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Grécia: “Um governo que assume a defesa do seu povo consegue melhores resultados”

“Erraram todos aqueles que garantiram, Passos Coelho à cabeça, que não existe outro caminho senão aceitar o que Bruxelas e Berlim ordenam”, avançou Catarina Martins. Segundo a porta-voz bloquista, torna-se “evidente que sempre foi a Grécia, e não a UE, quem se comprometeu e deu os passos efectivos para uma solução que proteja a economia grega mas também o futuro da Europa”.

Durante uma conferência de imprensa que teve lugar esta terça-feira na sede nacional do Bloco de Esquerda, Catarina Martins repudiou as declarações do primeiro-ministro português que, segundo a dirigente bloquista, “correspondem à tentativa de preservar a ideia, derrotada pela reacção à proposta grega, que não há outro caminho senão a obediência e uma austeridade sem fim”.

“Esta reacção envergonha Portugal e prejudica o nosso país”, frisou.

O Esquerda.net reproduz, na íntegra, as declarações da porta-voz do Bloco de Esquerda:

“1. Depois de semanas de chantagem, pressão, recusas e repetidas garantias de que a Europa não aceitaria nada a não ser o actual programa de austeridade, a União Europeia e o FMI parecem ter aceitado uma proposta do Governo Grego.

2. Do que se conhece desta proposta, e friso este ponto, do que se conhece desta proposta há duas notas a destacar.

A primeira é que se torna evidente que sempre foi a Grécia, e não a União Europeia, quem se comprometeu e deu os passos efectivos para uma solução que proteja a economia grega mas também o futuro da Europa.

A segunda nota é que erraram todos aqueles que garantiram, Passos Coelho à cabeça, que não existe outro caminho senão aceitar o que Bruxelas e Berlim ordenam.

3. A proposta do governo grego rompe com a austeridade prevista para a Grécia, em 2015 e 2016, ganhando nessa negociação 8 mil milhões de euros. São nada menos do que 5 pontos do PIB. Mais, a austeridade deixou de atingir sempre os mais pobres. Com os cortes na despesa militar, com o aumento do imposto sobre os lucros e com uma taxa suplementar sobre as grandes empresas e fortunas, o governo grego espera arrecadar 2000 milhões de euros.

4. Os governos mais extremistas da austeridade europeia, entre eles o português e espanhol, procuraram desde ontem disfarçar a derrota do seu discurso, acusando o Governo grego de ter assumido um programa igual ao que Passos Coelho tem vindo a seguir em Portugal.

Esse discurso é uma fraude e não aguenta o confronto dos números. Em matéria de pensões, que foi a grande bandeira de Merkel na chantagem dos últimos meses, as medidas agora anunciadas estão muito longe dos planos dos credores, ficando limitadas ao 1% da população com maiores rendimentos.

Passos Coelho, que governa o país com a energia mais cara da Europa, muito graças ao peso do IVA na factura, não pode dar lições de moral ao governo grego, que continua a recusar o aumento do IVA na electricidade.

Paulo Portas, que fez dos reformas atuais um verdadeiro mealheiro do seu Governo, e que violou todas as linhas vermelhas que algum dia estabeleceu sobre a matéria, devia corar de vergonha perante a recusa do governo grego em cortar nas pensões.

5. É certamente cedo para fazer um balanço exaustivo sobre estas negociações, que estão ainda em curso, e sobre um acordo que ainda não existe e permanece incerto. Sobretudo porque a única forma da Grécia sair do ciclo infernal para onde foi atirada nos últimos anos é a reestruturação da dívida. Sem que se estabilize essa solução efectiva e duradoura para o problemas da dívida, qualquer acordo é precário e insuficiente. Nesta fase, sobre os passos a dar na renegociação da dívida, falta a informação.

6. Uma coisa é já certa. Um Governo que assume a defesa do seu povo e enfrenta as instituições europeias que pretendem prosseguir um plano de austeridade que falhou, consegue melhores resultados do que outro que se limita a obedecer.

7. É por isso que as reações do governo português merecem repúdio.
As declarações de Passos Coelho correspondem à tentativa de preservar a ideia, derrotada pela reacção à proposta grega, que não há outro caminho senão a obediência e uma austeridade sem fim. Esta reacção envergonha Portugal e prejudica o nosso país. Hoje mesmo, a imprensa económica mundial aponta Portugal como a vítima mais provável das consequências da falta de um acordo sobre a Grécia. Que, nessas condições, Passos Coelho tudo faça para sabotar qualquer entendimento
demonstra a prioridade que dá à agenda partidária sobre os interesses do país e a irresponsabilidade do governo que temos”.

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