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Grécia, Junho 2015: Solidariedade e organização, a nossa força!

Neste momento em Atenas, encontro um intensa vida cultural, coragem, alegria, determinação e muita dignidade. Estando as negociações no ponto em que estão, e sabendo o próprio Syriza que já não pode recuar mais, a interrupção das negociações e a saída do euro são cenários que se colocam.

Neste momento em Atenas, participando num encontro internacional em torno do direito à habitação, que pretendeu igualmente aprofundar conhecimento e solidariedades com o movimento grego, esperava uma sociedade tensa e um cenário desolador. O elevadíssimo desemprego e a pobreza provocada pelos múltiplos choques de austeridade justificariam isso, assim como os sucessivos encontros falhados da troika com o governo de Tsipras. Mas não, nos meios em que me movo, encontro um intensa vida cultural, coragem, alegria, determinação e muita dignidade.

Um movimento para tudo

Uma parte importante da esquerda grega compreendeu, já há alguns anos, que uma mudança só seria possível se tivesse um povo de pé a lutar e que este só podia estar de pé se estivessem asseguradas algumas questões fundamentais: alimentação, escola para os filhos, acesso à saúde, cultura e uma comunidade politizada. Meteram as mãos à obra e hoje temos em quase todos os bairros de Atenas e em outras cidades gregas, grupos que se organizaram e desenvolveram, de forma solidária, estratégias para assegurar à população empobrecida acesso a estes elementos fundamentais, sendo talvez o mais importante aquele que combate o isolamento social e o medo.

Não há governo de esquerda que se aguente com um povo com mentalidade neoliberal, onde o individualismo, a competição, a atomização social estão profundamente enraizados e naturalizados no inconsciente coletivo. Viver de outro modo é virar o jogo ao contrário, é desenvolver outros valores para estar em sociedade e prepararmo-nos para outras mudanças. E é ganhar coragem, porque nos unimos

Assim, além dos movimentos que se organizaram em torno da defesa de serviços públicos, dos hospitais, da habitação, dos que lutam contra a privatização de equipamentos e do espaço ou dos que desenvolvem lutas laborais em diversos sectores, também ao nível dos bairros há grupos de cariz comunitário - algo a que dão muita importância - que organizam acesso a clínicas sociais ou a uma rede de médicos voluntários, para quem ficou sem acesso à saúde; alimentação de qualidade e a preço acessível, livrando simultaneamente os pequenos produtores dos intermediários; distribuição de material escolar, de roupa e de outros bens de necessidade fundamental; redes de professores que dão apoio aos alunos em dificuldades escolares; atividades culturais auto-organizadas fundamentais para combater o isolamento social de quem se vê sem trabalho e sem dinheiro. Estima-se que atualmente este movimento de solidariedade envolva cerca de 12.000 pessoas na Grécia. É um movimento que não tem uma organização centralizada, ou mesmo muito estruturada, mas partilha dos valores da organização e da solidariedade e está sobretudo enraizado, praticando no concreto valores fundamentais da esquerda. Este caminho está com certeza a dar frutos, e foi muito importante na eleição do próprio Syriza. Tanto que precisamos de aprender sobre isto... e sobretudo valorizá-lo, verdadeiramente...

Quem aqui participa tem consciência que todas as opções que têm pela frente são más: ficar no euro ou sair deste representam desafios gigantes, de dificuldade extrema, mas sabem que agora se conseguem organizar de outra forma e por isso exigem sobretudo a sua dignidade, ficar de pé.

Organização e solidariedade são os conceitos chave. Não há governo de esquerda que se aguente com um povo com mentalidade neoliberal, onde o individualismo, a competição, a atomização social estão profundamente enraizados e naturalizados no inconsciente coletivo. Viver de outro modo é virar o jogo ao contrário, é desenvolver outros valores para estar em sociedade e prepararmo-nos para outras mudanças. E é ganhar coragem, porque nos unimos.

Lutar com o governo Grego é lutar por toda a esquerda na Europa

Esta proposta é igualmente válida no plano europeu. A Europa, com os seus representantes do capital, nunca irá aceitar conviver com um governo de esquerda no seu seio, porque este põe em causa o plano de destruição do estado social e o aumento brutal da exploração. Irá fazer tudo para o mandar abaixo, talvez mesmo expulsá-lo do euro (ninguém sabe na verdade o que vai acontecer nos próximos dias).

Estando as negociações no ponto em que estão, e sabendo o próprio Syriza que já não pode recuar mais, a interrupção das negociações e a saída do euro são cenários que se colocam. Se tal acontecer, virá o isolamento económico grego, provavelmente um boicote. Organizar e desenvolver formas ativas de solidariedade com a Grécia não é só apoiar o povo grego, é lutar pela esquerda na Europa

Organizar e desenvolver formas ativas de solidariedade com a Grécia não é só apoiar o povo grego, é lutar pela esquerda na Europa. Assim, estando as negociações no ponto em que estão, e sabendo o próprio Syriza que já não pode recuar mais, a interrupção das negociações e a saída do euro são cenários que se colocam. Se tal acontecer, virá o isolamento económico grego, provavelmente um boicote. Sendo que a Grécia importa 75% dos seus bens fundamentais (não só alimentação, mas tudo... o seu sistema produtivo foi sendo destruído a par da integração europeia) não podemos ver com leviandade o que implica a saída neste momento. É por isso que a maioria do povo Grego não vê a saída com bons olhos e também neste aspeto o Syriza necessita de respeitar a vontade do seu povo. Mas se tal acontecer, porque os credores para aí empurram, será necessária uma enorme capacidade de organização e solidariedade da esquerda europeia, e não só fazendo concentrações ou marchas, mas pondo as mãos à obra, desenvolvendo, se preciso for, ajuda humanitária, enquanto a Grécia procura reequilibrar uma economia destruída.

Sobre o/a autor(a)

Técnica de desenvolvimento comunitário. Aderente do Bloco de Esquerda.
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