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Defender as pensões é “radicalismo exagerado”?

Na hora em que a corda é esticada ao máximo, a direita portuguesa redobra os ataques ao governo grego, com a ajuda de altos dirigentes do PS.

A direita portuguesa tem feito uma campanha a denegrir a Grécia baseada numa mentira. Dizem ministros e dirigentes políticos do PSD e do CDS que Atenas está a viver dificuldades de financiamento e se encontra à beira da bancarrota por causa da política do Syriza. Ao contrário de Portugal, que foi um bom aluno e cumpriu sempre as receitas da troika e por isso “tem os cofres cheios”.

Em poucas palavras consegue-se acumular um número considerável de mentiras.

1.ª mentira: O Syriza só governa a Grécia desde 26 de janeiro deste ano. Quem conduziu aquele país ao atual desastre financeiro foram o partido-irmão do PSD, a Nova Democracia, e o partido-irmão do PS, o Pasok, que obedeceram à austeridade da troika desde o primeiro Memorando, que data de 2010.

2.ª mentira: As dificuldades de financiamento são causadas pela chantagem da troika e começaram antes da posse do Syriza. Na verdade, a troika retém um pagamento à Grécia de 7.200 milhões de euros, bloqueado desde agosto de 2014, quando Antonis Samaras era primeiro-ministro. Sublinhe-se que nesse valor incluem-se 1.900 milhões que são a parte da Grécia nos lucros do BCE, e outros 1.200 milhões em obrigações pagas com dinheiro do orçamento grego e transferidas para o Mecanismo Europeu de Estabilidade.

3.ª mentira: Os “cofres cheios” do Estado português estão repletos, sim... mas de dívidas. E, apesar de a dívida grega ser a maior, em termos absolutos, da zona euro, o serviço dessa dívida é quase metade do da dívida portuguesa. A Grécia tem de pagar anualmente 2,6% do PIB aos credores, enquanto Portugal paga 5%.

Mas, dirá o leitor, tudo isso é muito bonito, mas a verdade é que Portugal pode dar-se ao luxo de leiloar bilhetes do tesouro a juros negativos e antecipar os pagamentos ao FMI; enquanto a Grécia tem um litígio brutal com o FMI e pode deixar de lhe pagar, e não consegue financiar-se.

A questão são as pensões

É aqui que entram as dificuldades do governo do Syriza. Se Samaras tivesse ganho as eleições, não há dúvidas de que a Grécia estaria no 3º Memorando e o esforço nacional para pagar o serviço da dívida teria já dado um salto. Mas o ministro das Finanças grego provavelmente estaria a dizer que tinha os “cofres cheios”. Ora como o governo é do Syriza, que mantém “linhas vermelhas”, está o caldo entornado. A corda foi esticada ao máximo, e à beira de partir-se porque, sabemos agora, as instituições europeias não aceitam qualquer alternativa à redução das pensões e ao aumento do IVA.

O que a troika quer não é reduzir a dívida da Grécia – afinal, toda a política de austeridade só fez aumentá-la. O que a troika quer é humilhar a Grécia.

A chantagem aparece assim em todo o seu esplendor: a Grécia afirma que vai cortar no orçamento da Defesa o mesmo valor que o FMI exige que seja retirado das pensões? Inaceitável! O que a troika quer não é reduzir a dívida da Grécia – afinal, toda a política de austeridade só fez aumentá-la. O que a troika quer é humilhar a Grécia, como disse Tsipras, o que a sra. Merkel, a sra. Lagarde e o sr. Draghi pretendem é impor o seu programa ideológico aos países do sul da Europa, sem aceitar um desvio, por mínimo que seja.

E é aqui – na questão das pensões – que se desfazem as ilusões daqueles que dizem que Portugal não é a Grécia. A Grécia, pela política dos governos da Nova Democracia e do Pasok, já viu as pensões reduzidas em 40%. A troika não abre mão de uma nova redução.

Portugal, já o sabemos, tem de reduzir as pensões em 600 milhões de euros. A ministra das Finanças já o anunciou, mesmo que depois tenha lançado uma nuvem de fumo sobre a questão, porque, afinal, estamos às vésperas das eleições. Mas que ninguém duvide que, por mais bom aluno que seja, Portugal, se não quiser entrar em choque com as instituições europeias, terá de fazer novo corte radical das pensões.

PS: na hora decisiva, os ataques são dirigidos ao Syriza

E o PS, que diz disto? Duas citações sobre o braço-de-ferro entre a Grécia e a UE dizem tudo:

Carlos César (esta segunda-feira na RTP Informação): o PS sempre se opôs “ao radicalismo exagerado por parte do Syriza”.

António Costa (em entrevista ao Observador): “Temos de travar um combate na UE de forma inteligente, não de forma tonta como o Syriza”.

Está tudo dito.

E qual é a proposta “não radical” do PS para as pensões, diante do corte de 600 milhões que o governo quer efetuar? Uma solução mágica que acaba seguindo a mesma linha do corte, só que usando uma artimanha: reduz-se os descontos para a Segurança Social, aumentando hoje o rendimento disponível. Mas essa redução significa um empréstimo forçado sobre as pensões futuras, já que a redução dos descontos de hoje significa pensões mais baixas amanhã.

Eis o que significa a solução “esperta”, diante das propostas “tontas” dos que simplesmente rejeitam os cortes das pensões.

É ou não é a pura “esperteza saloia”?

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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