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Emir Kusturica: “A Ucrânia é um remake da Jugoslávia”

Em entrevista ao L’Humanité, o realizador jugoslavo critica a cooptação do cinema pela máquina de guerra ocidental e afirma que a expansão da NATO e da UE estão por detrás do desmembramento da Ucrânia, à semelhança do que se passou na Jugoslávia.
Foto PanARMENIAN Photo / Ara Aslanyan

Porque é que escolheu expressar-se através da literatura?

Eu percebi que poderia ser criativo ao fazer o filme Guernica durante os meus estudos na escola de cinema de Praga. Desde então, a minha criatividade nunca mais parou. Tive a sorte de me encontrar. Eu posso criar a minha vida em relação aos meus diversos projetos. Desde os meus primeiros filmes, tenho cultivado um bom relacionamento com o público. Provavelmente porque não estava a tentar comunicar, mas sim fazer filmes. Eu exploro as profundezas da história da minha família. Tento ir de encontro à escuridão. Mas isso depende exclusivamente de um desejo. A arte é certamente o ponto culminante da comunicação, o artista não comunica com o público, mas com sua própria necessidade de criar.

Porque razão as suas histórias são tão pessoais?

Estou muito ligado à linguagem cinematográfica do inicio dos anos 70. Estes são os anos dourados para o cinema e a arte em geral. Os Estados Unidos, que moldaram o mundo militar e artisticamente, eram na década de 70 muito mais livres do que hoje. Depois do Vietname, houve uma série de filmes sobre a guerra perdida pelos americanos. Hoje a liberdade de expressão tornou-se uma expressão controlada. A NSA (National Security Agency) escuta todos os cidadãos norte-americanos. É assustador. Nos anos 70, os EUA estavam falando sobre o nazismo e fascismo. Basta lembrar de Cabaret, um filme de Bob Fosse, de Midnight Cowboys e Five Easy Pieces. Havia quase uma filosofia existencialista falando livremente da vida, da derrota do Vietname, por escritores de livros. E em seguida, no cinema, George Lucas começou a recriar o universo, Spielberg fez o E.T. O projeto de entreter a mente criada por Ronald Reagan, especialmente para os americanos, longe de uma posição crítica, transformou os filmes em puro entretenimento. As pessoas que continuaram a fazer aquilo que queriam foram marginalizadas, e os seus filmes mal distribuídos. Na Europa, por exemplo, o cinema tem o foco na autoria. Mas a pressão económica faz os autores ficarem cada vez mais politicamente corretos.

Que leitura faz dos acontecimentos na Ucrânia?

A guerra humanitária é na realidade uma legalização da guerra. Wall Street depende da guerra. O valor psicológico de uma ação depende da maneira em que se é agressivo em algumas partes do mundo. Várias guerras, pequenas em tamanho, desenvolvem-se um pouco por todas as partes do planeta. A esta altura, a opção dos conflitos de baixa intensidade parece estar esgotada. E a Ucrânia marca um ponto de inflexão. A Rússia já não aceita ver-se rodeada pela expansão contínua da OTAN. O ideólogo estadunidense Zbigniew Brzezinski tem escrito muito sobre o “desafio da Eurásia”, à sua vista fundamental — isto é, o controlo e a colonização da Rússia e do espaço ex-soviético. A Ucrânia é, portanto, a primeira etapa neste desmantelamento imaginado por Brzezinski.

Isso faz lembrar do que aconteceu na antiga Jugoslávia?

Em Kiev, a historia de franco-atiradores que abriram fogo na praça Maidan assemelha-se de maneira perturbadoramente parecida aos acontecimentos de Sarajevo em 1992. Durante o cerco da cidade, atiradores isolados aterrorizaram a população e ninguém em Sarajevo sabia de onde vinham os tiros. Exatamente igual a Kiev. Ainda não sabemos quem abriu fogo contra os manifestantes e as forças da ordem. Hoje em dia, aparece outra verdade distinta daquela imposta pelos meios de comunicação. Isto é o que tratava de descrever no meu filme Underground: outra realidade. E foi feito em 1995. Os dirigentes conhecem a verdade sobre estes eventos. Até fizeram parte deles e agora fazem-nos passar por imbecis. As grandes potências jogam num tabuleiro de xadrez onde a Ucrânia ou a ex-Jugoslávia aparecem como peões. Trata-se de uma repetição do cenário que ocorreu na Jugoslávia e que levou ao seu desmantelamento por interesses similares: a expansão da OTAN e da União Europeia (UE). A constituição da UE é responsável pelos dois dramas. Para se alargar e aumentar sua área de influência, dividiu os estados para impor suas leis nos territórios pequenos. Para mim, o que é inaceitável é que as pessoas se acomodaram. Felizmente, há momentos de esperança.

A chegada ao poder dos comunistas na Grécia faz parte disto. Sua vitória é histórica e pode, como na América Latina, trazer um verdadeiro impulso. Este fenómeno vai repetir-se durante os próximos anos. O ascenso da extrema direita e dos partidos fascistas, ou inclusive nazistas como na Ucrânia, onde estão no poder, criará uma resistência para lhe fazer frente. O choque é inevitável.

A histeria da imprensa no que diz respeito à Rússia e Putin faz lembrar o tratamento mediático contra os sérvios durante a guerra na Jugoslávia?

Isso foi o ponto de partida. Em 1992, diversos atores trouxeram alguns aspectos para criar um ambiente propício ao conflito. Logo legalizaram uma intervenção em nome da ajuda humanitária. Qualquer possibilidade de paz foi descartada e a Jugoslávia desmembrou-se, deixando Slobodan Milosevic como único responsável. O Kosovo é um bom exemplo das mentiras e justiça aleatória. Apoiaram a separação da região em nome do direito dos povos, mas se opuseram a ela na Crimeia! Os Estados Unidos e o campo atlantista impõem a sua verdade porque se comportam como vencedores da Guerra Fria. Pensam que triunfaram sobre o marxismo e mataram o comunismo.

Todos os acontecimentos que se seguiram após a queda do Muro de Berlim revelam as falsas promessas feitas a Mikhail Gorbachov, acerca da não extensão da OTAN. Isso resume a sua conceção da diplomacia como forma de assegurar a sua supremacia. A extensão da órbita euro-atlântica é imperativa. Este século será, para os Estados Unidos, um ponto de inflexão. O aumento da sua riqueza e influência dependem do seu domínio através do modelo neoliberal. Esse modelo, que tem sido imposto ao resto do mundo pela via da globalização, baseia-se na competição, na exploração e na desigualdade. Esta competição, os EUA já não poderão ganhá-la indefinidamente ante o ascenso das potências emergentes. Ao enfrentar essa fase de depressão, criam armadilhas. Mas não tinham previsto que a Eurásia se levantaria contra a dominação do Euro-atlantismo. Deve ter-se em conta a proximidade geográfica, que levará a Rússia e China a acabarem por cooperar.

Kusturica em 5 filmes


(1985) O pai foi em viagem de negócios – Na sua segunda longa-metragem, o diretor iugoslavo ganhou a sua primeira Palma de Ouro em Cannes, com apenas 31 anos.


(1989) Os tempos dos ciganos – Recebeu o prémio de realização no Festival de Cannes.


(1993) Um sonho americano – Na sua primeira experiência norte-americana, Emir Kusturica monta um excelente elenco (Johnny Deep, Jerry Lewis, Faye Dunaway) e o voar dos peixes numa canção para Iggy Pop sendo premiado com o Urso de Prata em Berlim.


(1995) Underground – Ganhou a segunda Palma de Ouro com o retrato histórico-familiar na Iugoslávia, e os 50 anos que vão desde a década de 1940 a sua dissolução em 1990. O filme abre a polémica acerca do caráter pró-sérvio da obra.


(1998) Gato preto, Gato Branco – Depois de algum tempo sem filmar, Kusturica ganhou o Leão de Prata em Veneza.



Por Vadim Kamenka e Michaël Mélinard, em L'Humanité | Tradução: João Victor Moré Ramos para o portal Outras palavras.

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