You are here

Quando o tempo para

Passava horas com o olhar fixo no relógio que estava ao fundo do corredor. Durante algum tempo acalentou a esperança que voltasse a trabalhar, mas desistiu. No fundo habituou-se. Estava parado havia muitos anos, quase tantos como os de casada. Tinha sido dos poucos pertences da mãe que trouxera para casa. É que já em pequena se acostumara a olhar para ele, mas nessa altura desejava que os ponteiros não rodassem, para não o ver chegar, para não ter mais uma vez que se esconder dentro do armário.

O relógio parou apenas num final de tarde de outono, quando já tinha 27 anos. Foi um dia de chuva como muitos outros passado no arquivo da biblioteca, onde tantas vezes depois pensara desafiar o próprio sistema respiratório entre as prateleiras dos livros mais antigos. Imaginação não lhe faltava. O tempo sobejava-lhe para isso, mas a força, por vezes chamada de coragem, traía-a nos últimos minutos e acabava por voltar àquele lugar marcado pelos ponteiros estagnados.

Naquele dia chuvoso tinha-se entretido a falar ao telefone. Não deu pelo tempo passar e esqueceu completamente a hora da sagrada refeição. Muito menos ouviu o rodar da chave ou mesmo o bater da porta. Apenas se lembra dos gritos e do choque contra a parede decorada pelo velho relógio de madeira em talha dourada. Eram precisamente 7 horas da tarde e 35 minutos.

Limpou o sangue que lhe escorria da boca com o primeiro pano que apanhou e fritou uns bifes à pressa. Nessa noite não falou nada, tal como no dia seguinte e nos subsequentes. Na verdade nem a um padre ousaria queixar-se dos ponteiros do relógio que deixaram de se mexer. Afinal tinha sido sempre assim. Aprendera apenas a secar as lágrimas e a mascarar a raiva de uma forma assustadoramente brilhante. Tal como fazia com as nódoas negras espalhadas pelo corpo. Raramente se notavam por fora.

Gostava de ter sido uma criança irrequieta e tagarela. Daquelas que não calam. Isso teria mudado tudo. Podia ter-se conquistado, experimentado drogas, dançado até de madrugada ou simplesmente saído de casa – a outra, muito semelhante a esta - antes de subir ao altar.

Não foi assim. Hoje apenas anseia pela visita da determinação e da audácia que nunca conheceu. Para parar de respirar ou simplesmente partir o relógio. Talvez consiga fazer a mala ou, quem sabe, espetar-lhe no peito os ponteiros ainda afiados. Eventualmente num dia chuvoso de outono. Para que não estremeça mais quando sentir aqueles passos pesados. Para que o tempo não ouse voltar a parar nas 7 horas da tarde e 35 minutos.

Sobre o/a autor(a)

Trabalhadora da administração local
(...)