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Passos-Portas Airlines

É esta a imagem de Portugal hoje: os aviões que levaram para longe os jovens que não tiveram qualquer oportunidade de carreira profissional em Portugal foram há poucos dias oferecidos por 10 milhões de euros – comete-se o crime e esconde-se a arma.

“Portugal não ganhava tanto dinheiro com emigrantes desde o início do século” é o título de uma das notícias de destaque do Público, da semana passada.

Desde os anos ’60, com a vaga de emigração que surgiu por causa das más condições de vida que o regime salazarista imprimiu em Portugal, que os portugueses transferem para Portugal as suas poupanças vindas do estrangeiro (França, Suíça, Luxemburgo, Alemanha, etc.). Este indicador, que combina o saldo líquido entre o dinheiro enviado para o país por portugueses no estrangeiro e os valores que os imigrantes mandam de Portugal está em máximos dos últimos 13 anos.

Em 2005, o valor rondava os 1717 milhões, mas o maior crescimento deu-se a partir de 2010, após Portugal ter mergulhado numa crise social imensa e as medidas de austeridade impostas ainda pelo Governo de José Sócrates (PS) e mais tarde pelo Governo Passos-Portas (PSD-CDS). Nestes últimos 10 anos, esse valor cresceu abruptamente, tendo atingido os 2522 milhões no ano passado e as perspetivas são que continue a aumentar. Angola, Espanha, Reino Unido são alguns dos países que fazem disparar estas transferências. Os novos emigrantes, que procuram uma vida melhor nestes países, são expressão de uma geração que se formou em Portugal mas só conseguiu arranjar emprego fora do país.

O flagelo da emigração não foi coisa passageira de alguns anos de sacrifício para agora tudo voltar ao normal, como o Governo sugere. Antes pelo contrário, as medidas de austeridade e o garrote da dívida foram responsáveis pela perda da geração melhor preparada que alguma vez Portugal conheceu.

Ainda que Passos Coelho tente, agora, dar a volta às suas declarações, não esquecemos nunca o seu convite feito a todos os jovens portugueses no sentido de procurarem outros destinos, Portugal tinha desistido da nossa geração. Foi até mais do que um convite: a emigração tornou-se um imperativo para quem viu o seu país à venda nos últimos anos, com uma dívida que só aumentou, precarização das relações laborais e índices de desemprego jovem perto dos 40%.

É esta a imagem de Portugal hoje: os aviões que levaram para longe os jovens que não tiveram qualquer oportunidade de carreira profissional em Portugal foram há poucos dias oferecidos por 10 milhões de euros – comete-se o crime e esconde-se a arma.

Sobre o/a autor(a)

Museólogo. Deputado e membro da Comissão Política do Bloco de Esquerda.
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