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(Des)emprego nos Açores

Fora diversas medidas para apoio a desempregados/as e programas de ocupação sustentados por dinheiros públicos, o número de trabalhadores a tempo inteiro, nos Açores e no último ano, diminuiu, e o novo emprego é, preferencialmente, a tempo parcial.

Os dados do INE obrigam-nos a uma análise lúcida, quanto à situação social dos Açores, em particular, aos números do PIB per capita, do desemprego e da qualidade do emprego.

Não esquecemos as palavras do Presidente do Governo Regional, no debate do Plano e Orçamento para 2015: “A criação de emprego é, para o Governo, o desafio central, decisivo, prioritário”. Que tipo de ‘emprego’ é o que, agora, importa perceber.

O PIB dos Açores registou, em 2013, o maior crescimento de todas as regiões do País, com 1,7%. A Região Autónoma dos Açores (RAA) foi a que mais convergiu para as médias Nacional e da União Europeia. Em 2011, as famílias dos Açores tiveram um rendimento disponível bruto de 11.913 euros, superior à média Nacional, que se situava nos 11.532 euros.

Este facto permitiu ao Vice-Presidente do Governo Regional tirar uma conclusão extraordinária: “Cada açoriano tem um rendimento disponível superior em 381 euros ao que se regista no país, ou seja, cada família açoriana, se for constituída, em média, por quatro pessoas, usufruiu de um rendimento em cerca de 1.500 euros superior ao que se verificava nas famílias do resto do país”!

É bem certo que as estatísticas nos dizem que há uma galinha para duas pessoas, mas não nos dizem se uma delas come a galinha toda e a outra nem a cheira. E é este o caso. Se a riqueza disponível cresceu, nos Açores, mas o empobrecimento progressivo é a regra, na esmagadora maioria dos lares, tal só quer dizer que a redistribuição desta riqueza é profundamente desequilibrada. Sendo a região de maiores desigualdades sociais do País, aqui está o momento dos/as Açorianos/as perguntarem ao Governo Regional: - onde está o dinheiro?!

É que se não está na maioria dos bolsos de quem trabalha – que chega a meio do mês e já não consegue pagar as despesas mais elementares -, tem que sobrar, nos bolsos de alguns poucos.

Mais riqueza não significa, portanto, mais justiça, mais qualidade de vida e menos apoquentações. Neste caso concreto, significa boa vida, apenas, para alguns. Por isso, insistimos: - onde está o dinheiro?

A taxa de desemprego dos Açores baixou, no primeiro trimestre deste ano, para 14,9%, diminuindo 3,1%, no espaço de um ano e 0,6%, relativamente ao trimestre anterior. Os Açores deixaram de ser a região com mais desemprego, embora este permaneça superior à taxa nacional de 13,7%.

Perante estes dados, logo começaram os festejos! Contudo, sem negar os números, não vemos razões para tanta festa.

Estes números refletem a entrada, em pleno funcionamento, de diversas medidas para apoio a desempregados/as. Entre estágios, programas de ocupação e postos de trabalho sustentados por dinheiros públicos, estão mais de 5.000 Açorianos/as.

Bem sabemos que, para quem não tem trabalho, qualquer coisa é melhor do que nada. Mas estas medidas não alteram, na essência, a precariedade da vida das pessoas, a insegurança no futuro e a intranquilidade, em cada casa.

Acresce que, fora destas medidas e programas, o número de trabalhadores a tempo inteiro, nos Açores e no último ano, diminuiu, e o novo emprego é, preferencialmente, a tempo parcial, tendo este aumentado em 17%.

Portanto, temos menos desemprego, é certo, mas temos muito mais precariedade e trabalho muito mais mal pago.

Até quando teremos de dizer ’Obrigada!’ por tão pouco?

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Deputada à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, entre 2008 e 2018.
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