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Vasco Gato: “As políticas de empobrecimento estão a destruir a democracia”

Um dos mais promissores poetas portugueses da nova geração, Vasco Gato, editou recentemente um livro a que deu o nome de Fera Oculta. Um longo poema onde exalta não só o amor ao filho mas também a desilusão que sente perante a situação de Portugal que foi empurrado para o pântano de uma crise devastadora. Em entrevista ao Esquerda.net crítica as políticas de austeridade que responsabiliza pelo aumento da pobreza e das desigualdades. Por Pedro Ferreira
Vasco Gato: "A poesia só por si não muda nada mas pode contribuir para fazer estremecer o conformismo em que nos tentam encerrar"

Decidiste abandonar o registo mais intimista e neste livro falas com o teu filho expondo as feridas de um país a que chamas “um boi tombado/ peso morto arrastado pelos cornos/ apenas para que não o devassem as moscas.” Porquê esta viragem?

Eu não sei se os meus livros anteriores não podem também ter uma leitura política se tivermos em linha de conta que todos os atos da nossa vida têm a marca daquilo que o poder nos impõe. Este é apenas mais óbvio

Mas no Fera Oculta a linguagem é crua, sem eufemismos e há até um verso onde dizes: “Gostaria de te receber num outro lugar”. É um tempo que não gostarias de lhe deixar como herança?

O nascimento de um filho é um momento muito importante. E quando ele germinava ainda no ventre da mãe senti necessidade de escrever sobre a desilusão, a revolta, diria mesmo a repulsa que me acompanham por estar a viver num país dominado pelo medo, enganado e tiranizado pela lógica dos interesses que nos dilaceram e punem como se tivéssemos de expiar uma culpa. A culpa de quem viveu acima das suas possibilidades, apenas porque quis viver de uma forma decente. Não quero que o meu filho cresça num país sequestrado pela pobreza.

Mas isso já foi dito e escrito muitas vezes ao longo dos últimos anos.

Mas há ainda muita gente atordoada e por isso sem capacidade para agir.

O que falta fazer?

Eliminar este discurso, feito de demagogia em que o presente é sempre atirado para o futuro. Que ninguém viverá porque é ele propositadamente adiado e nunca se concretizará.

E como é que se pode vencer este tempo?

A História prova-nos que vivemos por ciclos. E também já demonstrou que há sempre um momento em que as pessoas quebram as amarras da mentira que as vulnerabiliza e caminham no sentido da construção de novas realidades

A História prova-nos que vivemos por ciclos. E também já demonstrou que há sempre um momento em que as pessoas quebram as amarras da mentira que as vulnerabiliza e caminham no sentido da construção de novas realidades. Por isso, todos temos um papel a desempenhar e que passa, no imediato, por ir buscar os descrentes, aqueles que se sentem atemorizados e vencidos por esta crueldade. Apesar das dificuldades, o novo governo grego é uma esperança para toda a Europa porque está a enfrentar com determinação as pressões e a intransigência da União Europeia e do FMI.

E em Portugal?

Talvez seja preciso fazer mais. As pessoas só agem quando despertam para a realidade e há muita gente que ainda não percebeu porque é que tudo isto aconteceu. Ficaram surpreendidas e assustadas com a violência das decisões tomadas pelo governo. É preciso que todos tenhamos consciência que as políticas de empobrecimento estão a destruir a democracia.

No poema repudias o tempo que atravessamos escrevendo: “ que se foda a época/ digo-te já/que se foda a sépia dos futuros/ eu quero aparecer no dia do teu nascimento/amparar-te o susto/ e dizer-te baixinho/ bem-vindo ao continente dos frágeis/podes parar de nadar.” É esta a visão que tens do país?

Sim. E por isso, é imperioso seguir noutra direção.

Os teus poemas têm também uma carga erótica significativa. Corpos que se procuram e se envolvem, o beijo, o sémen, o sangue, as veias, o desejo, a busca física do outro. E também a palavra ventre que descreveste assim quando o teu filho era ainda “magma”: “Durante essa tua natação de fera oculta/ há um papiro que se desdobra na minha boca/ e nunca o futuro/ teve o sabor de palavras tão sobejamente pronunciadas/ família rapaz umbigo.” Como é que defines a tua poesia?

Não gosto de catalogações porque são minimalistas. Não quero contrariar ou esconder aquilo que somos e daí esse erotismo de que falas e que expressa o fascínio que sinto em tornar possível o encontro com o outro.

Admito que o erotismo esteja presente na minha poesia mas não me considero um poeta erótico no sentido estrito do termo. De emoções, sim.

Mas há poesia desprovida de emoções?

As emoções são o reflexo do quotidiano. Se estas não existissem estaríamos peranteuma espécie de não-vida. Por isso, qualquer tipo de manifestação cultural parte sempre desse lado emocional. É, digamos, a sua substância primordial.

Entramos na esfera da arte a partir do momento em que um fenómeno suscita a reação de emoções, em toda a sua riqueza e nuances, como disse o sociólogo alemão, Georg Simmel?

Sem dúvida que sim. A arte não pode ser dominada por grupos fechados que se julgam dotados de inteligência superior. E o fenómeno de que fala Simmel diz respeito a todas as pessoas independentemente da sua posição social ou nível cultural.

Publicaste o teu primeiro livro intitulado Um Mover de Mão aos 22 anos na Assírio & Alvim um ano antes da morte do Hermínio Monteiro, um homem apaixonado pela poesia e que ainda conheceste. Tens assim um percurso que te permite fazer uma análise da evolução da poesia em Portugal. Como é que estamos neste domínio?

As pessoas só agem quando despertam para a realidade e há muita gente que ainda não percebeu porque é que tudo isto aconteceu. Ficaram surpreendidas e assustadas com a violência das decisões tomadas pelo governo. É preciso que todos tenhamos consciência que as políticas de empobrecimento estão a destruir a democracia

Contrariamente ao que muitos pensam, continua a editar-se poesia de qualidade. Há editoras que apostam neste género. Na maior parte dos casos são pequenas editoras, mas esse facto não é determinante porque, apesar das deficiências nos canais de divulgação e da redução das tiragens, os livros acabam por chegam às livrarias e vendem-se.

Os grandes grupos editoriais ainda apostam na poesia?

Aí existe um sentido de lucro mais imediato e por isso a aposta centra-se nos poetas conhecidos alguns dos quais estão nos programas de ensino. Mas como disse, há editoras que apesar das suas fragilidades não ficam presas apenasaos autores consagrados. E isso é estimulante.

É por isso que procuras sempre uma editora diferente quando decides publicar?

De certa maneira, posso dizer que sim. Gosto de desafios e de conhecer outras pessoas ligadas a este género literário e que não temem o risco; apostam em novos poetas que, de outra forma, nunca teriam possibilidades de editar os seus livros.

Mesmo num momento uniformizado, que se vai cimentando à volta de uma espécie de deserto de ideias?

A poesia só por si não muda nada mas pode contribuir para fazer estremecer o conformismo em que nos tentam encerrar.

O poeta italiano, Eugénio Montale (1896-1981) que ganhou o Nobel da Literatura em 1975 referia-se à poesia como “essa coisa inútil, mas tão necessária”.

Uma ironia interessante mas que eu só partilho se acrescentar que a cultura nas suas diversas dimensões tem de ser usufruída por toda a comunidade porque só desta maneira conseguirá ganhar dimensão e ter influência no processo de transformação social.

Em Portugal não se vive da poesia. Como é que sobrevives?

Vasco Gato: “Apesar das dificuldades, o novo governo grego é uma esperança para toda a Europa porque está a enfrentar com determinação as pressões e a intransigência da União Europeia e do FMI”

Eu não tenho uma relação obsessiva com a escrita. Tenho períodos em que não escrevo o que me permite fazer outras coisas, nomeadamente traduzir porque é a partir desta atividade que eu consigo ganhar dinheiro.

E gostarias de viver só da poesia?

Não. O ato de criar não deve ser forçado. Surge naturalmente a partir daquilo que sentimos e observamos. É com base nestas premissas que eu construo os meus livros.

Mas tiveste um sobressalto.

No Inverno passado confrontei-me com uma enorme falta de trabalho e foi muito difícil até porque estava a mudar algumas situações na minha vida e este facto desestabilizou-me.

E não pensaste na poesia nem que fosse como uma tábua de salvação?

Não escrevo para ganhar dinheiro. Mesmo que quisesse não o conseguiria.

Tens 37 anos e já publicaste 11 livros. Quando é que a poesia surgiu na tua vida?

Eu sempre gostei de ler e como sou introspetivo a leitura foi desde muito cedo uma necessidade e também um refúgio. Nela procuro respostas não só para as interrogações sobre o sentido da vida como também para as inquietações que me acompanham. Eu não escrevo de uma forma, digamos, “diarística”. Prefiro esperar pelo momento em que sinto que tenho algo para dizer. Escrevi o último livro ao longo de vários meses. E quando o terminei já conhecia os contornos do rosto do meu filho e também as características do seu choro.

Encontrei na poesia a força das palavras e também a possibilidade de jogar com os seus múltiplos sentidos. Fui seduzido por esta liberdade e talvez tenha sido por isso que decidi começar a escrever poemas.

Entrevista a Vasco Gato, realizada por Pedro Ferreira para esquerda.net

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