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A crueldade e/ou a incompetência contra a Grécia

O que querem o establishment europeu e o FMI é atacar os sindicatos e o sistema de negociação coletiva que defende os interesses da classe trabalhadora, bem como destruir o sistema de proteção social, incluindo as pensões. É um ataque frontal à classe trabalhadora grega. Por Vicenç Navarro, Público.es
O problema de Merkel e Obama é que o Syriza continua a gozar de um grande apoio eleitoral. Foto de Renato Soeiro
O problema de Merkel e Obama é que o Syriza continua a gozar de um grande apoio eleitoral. Foto de Renato Soeiro

A maioria dos cidadãos em Espanha não tem plena consciência do quão enormemente limitada é a diversidade ideológica nos meios de informação espanhóis. A quase ausência de vozes críticas e a sabedoria convencional do país, fazem que a população não repare neste enorme défice democrático existente em Espanha (incluindo na Catalunha), que é um dos maiores problemas da democracia espanhola, fruto do enorme domínio que o que antes se chamava de classe capitalista (e agora se chama os 1%) tem sobre os média (tanto públicos quanto privados). Um exemplo disso são as reportagens sobre o que ocorre na Grécia e as negociações que o governo de Atenas está a levar a cabo com a Troika (o Fundo Monetário Internacional, FMI, o Banco Central Europeu, BCE, e a Comissão Europeia), bem como com o Eurogrupo, constituído pelos Ministros da Economia e/ou Finanças dos países da Eurozona (claramente dirigidos pelo representante do governo conservador alemão e, em situação de docilidade e subsidiaridade, pelo governo socialista francês). Na grande maioria dessas reportagens sobre as negociações, afirma-se que o seu impasse (que poderia terminar com a expulsão da Grécia dessa comunidade monetária – a Eurozona) se deve à incompetência, à inexperiência e às posições rígidas do governo grego, dirigido nas negociações pelo seu Ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, que sistematicamente é apresentado como um narcisista procedente do mundo académico, sem o tato e a diplomacia que tais negociações requerem, e cujo comportamento está a esgotar a paciência do establishment europeu e do FMI, cujas propostas são apresentadas como racionais e lógicas, necessárias para ajudar a Grécia. As vozes críticas a esta interpretação dos factos são sistematicamente vetadas e/ou marginalizadas, reproduzindo assim a sabedoria convencional, que é, nem mais nem menos, a promoção de uma grande mentira. E utilizo a expressão “grande mentira” e não o termo “grande ignorância” porque o establishment europeu sabe muito bem o que ocorre e o que se está a passar, que, por enquanto, se desenvolve de acordo a um plano predeterminado com um objetivo que é cada vez mais claro.

Que está a tentar o establishment que governa o euro?

Como mostrei em artigos anteriores, a enorme avalanche mediática contra o governo Syriza tem um objetivo claro. Não é a expulsão da Grécia da Eurozona, mas sim a expulsão do Syriza do governo (ver o meu artigo “Los establishments políticos y financieros europeos quieren terminar con Syriza”). Como bem reconheceu nada menos que o Presidente do Banco Central Europeu, o Sr. Draghi (cuja hostilidade ao governo do Syriza é bem conhecida – ver o meu artigo “El ataque frontal del gobierno alemán y el BCE a Grecia”), o tema hoje nas negociações é político, mais que económico e financeiro. O que estão a tentar é destruir todos os instrumentos que a classe trabalhadora tem ao seu alcance – o governo do Syriza e os sindicatos – para, de uma vez por todas, recuperar um governo dócil às suas ordens e mandatos, defendendo uma ordem que beneficie os interesses financeiros e económicos que o establishment europeu (incluindo o grego) representa. A evidência disto é esmagadora.

As propostas absurdas que querem impor à Grécia

Contra o que foi informado em Espanha, o governo grego fez um grande número de concessões, tais como manter um superávit primário durante muitos anos, passando este de 0,6% do PIB em 2015 a 3,5% em 2022 (o superávit que se quantifica uma vez descontados os juros pagos pela dívida do Estado), respeitar as privatizações de centros nevrálgicos da economia grega, atrasar várias medidas – como o aumento do salário mínimo –, renunciar à renegociação da dívida, e muitas outras (ver o meu artigo “La canallada que le están haciendo a Syriza en Grecia”). Propôs também uma arbitragem das negociações, pondo-as sob a direção da OCDE ou da Organização Internacional do Trabalho (ver “A Greek Deal Could be in the Offing – Given the Will”, Reiner Hoffmann, Gustav Horn e Gesine Schwan, Social Europe, 15/6/15).

Ora tudo isto, pelos vistos, é insuficiente para o establishment europeu e para o FMI. O que na realidade querem é atacar os sindicatos e o sistema de negociação coletiva que defende os interesses da classe trabalhadora, bem como destruir o sistema de proteção social, incluindo as pensões. É um ataque frontal à classe trabalhadora grega. Não há outra maneira de o definir. É a luta de classes na sua expressão mais dura e cruel, com o objetivo de destruir os instrumentos de defesa do mundo do trabalho.

Acusa-se a Grécia de ter pensões excessivas, reduzindo ainda mais o seu nível (já foram reduzidas em 48% desde 2010). Na realidade, o Financial Times informou que 45% das pensões estão abaixo do nível de pobreza.

E estas medidas querem-nas impor com base na enorme falsidade em que se sustentam. Por exemplo, acusa-se a Grécia de ter uma excessiva proteção social, acusando-a de ter pensões excessivas, exigindo-lhe que aumente a idade da reforma em nada menos que cinco anos, reduzindo ainda mais o nível das pensões (que já foram reduzidas em 48% desde 2010). Na realidade, o Financial Times informou que 45% das pensões estão abaixo do nível de pobreza (ver “Q&A: Greek pensions – deal or no deal”, Financial Times, 4/6/15).

Outra exigência é fazer uma reforma do mercado laboral, enfraquecendo, e em muitos casos eliminando, os contratos coletivos, com a intenção explícita de baixar os salários (dos mais baixos da Eurozona) para aumentar as exportações, sem considerar o impacto negativo que isso suporia no poder aquisitivo da população e, portanto, na procura interna e no consequente estímulo económico. E assim um longo etc. (ver “Germany is Bluffing on Greece”, de Mark Weisbrot, CounterPunch, 15/6/15).

Como bem disseram Joseph Stiglitz, Paul de Grauwe, Amartya Sen, Paul Krugman, Mark Weisbrot e outros economistas de grande credibilidade, estas medidas, pertencentes ao dogma neoliberal, são “absurdas”, de uma “crueldade sem limites”, “exemplo do que não se deve fazer num país que tem estado em recessão por muitos anos”, “não fazem sentido do ponto de vista económico” e outros termos parecidos.

O suposto fim do euro? Não acreditem!

Já começou a aparecer de novo o argumento de que essas medidas são necessárias para a Grécia, para a Eurozona e para o euro. “Salvar o euro” foi o argumento constante utilizado para impor as absurdas políticas neoliberais que têm prejudicado enormemente o bem-estar e a qualidade de vida das classes populares dos países da Eurozona.

Asseguro-vos a vocês, leitores, que o euro não vai desaparecer, pois a existência das condições impostas para o funcionamento do euro beneficiou enormemente o capital financeiro europeu, hegemonizado pelo alemão. 

Asseguro-vos a vocês, leitores, que o euro não vai desaparecer, pois a existência das condições impostas para o funcionamento do euro beneficiou enormemente o capital financeiro europeu, hegemonizado pelo alemão. E mais, a saída de Grécia do euro poderia significar, segundo Wolfgang Munchau, do Financial Times, a perda para Alemanha e a França de 160.000 milhões de euros. É por isso que a saída da Grécia do euro é muito pouco provável que ocorra. Na realidade, a grande preocupação que tem o establishment político europeu (e o dos EUA) é que a Grécia possa sair do euro. O binómio Merkel-Obama não quer nem pensar nesta possibilidade. A saída da Grécia do euro significaria uma mudança substancial do sistema de alianças no mundo ocidental, com a aproximação da Grécia à Rússia, e inclusive à China (que se converteriam nas suas fontes de crédito), a saída da Grécia da NATO, a participação da Grécia no desenvolvimento do famoso projeto de gasoduto proposto pela Rússia, fazendo a Europa mais dependente, pelas suas necessidades energéticas, da Rússia, e muitas outras mudanças totalmente indesejados pelo binómio Merkel-Obama. Num momento de rearmamento e revitalização da Guerra Fria, estas mudanças são intoleráveis. E daí que estejam a tentar, por todos os meios, conseguir a expulsão do Syriza do governo grego.

O problema que têm é que o Syriza continua a gozar de um grande apoio eleitoral. Segundo as últimas sondagens (de há um par de semanas), a aprovação que tem o governo de Tsipras é de nada menos que de 66%, e isso apesar de as forças conservadoras, incluindo as liberais (todas elas claramente hostis ao governo do Syriza), controlarem os meios de informação e persuasão gregos, cujos artigos são sistematicamente reproduzidos nos média espanhóis. O establishment espanhol não quer que o Syriza permaneça no poder, pois a existência do seu governo mostra a crueldade e ineficácia das suas próprias políticas de austeridade.

18 de junho de 2015

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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Sobre o/a autor(a)

Catedrático de Ciências Políticas e Sociais, Universidade Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha).
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