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Brasil: greve de um mês contra patrões chineses termina com vitória

Administradores da Chery não queriam cumprir as normas coletivas de trabalho do setor automotivo e calculavam que os operários jovens aceitariam baixos salários. Mas ao fim de um mês tiveram de ceder em toda a linha. Além de conquistar aumentos salariais e a aplicação das normas coletivas, os operários só terão de repor quatro dos 31 dias de greve.
Operários jovens mostraram que são de luta: 31 dias de greve. Foto do Sindicato dos Metalúrgicos de S. José dos Campos.
Operários jovens mostraram que são de luta: 31 dias de greve. Foto do Sindicato dos Metalúrgicos de S. José dos Campos.

Os 470 operários da fábrica de automóveis Chery, na cidade de Jacareí, Brasil, aprovaram o acordo negociado pelo seu sindicato e puseram fim a uma greve a vários títulos histórica. Por, pelo menos, dois motivos: os donos da Chery são chineses, e a fábrica foi primeira que a gigante automobilística instalou fora da China; a greve durou um mês, sendo uma das mais longas greves dos metalúrgicos da região nos últimos 20 anos.

O resultado foi, sob todos os pontos de vista, uma retumbante vitória.

Empresa foi às últimas consequências”

A greve começou no dia 6 de abril para pressionar a empresa a assinar as normas coletivas de trabalho do setor automotivo. Segundo Guirá Borba Guimarães, dirigente sindical, e operário daquela fábrica, “a empresa foi às últimas consequências para burlar os direitos dos trabalhadores”, já que a operação “estava fora dos padrões brasileiros em termos de salários e benefícios”. Além de que os salários estavam muito desfasados, observou o sindicalista. “No decorrer do movimento os próprios trabalhadores criaram consciência da necessidade de garantir os seus direitos”, explica Guimarães.

Finalmente, na última quarta-feira, a Chery aceitou os principais pontos da lista de reivindicações, entre eles a cláusula 40 da Convenção Coletiva dos metalúrgicos, que prevê estabilidade no emprego para os trabalhadores vítimas de doenças e acidentes do trabalho.

Conquistas reais

A empresa também aceitou reajustar o piso salarial de 1.199 reais (357 euros) para 1.850 reais (cerca de 550 euros), estender o convénio médico aos familiares dos trabalhadores, reduzir gradualmente a jornada de trabalho de 44 para 42 horas semanais, fim da cobrança das refeições e estabilidade de 90 dias para todos os trabalhadores.

Foram ainda aprovadas cerca de 50 cláusulas do acordo coletivo. Além disso, empresa e Sindicato darão início às discussões sobre o Plano de Cargos e Salários e o fim da subcontratação irregular na fábrica. Dos 30 dias de paralisação, os trabalhadores terão apenas de compensar quatro.

Os pontos em que não houve acordo irão para julgamento no Tribunal de Trabalho.

Organização é fundamental

“Foi uma grande vitória de todos os metalúrgicos, especialmente considerando o atual cenário do setor automotivo, que vem realizando despedimentos e férias coletivas. Os metalúrgicos da Chery mostraram que não aceitarão trabalho precarizado. O resultado desta mobilização só confirma que a organização dos trabalhadores é fundamental para que a classe trabalhadora conquiste os seus direitos”, disse o presidente do Sindicato, Antônio Ferreira de Barros, o Macapá.

Para Guirá Borba, “a Chery achava que contratando trabalhadores jovens seria fácil impor salários baixos e péssimas condições de trabalho. A greve provou exatamente o contrário. A juventude mostrou que é de luta”.

A fábrica de Jacareí foi inaugurada em outubro de 2014 e produz para venda desde fevereiro deste ano. Neste período de paralisação, cerca de 500 veículos deixaram de ser produzidos.

A Chery é a primeira fabricante de automóveis chinesa a investir na construção de uma fábrica no Brasil. Desembarcou no Brasil em agosto de 2009, considerando que o mercado brasileiro é promissor para a sua estratégia de internacionalização.  

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