crise na Europa e no seu mais recente epifenómeno – a Grécia -, desvendou-se, se ainda restasse alguma dúvida, não só o verdadeiro eixo do poder – os mercados financeiros -, mas também todos aqueles que lhes fazem continência uma vez atrás da outra.

Rios de tinta correm sobre a Grécia. Os apóstolos do pensamento único do mercado livre dirigem-se aos fiéis através dos púlpitos que a imprensa “livre” lhes preparou. Os quadros, tão na moda no prime-time político atual, incendeiam-se. Neles, os experientes economistas cospem um dado atrás do outro, incansáveis no seu trabalho de evangelização, com o nobre fim de que no cidadão médio fique marcado a ferros a ortodoxia do mercado livre. Uma ortodoxia que assinala a Grécia como principal culpada pela crise da dívida helénica, e os seus responsáveis governamentais como radicais irrefletidos que utilizam a demagogia e o populismo para conduzir o povo grego ao abismo e à escassez.

E nesta campanha para culpabilizar a Grécia e o seu Governo não têm estado só os governantes conservadores e os meios de comunicação social, têm contado com a inestimável ajuda da social-democracia, tanto a governante como a que está na oposição.

Desde o próprio dia em que Tsipras chegou ao Governo, a social-democracia não lhe concedeu espaço para respirar. Pode-se estar de acordo, ou não, com a forma de encarar as negociações, com esta ou aquela proposta. Esse não é o problema, o que é extremamente grave é que perante o tremendo sofrimento a que é submetido o povo grego, os “progressistas” europeus não se situaram inequivocamente ao lado daqueles que enfrentam a política da troika; esse é o problema de fundo perante não só qualquer progressista mas também qualquer pessoa com sensibilidade social se tem que definir. 

Não escapa a ninguém que o problema grego não é um problema de contabilidade, nem um problema estritamente económico, é um problema de caráter político. É um problema de se castigar quem não apoia a política de austeridade, que têm sido sistematicamente denunciada por todo o tipo de especialistas e relatórios, incluindo a administração Obama e a Reserva Federal. Transcende o caso grego apesar de ele ser representativo. Neste braço de ferro e nesta luta, a social-democracia europeia tem estado de forma clara ao lado de Merkel. As reivindicações por uma outra Europa, que passeiam pelas campanhas eleitorais, não surgem no debate e na luta atual; não obstante, podemos recordar como milhares de socialistas aplaudiram, entusiasmados, Schulz na campanha das europeias em maio de 2014 quando denunciava a austeridade e a fome no Sul e falava do projeto europeu dos S&D.

Papéis, textos, discursos, conferências convertem-se em palavras que, do nosso ponto de vista, não deveriam ser levadas pelo vento quando há um conflito real com os poderes estabelecidos. É triste que quando isto se sucede, surja apenas a subordinação, a justificação ou seja considerado irrelevante. A Grécia é um exemplo, mas o TTIP é outro onde os S&D europeus dão aval ao obscurantismo e ao seu conteúdo, limitando-se a defender os aspetos mais polémicos para os cidadãos.

Um exemplo claro foi a oposição de todos os partidos socialistas ao referendo, a delegação espanhola no Parlamento Europeu afirmava num comunicado claramente alinhado com as teses alemãs: “a convocatória de um referendo para o próximo domingo na Grécia colocou as negociações à beira do precipício. É um recurso legítimo do governo grego, mas enormemente arriscado para a Grécia porque poderá acabar por dividir perigosamente o seu povo e quiçá deixá-lo fora da União”. Se isto não é uma chantagem que venha Zeus e o veja. Neste texto está o compêndio da deriva social-democrata; convocar o povo é o que rompe as negociações, uma consulta divide e abre a porta de saída da Grécia da União. A agressividade contra o referendo e o governo grego de destacados dirigentes socialistas chama de forma poderosa à atenção nuns tempos em que uma e outra vez nos repetiram que perante o poder dos mercados se tinha que recuperar o poder da política, que é o único instrumento dos fracos e que são as novas maiorias políticas as que podem dar a volta política à UE. Efetivamente, muitíssimos socialistas, como nós, pensam que se Zapatero tivesse convocado o povo, em referendo ou eleições naquele maio de 2010, quando começaram os cortes e a rutura com a política redistributiva, possivelmente não teríamos tido quatro anos negros de maiorias absolutas do PP e muito possivelmente o PSOE não teria perdido a potes o apoio popular.

Depois do resultado do referendo no qual importantes dirigentes social-democratas assumiram um inequívoco compromisso contra Tsipras e o Não, como foi o caso do louvado Schulz: “se os gregos votarem não terão que introduzir outra moeda na sua economia, porque não terão mais à sua disposição como meio de pagamento”. Ou o outrora esquerdista Sigmar Gabriel e agora camareiro da senhora Merkel: “Tsipras cortou todas as pontes com a Europa”.

Nem os partidos socialistas no Governo, como Hollande ou Renzi; ou na oposição, tal como os outros, deram um murro político na mesa para mudar o curso dos acontecimentos, continuaram nas mãos de tecnocratas que exigem contrapartidas como reduções das pensões, dos salários e redução do enfraquecido Estado grego.

Os resultados da política da troika, de Bruxelas e do Bundesbank, são demolidores. Não se trata de fazer uma alargada enumeração, mas de assinalar algumas questões para se ver a dimensão da crise. O PIB grego caiu cerca de 25%, uma contração semelhante à dos países que sofreram com a guerra. A contração espanhola só chegou aos 3,7%. A dívida pública, que está sempre entre os grandes objetivos das medidas de austeridade, não diminuiu, tendo passado dos 126% em 2009 para 180% nos dias de hoje. O desemprego cresceu 17 pontos, as pensões sofreram reduções até 48%, 256.000 funcionários públicos a menos e poderíamos continuar. 

Mas a questão seguinte que se coloca é para onde foi o dinheiro do resgate. Dizia taxativamente um dos diretores executivos do FMI, Paulo Nogueira: “O resgate grego serviu para salvar os bancos franceses e alemães”. Efetivamente, mais de 85% dos 230.000 milhões emprestados foram para os bancos, para os quais parecem trabalhar os representantes políticos, inclusive os dirigentes social-democratas. O relatório do FMI de passada quinta-feira e o relatório do Comité da Verdade sobre a Dívida incidem sobre o mesmo, a saber; na impossibilidade da existência de uma saída sem uma alteração na política da UE. Como assinala muito acertadamente o analista financeiro Juan Ignacio Crespo: “É verdade que a Grécia não conseguirá pagar a sua dívida. Nem a Grécia, nem nenhum outro país que o tivesse de fazer. Nem sequer os EUA”. E isso é também uma constante da história da economia mundial, o default é um elemento regulador da sobrevalorização do sistema.

Que as receitas não funcionam, é óbvio para qualquer um, mesmo que não seja um especialista em economia. Que é necessário mudar o padrão de crescimento, seja baseando-se em fatores puramente económicos, ou em fatores do tipo social, também é mais do que evidente. Que a obsessão pelo mesmo tipo de medidas da mal-afamada austeridade denota um claro fanatismo interessado é visível para qualquer pessoa com bom senso. A pergunta que está por fazer é óbvia. Por que é que ninguém levanta a sua voz contra este abuso? Toda a Europa enlouqueceu? Onde está a social-democracia europeia? Para quando uma política sistemática e intensa para converter o BCE no Tesouro Único europeu? Para quando a alteração do papel de credor dos bancos privados para os bancos centrais, para que se acabe com os benefícios obtidos com o diferencial entre a compra e a venda de dinheiro? Para quando políticas realmente ativas para a geração de emprego e a recusa da competitividade via baixa salarial? Para quando a prioridade à emergência social e não à emergência bancária? Desgraçadamente, a social-democracia na Europa navega no mesmo barco que Merkel capitaneia, as suas propostas não passam de declarações fúteis e quando chega a hora da verdade não se aplicam. Neste barco muitos socialistas não querem navegar.

Terminamos com uma referência moral, intelectual e ética com a qual se pode construir Europa, um alemão cuja condição nacional não condiciona a sua visão universal, Jürgen Habermas: “a União Monetária continuará a ser instável até que seja completada com uma união bancária, uma união fiscal e uma união económica. Isto significa, se não quisermos reduzir a democracia a um adorno, converter a união monetária em união política”.

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Núria Parlón, vice-secretária do Partido Socialista Catalão e Presidente da Câmara de Santa Coloma de Gramenet (Barcelona), Beatriz Talegón, ex-líder da Juventude Socialista e Enrique del Olmo, militante do PSOE.

Artigo publicado em Publico.es: http://blogs.publico.es/dominiopublico/13937/grecia-el-triste-papel-de-l...

Tradução de Fabian Figueiredo para esquerda.net

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